antónio

(Sotana)
75 anos

Acede à conversa, dispensa a fotografia. Daí recorrer, em cima, ao sobrenome pelo qual é amplamente (re)conhecido.

Quando nos encontramos e encaminhamos para um dos bancos do Jardim do Largo dos Combatentes falamos de trabalho. De trabalho e da reforma. Conta-me que trabalhou durante 36 anos e 3 dias. Acho interessante esta precisão.

Sentamo-nos. Nenhum sabe ainda por onde se desdobrará a conversa sendo certo, penso que para ambos, que falaremos do “seu” Chave Dourada.

Começamos pelas origens. Nasceu em Mação, o pai era Chefe da Secretaria da Câmara, a mãe era doméstica. Relembra-me que há 75 anos vivia aqui o triplo da população actual. O movimento na Vila era muito maior, sem as comodidades, equipamentos e oferta de hoje, mas muito mais activo. Aponta para a velhinha Escola Primária, já desactivada, hoje um pólo do Museu. Foi onde fez o 1.º ciclo. Seguiu para o Colégio, então na Quinta das Encruzilhadas. No seu processo de admissão passou o Colégio D. Pedro V para as instalações “novas” que serviram a terra muitos anos. Fez uns exames do colégio velho e outros já no novo. Quando frequentava o antigo 7.º ano (final do ensino secundário) foi chamado para a tropa, onde esteve 18 meses. Escapou à Guerra por ser da Artilharia, “alguns Colegas da Infantaria já não tiveram essa sorte, por sorte naqueles meses não precisaram da Artilharia”.

Concluiu os estudos já em Lisboa e ingressou nos Correios. “Fiz primeiro o estágio em Viseu, seguiram-se 9 terras por Portugal e estava nos Correios do Aeroporto, novamente em Lisboa, quando sai dos Correios e fui para a Caixa Geral de Depósitos”.

Deixou a Caixa para voltar à terra. Tinha 28 anos. O Chefe, na Caixa, disse-lhe “que fazia asneira”. Não é que se arrependa, aqui veio a casar e foi onde teve a sua filha mas reconhece que ”se lá tenho ficado, provavelmente outro galo cantaria”.

A Câmara

Já de volta foi trabalhar para a Câmara onde esteve de 1964 a 1995. “Comecei como Escriturário de 2.ª, que era a posição mais baixa. Naquela altura, para ir para a Câmara, tinha que se ter, pelo menos o 5.º ano (antigo). Já nas Finanças, bastava ter a 4.ª classe e ganhava-se o mesmo”.

Passou entretanto a Escriturário-Dactilógrafo. Isto numa altura em que “na Câmara havia uma máquina de escrever para todos, havia outra mas não era grande coisa e, mais tarde, veio uma nova”. Sobre o seu trabalho na Secretaria da Câmara relembra ainda um tempo em que “não havia fotocopiadora, o chato era quando era preciso uma cópia de uma declaração e tínhamos que a escrever à máquina exactamente igual ao original, com os mesmos erros e tido. Aquilo era danado, íamos embalados a escrever e quando olhávamos devíamos ter dado um erro e tínhamos escrito bem”. Rimo-nos os dois mas depois António remata “olhe que na altura não tinha piada nenhuma”. Explica ainda que para todo o serviço havia também só um pequeno furador, um agrafador, enfim, era tudo partilhado. Os tempos mudaram…

Quando se deu o 25 de Abril passou a 3.º Oficial. Deslumbram-me estes nomes, tão diferentes dos de hoje, tinham uma certa pompa, se calhar havia também mais circunstância. Passaram todos àquela categoria pois a Câmara não tinha quadros para mais. Diz que o pior naquela altura “era a falta de formações, tínhamos que nos desenrascar, não havia uma uniformidade com o resto do país”. Quando se reformou era Chefe de Secção. Reformou-se, como referiu, ao fim de 36 anos e 3 dias de trabalho.

A reforma trouxe-lhe mais tempo que partilha com a mulher, também já reformada. Era professora do 1.º Ciclo. Diz que ela se entretém com a renda, ele tem a famosa Chave Dourada, mas o trabalho que lhe requer não é diário. Do pai, além do Chave Dourada herdou o gosto pelas plantas. Dedica-lhes também algum tempo. Antes tinha as hortas mas o fogo levou tudo.  Conta que o pai “tinha um gosto às plantas sem explicação, mandava vir plantas de todo o lado, era no que gastava dinheiro, mas gastava algum, era uma paixão”. No meio explica-me que para os vasos não encharcarem se deve colocar uma camadinha de telha no fundo. Agradeço-lhe a explicação.

Além da jardinagem lê os jornais diários e vê os noticiários na televisão mas tem que ter cuidado pois diz que se enerva “ refilo com algumas notícias mas tenho que ter cuidado, senão sobe-me a tensão. (Risos) Refilo com as notícias porque não se compreendem certas coisas, como isto agora da Ministra da Agricultura, não pode ser. Há muita falta de tacto político”.

Chave Dourada

Esta parte da nossa conversa foi uma surpresa para mim. Porque o Chave Dourada é um vinho licoroso raro, muito nosso, muito daqui, envolto num género de quase segredo e este homem, cujo nome estará sempre associado ao Chave Dourada, desmistificou um pouco este processo.

O Chave Dourada é um vinho licoroso cuja produção tem como base um barril principal a que chamam “mãe”. O barril-mãe que tem, herdou-o do pai, que por sua vez o herdou da família da 1.ª mulher, que perdeu cedo. Esse barril data de 1800.

O barril-mãe, com cerca de 200 anos é um dos 3 em que assenta a sua produção. O mais novo é de 1965, um barril que tinha sido de vinho do Porto e que lhe trouxeram de Santarém, conta, “de um sujeito que, de tinas do vinho do Porto, fazia barris mais pequenos. O que interessa é começar com um barril já encorpado, de preferência que tenha tido vinho do Porto. Lava-se bem, fica sem vestígios, mas a madeira já está inchada, de outra forma iria absorver grande parte da produção”. Pela mesma razão, explica que “o local onde se faz a produção tem que ser fresco, quanto mais fresco o sítio, melhor. Senão o pipo bebe mais do que nós”.

A receita do famoso Chave Dourada é, na sua explicação, muito simples. Há quem diga que se deve começar com um pouco de vinho de um barril-mãe mas, na sua opinião, pode começar-se do nada. Basta juntar duas partes de vinho e uma de aguardente. Depois o açúcar. Mistura-se tudo muito bem num alguidar de barro. António usa as mãos e não a colher de pau para mexer pois tem melhor noção de quando o açúcar está desfeito. Para, por exemplo, 20 litros de líquido, serão uns 2 quilos de açúcar (do branco) mas, como diz em tom de brincadeira “a quantidade de açúcar depende do produtor, se é mais ou menos guloso…”.

Deixa-se então no barril durante um ano. Ao fim desse ano prova-se o vinho. António usa a típica mangueirinha. Aplicou-lhe um tubo mais rijo por dentro para a endireitar. Diz que há quem aplique a torneira no barril mas a torneira fica em baixo e, como refere, “nós ainda somos amadores, o nosso vinho tem tendência a ganhar pé. Com a torneira em baixo o que é que apanhamos? A borra. A borra interessa que fique lá, no fundo, mas para provar e encher as garrafas não queremos ir ao fundo, daí preferir a mangueira”.

Como explicava, ao fim de um ano prova-se e vê-se, então, se é preciso mais ou menos açúcar. Nesse ano algum vinho foi absorvido pela madeira e retirou-se um pouco para provar pelo que se deve fazer mais líquido para juntar (as tais duas partes de vinho e uma de aguardente), e mais ou menos açúcar conforme o vinho esteja. Este processo repete-se todos os anos, no verão. O pai ensinou-lhe que “se deve escolher um dia totalmente limpo, mas eu não ligo muito a isso”.

Pergunto-lhe quando fica o Chave Dourada pronto a consumir quando é feito assim, de novo. A resposta vem na forma de um conselho, de uma advertência: “há quem tenha começado a fazer o Chave Dourada mas querem logo começar a bebê-lo e a vendê-lo… tem que se esperar, antes de 15 anos não está bom – bom para começar a tirar…”. Pergunto-lhe quanto produz por anos. Diz que, dos 3 barris que tem, tira cerca de 8 garrafas por ano, 2 ou 3 de cada barril. Tira um pouco e volta a encher os barris com a receita.

Criou uns rótulos, os primeiros mandou-os fazer mas refere, orgulhoso que “os últimos foi a minha filha que os fez, têm a imagem de uma chave. Em cada garrafa de cada ano escrevo de qual barril saiu e a data”. Já fez este ano, estamos no Verão? “Ainda não, agora com a Margarida cá é que vamos fazer”. A filha, professora no Algarve está de férias e ajuda-o “ela já aprendeu e também gosta”. Pois bem, que é a sua herdeira!

Questiono-o ainda sobre a manutenção do barril com dois séculos. Diz que “desde que o tenho só tive que lhe substituir uma aduela”.

Preocupação com o futuro só tem com a matéria-prima. Deixou de produzir vinho, muitos têm deixado. Ou são os fogos que queimam as vinhas ou as pessoas que ficam velhas e deixam de ter força para as vindimas e para fazer o vinho “o vinho é cada vez menos”. Este ano já teve que comprar aguardente, “perde-se tudo, quem é que pega na agricultura?”. Diz ainda, meio a sério, meio a brincar, mas com preocupação que “qualquer dia já não se justifica o cacho de uvas no brasão …

Pergunto-lhe ainda se é só em barris de madeira que o Chave Dourada é produzido, ao que responde: “não sei jurar que sim, mas também nunca vi doutra maneira”.

Sobre a produção que tem explica que “como só tiro cerca de 8 garrafas por ano não tenho suficiente para vender. Assim,  olhe, não vendo nem ofereço. Depois zangavam-se por oferecer a uns e não a outros.”

Reforça que explica a quem quiser aprender, sublinha a importância de se produzir, a virtude de se saber esperar e remata que, no entanto, gosta de oferecer a provar a quem o procura. António, o guardião do Chave Dourada recusa-se, humildemente, a uma fotografia, mas oferece-me uma prova de Chave Dourada. Prometo-lhe uma visita um dia destes.

céu & lucília

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74 e 76 anos

Uma novidade, uma dupla entrevista. A justificação é simples, Céu e Lucília são irmãs. Mas irmãs inseparáveis. Vivem juntas, passeiam juntas, conversam sobre tudo, riem-se as duas. Cúmplices, amigas de sempre. A história das suas vidas é como se fosse de uma vida só, contada mais por Lucília que, mesmo  sendo mais velha, é a que tem melhor memória. À medida que conversamos Céu adverte-me “olhe que o que ela diz é tudo verdade, que ela guarda tudo na cabeça, eu já não”. E Lucília confirma “o nosso paizinho não nos ensinou a mentira”.

Hora e meia de conversa, ao fim da tarde, num banco de jardim. A companhia não podia ser mais bem-disposta, tanta coisa para contar e, se nos perdíamos, voltávamos ao ponto anterior e a conversa seguia o caminho devido. Foi Céu que avisou novamente “ela fala tanto que se não a calar só saímos daqui amanhã de manhã”. E riem-se as duas.

Nasceram aqui as duas, há mais de 70 anos. Era tudo muito pobre, depois havia as casas ricas, elas não tiveram essa sorte. Eram cinco irmãos. Primeiro vieram dois rapazes, a mãe queria uma menina e quando Lucília nasceu “foi um ai-Jesus que ali apareceu. A minha mãe tinha pouco mas fazia-me aqueles vestidinhos e o meu pai fazia-nos umas chinelinhas… as pessoas até comentavam que parecíamos meninas ricas, muito ajeitadinhas”.

A Escola

Andaram as duas na Escola “mas naquele tempo os rapazes tinham que lá andar até ir para a tropa, as raparigas diziam às mães que queriam sair e saiam, porque as mães precisavam da ajuda delas em casa”. Céu estudou mais do que Lucília que não chegou a completar a 4.ª classe. Uma prima pediu à mãe para Lucília ir lá a casa ajudá-la porque ela tinha um bebé. Lucília às vezes dormia lá, fazia recados e ajudava em casa. E conta que “como não havia telefone para chamar as pessoas ela mandava-me ir falar à lavadeira para ir lá buscar a roupa, mandava-me ir dar cumprimentos a esta ou àquela casa – faziam isso entre as casas mais ricas – mandavam-se aqueles cumprimentos. Andava muito na rua, mas era muito responsável e não me esquecia de nada”. Mas ainda andava na escola?Andava, é aí que quero chegar. Quando chegava a casa à noite a minha mãe mandava-me ir dormir mas eu dizia-lhe ó mãe e as contas para a senhora (professora)? E ia fazer as contas, por isso é que não gostava de andar na escola e a deixei. De manhã ia para a Escola com as contas feitas na lousa, embrulhada em papel pardo. Eu quando via a escola até me parava o coração”.

Céu andou mais tempo na escola. Lucília interrompe: “mas olhe que também não teve sorte”. E Céu conta que uma vez “fui empurrada da escada da escola e abriu-se-me uma brecha na testa. Foi uma senhora que me apanhou do chão e me foi entregar à minha mãe”. Lucília conclui “a nossa mãe chorava dia e noite, ela na cama sem saber se estava viva ou morta. Já viu, ter uma filhinha ali assim… Mas a minha mãe pagava a avença ao médico e ele foi lá vê-la. Aquilo depois passou, nem ficou a marca”. É então que Lucília conta, quase em sussurro, que, há poucos anos “uma mulher cá da vila veio ter com a gente e contou que foi ela que empurrou a Céu e nós dissemos-lhe: pois, agora que já não temos mãe nem pai é que nos contas, se eles estivessem vivos diziam-te das boas… mas ela com medo nunca tinha contado e disse que não teve culpa pois alguém a empurrou”.

Ainda sobre a escola, Lucília conta que quando tinha 17 anos, ela mais uma amiga quiseram fazer o exame da 4.ª classe. Os pais falaram a um professor mais antigo da escola que as preparou para ir fazer o exame a Abrantes. Lucília diz que gostava, e aprendia muito bem as contas, mas as redacções… “eu não percebia de fazer redacções e então decorei as que o professor ditava para depois as escrever. Era redacções e era a História, aquilo não me entrava, era coisas que a gente não tinha vivido, mas as contas… isso sim”.

Nova curiosidade, quando foi a Abrantes fazer o exame da 4.ª classe, a dada altura avistaram um rio e Lucília exclamou: “ai que ribeiro tão grande e outra é que me disse que não era ribeiro, era o Tejo… eu nunca tinha visto um rio, não tinha saído daqui”. Riem-se. Riem-se e lembram-se, ao mesmo tempo, de semelhante história, mas com o mar.

O Mar

A irmã Céu conheceu primeiro o mar porque o pai pediu na Câmara para a levarem junto com outro irmão às colónias de férias na Nazaré, onde a Câmara levava algumas crianças, e eles foram. E vem nova história, da ida à colónia, é Céu que conta que “o meu irmão fez xixi na cama e puseram-no de castigo, deixaram-no na cama com aquele lençol por cima, de castigo”. Lucília acrescenta “e ela veio de lá cheia de sarampo”.

Mais tarde foram numa excursão à praia, a primeira vez de Lucília. Quando iam a chegar à Nazaré, avistou-se o mar e Céu disse: “olha Lucília, é o mar”. Lucília ri-se e diz que olhou e disse à irmã “mas eu só vejo um olival – que eu sempre fui curta de vista – e aquilo parecia-me aquele cinzento que formam os olivais ao longe, só mais perto é que percebi o azul do mar”. Escusado será dizer que se largaram a rir novamente. Sempre bem-dispostas.

Sempre fizeram excursões, umas a pagar, outras da Junta de Freguesia. Para as pessoas mais antigas do interior as excursões são uma forma privilegiada de conhecer o país.

Excursões

Só as histórias das excursões faziam um livro de memórias. Contam-nas e riem-se e olham uma para a outra e dizem “e aquela da junta, é que foi uma barracada!…” e uma já sabe do que a outra está a falar. Enquanto as contam rimo-nos as três e eu só penso que uma pessoa que sabe rir-se de si própria está muito bem com a vida. E elas estão.

Há três histórias que se destacam tendo, a última, ditado o fim das suas idas às excursões. É Lucília quem conta que “uma vez fomos numa excursão, daquelas a pagar, à Nazaré, mas as pessoas querem é ir comer e beber e havia uma sardinhada e nós falámos com a senhora se podíamos levar a nossa comida e em vez da sardinhada ficávamos na praia. E assim foi. Deixaram-nos lá e combinámos a hora do encontro. Passeámos todo o dia, vimos aquelas ruas todas e sentámo-nos na praia. Quando vimos, já passava da hora marcada e não estava ninguém no ponto de encontro. Chegámos a perguntar onde se apanhava um autocarro para vir para Abrantes ou assim mas depois lá apareceram, também se tinham atrasado”.

Numa outra excursão, da Junta, falaram com o Presidente para não irem comer ao restaurante pois Lucília dá-se mal, tem que comer coisas mais simples. Levaram a comida de casa e ele levou-as a um parque com outra senhora que era diabética e também levava a comida de casa. Sentaram- se e conta Lucília que “vieram umas pessoas e começaram a atar uns cordéis à nossa volta, depois uns balões e umas bandeirinhas. Até que veio uma menina e disse que fazia anos e o paizinho lhe ia fazer ali a festa. Levantámo-nos para sair dali mas veio uma senhora e disse para nos deixarmos estar, que ficássemos de olho nas coisas até que ia buscar o resto. Nós ficámos a tomar conta daquilo e lá vieram as senhoras com a comida, mesas cheias de coisas boas. Quando o presidente da Junta nos veio chamar até lhe dissemos que gostámos de ver aquilo, grandes mesas, tudo muito composto”. E riem-se muito. Mas vem depois a parte que leva à terceira história. Uma senhora que ia na excursão foi-lhes dizer que eram agarradas ao dinheiro, se não podiam ir ao restaurante. Custou-lhes ouvir aquilo. E Lucília conta que “na última excursão lá fomos ao restaurante mas dissemos que não podíamos comer coisas muito fortes. Ora, o almoço foi sendo servido, era feijoada. O empregado veio perguntar-me se não comia e eu disse que tinha pedido uma coisa mais simples, ele levou-me à cozinha, que não sabia, abriu-me o frigorífico e não tinha nada preparado. Olhe, arranjou-me um filete e três quadradinhos de batata. Eu, para comer assim… não, nunca mais fomos a nenhuma”. Acrescenta que no Lar, onde passam o dia há 12 anos, as sentam junto com as pessoas que comem coisas mais simples, sabem que não podem comer qualquer coisa.

Foi assim que as duas irmãs deixaram de ir a excursões, para não serem mal julgadas e para não passarem fome. Céu adorava ir à Nazaré, Lucília preferia as excursões a Fátima, “cheguei a ir ao Museu da Cera, coisa bem feita…”.

Trabalho

O pai fazia sapatos e trabalhava em algumas casas, ao dia. O barbeiro trabalhava até tarde e chamou-o para lá para engraxar sapatos aos clientes, enquanto esperavam. Contam a sua habilidade para os sapatos, arranjava uma mala e dali fazia sapatinhos para elas. O avô tinha uma besta (burro) e uma carroça com uma capota e fazia o transporte das pessoas, das sardinhas e do correio de Belver (onde chegava o comboio) para Mação. “Chegava às 5 da manhã, deixava as malas do correio à porta da casa dos correios e levava as sardinhas às Sardinheiras, havia cá muitas”. A mãe começou depois a distribuir o correio, “tudo a pé, só uma terra era duas horas para lá chegar e mais duas para voltar, por atalhos…”.

Quando saiu da escola, Lucília ficou a ajudar a mãe. “De manhã não saia de casa, a fazer o almoço, era ao lume e não se podia deixar apagar se não os feijões não se coziam. De tarde ia para uma vizinha que costurava e aprendi, só a olhar para ela”. Contam que quando a mãe estava doente ou tinha algum problema iam elas distribuir o correio. Lucília diz “isto parece mentira mas eu quando ia deixava ramos de pinheiro para encontrar o caminho de volta, para lá era fácil, íamos de caras ao sítio, mas a volta… e guiávamo-nos pelas sombras das oliveiras para saber que horas eram… e os sustos… uma vez vi um vulto, parecia-me um homem. Mal para continuar, mal para voltar, mas aquilo era o medo na minha cabeça, depois vi que era uma sombra”.

Uma tia que tinham “lá fora”, trazia-lhes roupas e elas pegavam nelas e faziam peças novas. Lucília adora costurar. “Pegava naqueles pijamas com brilhantes e fazia camisolas daquilo. A minha tia trazia aqueles casacos estrangeiros e eu de um forro fiz um sutiã. Depois vieram pedir-me, as senhoras daquelas casas (mais ricas) para fazer sutiãs para as filhas e eu fazia-os, de camisas velhas”.

Céu remata que “a melhor herança que a nossa mãe nos deixou foi a máquina de costura”. Que ainda usam. As sobrinhas trazem-lhes sacos de roupa que elas, depois, adaptam para si. As camisas que vestem na entrevista eram de homem e Lucília fez uns moldes com folhas de jornal e refez as camisas para elas, ao pormenor de ter passado as casas dos botões para o lado direito, que é assim uma camisa de senhora. As suas roupas são, em grande parte, feitas, adaptadas, refeitas, desenhadas e costuradas por Lucília e isso, além de a entreter, dá-lhe um prazer imenso. Um encanto.

O primeiro trabalho pago que ambas tiveram foi para a fábrica. Falaram com uma senhora que ia à fábrica buscar as fazendas para rematar, passar os nós todos para o avesso da peça, tirar as imperfeições deixadas pelos teares… “Éramos umas poucas, trazíamos as peças ao ombro porque tínhamos vergonha de andar na vila com aquilo à cabeça”. Ao sábado Lucília ia receber o dinheiro, “ganhávamos consoante as fazendas, umas valiam 10 escudos, outras 20. Trazia o dinheiro e ia dar a cada uma o que lhe pertencia. Eramos amiguinhas, se uma tinha mais trabalho, dividia pelas que não tinham”. Este trabalho foi o primeiro passo para irem para a fábrica onde, como desabafam “foi onde vimos algum dinheiro na vida”. Céu trabalhou sempre junto aos teares, “arranjava as fazendas quando saiam dos teares, vinham com óleo e assim”. Já Lucília trabalhava “na ultimação, a fazer os acabamentos e a passar as fazendas”.

Da vida antigamente

Interrompem-se, entretanto, e dizem que me estão a maçar, que falam muito. Explico-lhe que não, que é muito bom perceber como se vivia, como foram criadas, como cresceram, perceber toda a evolução até hoje, mas saber também como se vivia antigamente.

Pegam no mote e contam que não tinham leitos. “Juntavam-se dois bancos compridos com umas tábuas ao atravessar e uma enxerga (colchão) em cima. Julga que havia colchões como agora?

Contam como a mãe, dedicada que lhes era, “todos os anos lavava a enxerga e trazia, de longe, que aqui não havia, um feixe de palha centeia à cabeça para encher a enxerga. E olhe que aquilo tinha ciência, a maneira como punha as palhinhas.” Contam depois que, “no Inverno, éramos pequenitos, tínhamos frio e a nossa mãe dizia-nos para ir tirar um bocadinho de palha à enxerga, da zona dos pés, que fazia menos falta, para acendermos o lume.”

Contam ainda como se marujavam as enxergas, tanto as de palha como as de samarras. “Vinham os albardeiros, com aquelas grandes agulhas e com um bocadinho de algodão faziam aqueles pontos aqui e ali, que era para a palha ou as samarras (folhas do milho) ficarem apertadinhas e não abrirem covas nas enxergas”. E advertem “mas isso era nas casas ricas, chamavam lá os albardeiros, nós era a nossa mãezinha que compunha as enxergas”.

Pergunto-lhes, entretanto, porque nunca casaram. Eram 5 irmãos, só um é que casou. Têm os sobrinhos em Lisboa. Um dos irmãos morreu no Ultramar e o outro morreu já doente no Hospital, esse teve uma vida complicada. “A gente, olhe, com aqueles problemas todos não casámos, foi uma vida difícil. Ter filhos? Para depois, quando não se pode dar isto ou aquilo aos filhos, eles a sofrer? Os nossos paizinhos eram muito nossos amigos, mas olhe que era difícil, passámos muito”.

Já passou hora e meia daquele nosso alegre convívio. Peço-lhes uma fotografia. Riem-se, pois se tem que ser, pode ser. Passam a mão no cabelo. Lucília conta que só ficou mal numa fotografia. “Sabe, quando abriu aquilo dos computadores (espaço Internet) a gente espreitámos e eu sempre gostei muito de aprender a escrever à máquina e perguntámos ao rapazinho se podíamos escrever umas receitas. Ele ensinou-me, que eu encarreirei aquilo depressa, e ainda lá passei muitas receitas. Um dia ele disse que tinha que nos fazer um cartão, para a gente ir lá. Ai, nessa fotografia é que não gosto de me ver, mas tenho o cartão lá em casa”.

Respondo que é bom aprender coisas novas e dizem-me que sim e continuam “Depois outra vez, sabe onde é que gostámos muito de ir? Foi à Escola, muito bem recebidas, vimos um filme numa tela grande, aquilo muito bem feito, mostrava a Espanha e aqueles trajes, a gente nunca foi a Espanha, nem a França, nem à Bélgica, mas aquilo parecia que estávamos lá, tão bonito”. Pergunto se foi nas Comemorações do Dia da Europa e respondem que sim, que foi isso. Gostaram tanto!

Cada história que me contam deixa-me mais surpreendida. São extraordinárias na forma como contam, sempre cheias de bom humor, e na forma como vivem as coisas. Quando Lucília começa a contar um episódio, Céu começa-se logo a rir, que já sabe o que vai sair. Outras vezes, uma dá o mote e a outra conclui. Sempre em sintonia. Céu e Lucília, as fantásticas manas-amigas são, na sua forma de estar, a alegria em forma de gente. Gostam de conversar, gostam que falem com elas, que as cumprimentem. Têm sempre um sorriso. São irmãs-amigas. Juntas, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. Até que a morte as separe.

Obrigada, minhas queridas!

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76 anos

 Uma boa conversa, ainda que curta, é o melhor programa depois de um dia de trabalho. O descobrir as pessoas, as suas vidas, as suas experiências que são sempre tão diferentes das nossas é um momento único.

Foi assim quando, à tardinha, falei com Artur. Toda a vida o conheci como Taxista. Foi o que fez ao longo de 32 anos. Cresci com a sua imagem na praça de táxis, a cumprimenta-lo quase diariamente, sempre com aquele jeito simpático.

Hoje, aos 76 anos, já reformado, vai todos os dias visitar os colegas à praça de táxis. Tem 1 filha e 3 netos, mas estão longe. Ficou viúvo há meio ano e quando fala da sua companheira de toda a vida comove-se. Acho, sinceramente, que se vai comover sempre, tal o amor que os unia. Foram 52 anos “muito felizes, ela era muito brincalhona, era trocista…” e sorri, provavelmente com o mesmo sorriso cúmplice que tinha com ela. Custa-lhe a viuvez.

Impressionante descobrir naquele que sempre conheci daqui, como Taxista, toda uma outra vida, lá mais para trás, bem longe.

Com 17 anos foi para Angola, para trabalhar. “Ainda me convidaram para ir para Moçambique mas já tinha família em Angola”. Luanda conheceu-a uns dias, o resto foi “pelos matos, pelas províncias”, por cidades, umas mais desenvolvidas do que outras. “Naquela altura alguns concelhos menos desenvolvidos não tinham nada. Nalgumas cidades já havia comodidades, mas noutras…”. Trabalhou como comercial, fez uma formação, e foi no que trabalhou sempre. Foi assim que conheceu aquele país que adora e para onde ainda sonhou voltar.

Conta que, numa altura “estava a viver em Buenga Sul, lá ainda não havia nada… morava numa casa capim”. Pausa e explica que “o telhado era de capim e depois era forrado com umas esteiras. O banho… era um balde pendurado com uma torneira aplicada. Enchia-se o balde, abria-se a torneira e pronto…”. E sorri, voltando aos velhos tempos. Depois remata “às vezes viam-se as cobras com o rabo pendurado do capim”. O meu espanto ganha forma e a natural pergunta: mas não tinham medo?Não, daquelas não, que eram rateiras, queriam era os ratos…”.

Conta depois que “a única vez que fui atacado foi pelas Kissonde, aquelas formigas vermelhas, grandes, aquilo onde passavam arrasavam tudo. Uma noite senti uma comichão nas costas, quando vimos estava a casa toda invadida”. Escaparam ilesos, mas teve menos sorte no pombal. “Os pombos e as galinhas, foi tudo devorado pelas formigas, desapareceram-me com tudo”. Viveu 5 anos naquela cidade, naquelas condições mas, ainda assim, desabafa um sonho de hoje. “Agora gostava de ir para lá, mesmo nessas condições… havia lá uma liberdade…”.

No périplo que a sua memória faz pelas cidades de Angola onde viveu paramos no norte, onde vivia com a mulher e a filha quando, dois anos após o 25 de Abril, a Guerra Civil o trouxe às raízes, já com a sua família. Vieram, mas a ideia era voltar. Depois foi-se perdendo a ideia, foi-se a esperança de voltar a uma Angola que tinham conhecido e que já não era a mesma. Resolveram instalar-se. Artur trabalhou num comércio, depois nas obras de construção dos colégios, como ajudante. Surgiu então a oportunidade nos táxis. Que agarrou e manteve. Para isso teve que ir, mais tarde, com a mudança das regras, tirar o CAP, profissionalizar-se.

Pergunto-lhe, por brincadeira, quantas pessoas já transportou. Ri-se com a impossibilidade de contabilizar. Falamos das amizades que a profissão traz, das confidências, vê-se que gostava mesmo de ser Taxista e explica que “era uma convivência”. Mais de 3 décadas de trabalho trouxeram-lhe também os hábitos que ainda hoje mantém. “Venho cá acima fazer umas compras e beber o café, há cafés mais perto de casa mas parece que não dá jeito”.

Sobre o seu dia-a-dia, com a reforma e a viuvez, teve que se habituar à lida da casa. É por isso que diz passar “muito tempo a preparar o almoço e o jantar, tive que me habituar…”. Pergunto-lhe ainda o que lhe faz falta para ocupar o tempo, ao que reponde “era trabalhar”, pois quem se habituou ao volante por mais de trinta anos sente-lhe a falta. Falamos ainda da terra, de como evoluiu, diz que “veio muita coisa boa, pena é as casas mais velhas”, e explica que “esta terra tem é um mal, pedem muito dinheiro pelas casas…”.

É já no final da conversa que falamos na filha e nos 3 netos. Já não os visita tanto “por causa das portagens e do valor da gasolina, é muito, ainda esta noite subiu mais 3 cêntimos”.

Uma conversa com quem teve que abandonar África tem sempre dois momentos, entre a vida de lá e a vida de cá. São dois momentos distintos, ainda que a conversa flua, sem interrupções. Há qualquer coisa da alma que ficou em África, que é maior que saudade ou tristeza. Há qualquer coisa mágica que fica no ar e a vida cá, por muito boa que tenha sido, falta-lhe sempre qualquer coisa. Não sei explicar o que é. Mas é maior que os homens. Será liberdade?!…

Despedimo-nos, acha engraçada esta minha ideia. Pede para lhe tirar uns 10 anos na fotografia. Rimo-nos e despedimo-nos.

Volto costas e cruzo-me com uma senhora a passear um cãozinho. Ainda ouço Artur a perguntar à senhora “veio passear a fera?”. Sorrio e penso que foi sempre naquele bem-estar e boa disposição que o conheci. Artur, o amável, que tem sempre uma saudação para dar, um cumprimento para fazer e dá-nos, anonimamente, um exemplo de vida, um estar discreto e atencioso, mas sempre lá.

júlia

Image80 anos

Júlia. “Sim, Júlia Guerra, mas de muita paz…”. É assim que me responde e ri-se e apresenta-se só pelo modo de rir, é uma questão de atitude, consigo e com a vida. De bem com a vida.

Aos 80 anos mantém um sentido de humor único, talvez até um pouco raro, e uma maneira muito coerente de ver as coisas. Encontramo-nos a meio da tarde na esplanada onde vai, todos os dias “comer um sorvete, depois de ir beber o café”. Um café por dia, depois do almoço, que representa acima de tudo sair de casa, ver pessoas, socializar, “mas são cada vez menos pessoas na rua, uns emigram, outros saem daqui, antigamente via-se mais gente”.

A nossa conversa, no tempo que me dedica na sua rotina diária, podia ir em muitas direcções. No final, é uma conversa sobre amor, bem-estar e liberdade, com a sapiência que aos 80 anos já se conquistou há muito.

Júlia nasceu em Luanda. Vinha a Portugal passar temporadas de vários meses todos os anos, a família do pai era de Trás-os-Montes. Numa das viagens de regresso a Luanda conheceu o amor da sua vida. Na própria viagem? “Sim, na viagem”. E ri-se. O destino e o lugar onde foram sentados juntou-os e conversaram pela circunstância da viagem. Foi amor à primeira vista “mas lá depois foi mais difícil”. Espero um cenário de amores contrariados mas não, “foi difícil voltarmos a encontrar-nos. Ele sabia que eu trabalhava no laboratório de medicamentos e ia tentar encontrar-me na paragem do autocarro. Eu cheguei a vê-lo mas ele não me encontrava. Um dia, lá deu a volta ao contrário e encontrou-me a entrar em casa”. Encontrada a rapariga do avião começaram as conversas, os encontros e “no prolongamento, o namoro”. Ri-se novamente.

Namoraram dois anos e casaram. Tiveram dois filhos. Vieram para Portugal quando se deu a independência. Adaptou-se bem? “Sim, que eu tenho facilidade em adaptar-me bem a qualquer lado”. Estiveram casados 32 anos, está viúva há 26 quando, em 8 dias, a repetição de uma síncope cardíaca lho levou. “Ele era excelente. Desejo às minhas amigas um marido como o meu, grande companheiro e bom amigo”. Ao perceber o amor que os unia pergunto-lhe como foi ficar sem ele. É aí que Júlia fica séria, abre os olhos e responde, do fundo do coração “Parecia que enlouquecia… não estava neste mundo, parecia que levitava. Quando fui ao médico ele perguntou-me: você anda?, tal era o meu estado…”.

Conta que “ele dizia assim: não há homens pobres com uma mulher como a minha e eu digo que não há mulheres pobres com um homem como o meu…”. E sorri.

Voltamos a Luanda. Diz que já não lhe apetece lá voltar. Os 2 irmãos já morreram e a mãe veio para junto dela e morreu cá. E conta que “às vezes perguntam-me se não quero ir lá reclamar o que é meu e eu respondo que não, que lá comam e bebam tudo e sejam felizes…”.

Falamos do seu dia-a-dia. Diz que “cada dia é mais um…”. E ri-se. Gostava que houvesse uma vida cultural mais rica, “eu era menina de cinema, matinés e bailaricos, que ainda hoje gosto de dançar…”. Não vê muita televisão porque, explica “não sou fascinada nas novelas, vejo as notícias  e fecho a televisão às 11 e meia, meia-noite. Só há noite é que tenho pachorra para estar quieta, em casa estou sempre a fazer alguma coisa”. Pintava mas já não pinta, aborrece-a ter os quadros amontoados pela casa. “Sempre tive muito jeito para os trabalhos manuais e gostava de ter sido professora nessa área, mas já não tenho paciência. Agora passo um bocadinho a ferro, que a máquina lava a roupa, só não a estende, isso tenho que ser eu…” Rimo-nos novamente e remata “já ouço mal e vejo mal, todos os sintomas da velhice, mas como bem e durmo bem, o sono é comigo”.

Digo-lhe que é muito bem-disposta e responde-me “ser bem-disposta é o que me traz de pé. Sim, é uma qualidade minha, também não invejo ninguém nem sofro de prisão de ventre de maneira que estou sempre bem-disposta”.

Conta que costumava ir ao lar fazer visitas e custava-lhe perceber alguns olhares alheados deste mundo, “há pessoas que já não sabem que ainda estão vivas… é aquele olhar…”. Diz que se tiver que ir para o Lar vai, acomoda-se e explica que “para muitos ir para um lar é uma ventura, é um bem, mas é um crime quando as famílias os deixam e não os reclamam… há quem não saiba avaliar a solidão… Há ainda casos em que se morre na solidão porque não há dinheiro para ir para um Lar”. A sua explicação é que “no nosso ambiente o amor acabou… não há humildade. Ai do velho que não fale em morrer, estafermo do velho, quer ficar vivo?!”. Conclui que com esta crise de valores “há pessoas a quem custa muito viver. Eu gosto de viver porque gosto de ser independente”.

Tem 4 netos e uma bisneta, que a deixa embevecida, conta que “ela tem 2 anos e meio mas já faz conversa… as crianças de hoje… é uma coisa diferente…”. Também tem cá um neto de férias e percebo que está na hora de continuar a sua rotina.

Agradeço-lhe o tempo. Ela pergunta-me: “está satisfeita?”. Respondo que sim, muito. “Não pensei que interessasse assim para uma entrevista”.

Claro que sim. É mais uma personagem desta terra, de há tantos anos, de sempre. Hoje o privilégio foi conhecê-la melhor. É esse o grande objectivo deste espaço, conhecer o ser das pessoas.

A grande descoberta hoje foi a atitude de Júlia, a Independente, Júlia, tão de bem com a vida.

Foi um privilégio e uma honra! Como julgo que será para quem ler esta conversa. Despedimo-nos, peço-lhe uma fotografia, lá deixa. Ri-se quando se vê na máquina. Depois pega no saco das compras e parte jardim afora.

Paro a olhá-la e penso na nossa conversa, quando falámos da dor da viuvez e me disse que, 26 anos depois “às vezes vou na rua e julgo que ainda sinto a mão dele no meu ombro…”.

Olho-a o parece-me, sinceramente,  que não vai sozinha!

lucília

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92 anos

Há pessoas que, quer-me parecer, o universo colocou no meu ângulo de visão, pessoas para as quais os meus sentidos me empurram e depois de conversar com elas sinto que aquele momento tinha que ter acontecido. Lucília, querida e doce Lucília, a serenidade em pessoa fez-me comprovar este meu sentimento. Falar com ela foi uma lição de humildade.

Tínhamos combinado encontro e eu prometi-lhe que lhe ia apresentar os meus filhos. Se por algum motivo, não me tivesse sido possível cumprir o combinado, sei que a teria desiludido. Soube que nos esperava de braços abertos quando os beijou, lhes sorriu e lhes ofereceu uma bolacha de chocolate do pacote que nos aguardava na mesa da entrada. Diz-se que quem nossos filhos beija nossa boca adoça. Ela fez de tudo e adoçou-me o coração. E mais feliz do que ela fiquei eu por não lhe ter falhado.

Aos 92 anos, uma memória fantástica e um modo de estar muito sereno Lucília apresenta-nos uma vida sem aventuras extraordinárias, sem feitos que venham a constar em enciclopédias, em que lhe foi até negado aprender as letras. Ainda assim, Lucília brinda-nos com a humildade de uma vida simples, longa e muito lúcida.

Toda a vida de Lucília foi feita no campo, foi retirada do campo. Única irmã de mais 6 rapazes foi também a única que os pais não mandaram à escola. “Havia um professor que escrevia aos meus pais, para me deixarem ir à escola mas eles nunca quiseram, a minha mãe dizia que não era preciso, que só servia para escrever aos moços”. E diz que “Se fosse para escrever aos moços arranjava-se maneira”, porque as letras lhe fizeram, efectivamente, falta para muita outra coisa. Já o marido tinha o prazer da leitura. “Ele lia tanto que a minha sogra contava que lhe ia apagar a candeia (de azeite) para o obrigar a ir-se deitar”.

Lucília começou, de muito pequena, a tratar da casa e a trabalhar no campo. “Eramos 7 irmãos, o meu pai tinha muito campo, uma junta de bois, era tudo a trabalhar no campo. A minha avó viveu muitos anos connosco quando já não podia estar sozinha, e eu ficava em casa a cuidar dela e fazia a comida, arrumava a casa e fazia roupa, era tudo feito em casa. Quando eu era mais pequena e ainda não sabia cortar a roupa a minha mãe cortava as calças e eu depois empernava-as. Fazia tudo”. Mas desde que idade começou nesses trabalhos?Já não sei, mas de muito pequena, a minha mãe ensinou-me tudo para poder ir trabalhar no campo.”

Casou já com vinte e muitos anos. O marido era vizinho e lá se juntaram. Já viúva fala dele com muita paz e diz que “ele era muito boa pessoa. Ele queria ir estudar, pediu ao pai e ele não deixou, precisava dele para trabalhar nos campos. Quando casámos ele disse logo que os filhos haviam de estudar.” Estiveram 3 anos sem ter filhos e Lucília conta que “já se comentava que dali não saia nada mas depois tivemos 4 filhos”. E ri-se.

Vieram os filhos, 2 raparigas e 2 rapazes. Hoje tem também 7 netos e 2 bisnetos. Enche-se de orgulho quando fala na sua prole e nas camas que tinha sempre feitas no andar de cima. “Eram 5 quartos e uma sala. Na sala tive que por mais 3 camas. Era muita gente”. E sorri.

A viuvez veio e os planos do marido foram com ele. “Os rapazes estavam a estudar no liceu nas Mouriscas. Levavam a trouxa e pagávamos a uma senhora que era de cá e vivia lá para lhes fazer a comida e ficavam lá”. Vivia-se bem, praticamente só do campo, “lá se compravam umas mercearias mas comíamos tudo do campo, tínhamos animais, o meu marido tinha um comércio mas depois ele morreu e acabou-se tudo.” Conta que “ele saiu de casa com uma moagem de milho para moer, fazia-se o pão em casa, e na volta do moinho deu-lhe uma trombose, já era a segunda, e foi assim a morte dele”. Toca-me muito quando diz que ele morreu e se acabou tudo e Lucília, sem demonstrar mágoa, sem réstias de amargura, mas com a certeza do que diz pois sabe do que fala explica que: “o meu marido, quando morreu, deixou-nos as courelas cheias de pinheiros, era dali que queria criar os filhos mas olhe, morreu ele e depois veio o fogo e queimou tudo, acabou-se tudo”. Os rapazes voltaram a ajudar em casa, as raparigas também “mas o trabalho era pouco e foram-se todos embora à procura de fazer a vida”.
Sei, sabe-se bem o quanto os pinhais ajudavam a economia de cada família e sei, sabe-se, que os pinhais sustentavam casas, pagavam cursos, ditavam até a riqueza de cada um. Este acabou-se tudo de que Lucília fala acaba por ser a marca dos incêndios em muitas famílias.
Continua, com a sua calma, a contar que “mesmo depois de os filhos saírem de casa ainda fiquei com 1 carro (carroça e mula), 2 cabras e criava o porquito. Olhe, era eu a cavalo no carro com as cabras presas atrás e íamos para todo o lado. Eles vinham ao fim-de-semana e ajudavam no que podiam. Ainda fiz muita coisa no campo mas depois já não podia e arrumei-me à renda, cheguei a vender uns naperons para Mação, já não sei é a quem foi”.

A minha pergunta da fase mais feliz da sua vida leva Lucília a “quando tinha o meu marido e os meus filhos todos juntos”.  Mas o seu lado doce traz-lhe o brilho aos olhos quando fala na descendência, nos 7 netos e 2 bisnetos. Hoje passa muito tempo em casa dos filhos, especialmente desde que partiu uma perna há 3 anos, mas afirma: “gosto de lá ir fazer uma visitinha mas é aqui que gosto de estar”.

Enquanto falamos as suas mãos giram à volta de um tapete que vai fazendo com tiras de tecido. E nós giramos à volta dos seus 92 anos. Diz-me que “estas terras pequenas não evoluem mais porque não há onde arranjar trabalho. Os meus filhos tiveram que ir embora porque o campo não dava nada”. Interrompo-a e pergunto-lhe porque deixou o campo de dar? A minha pergunta interrompe também o tapete. Pára, olha para mim e diz “olhe que eu não lhe sei explicar. Nunca passei fome, era tudo a trabalhar no campo mas depois deixou de dar.” Não, não me sabe explicar porque não percebe de política, nem de políticas e não quer saber de politiquices. Diz-me, retomando o tapete, que não gosta de se meter na vida dos filhos “às vezes ouço outras a relatar da vida dos filhos, a falar das noras… eu noras tenho duas e já disse a uma dessas que falam que não me meto na vida dos meus filhos, é a queles escolheram, todos me tratam bem, porque é que me hei-de meter? Não gosto disso.” É esta sua serenidade que me encanta. Sem ter aprendido as letras parece que leu, na sua própria vida, tudo o que há a saber sobre o ser-se pessoa. E nessa disciplina passou, e passa, com distinção.

Lucília gosta de fazer renda e de ir à Missa “mas agora custa-me, só se houver alguém que me ampare mas não quero dar trabalho, vejo-a na televisão”. E sorri. Depois diz que está um bocado aborrecida porque ainda não tem a televisão arranjada (depois da introdução da Televisão Digital Terrestre). Mas um neto disse que lhe arranjava a televisão. Entretanto ouve-se rádio mas afiança que “não é a mesma coisa, a televisão faz mais companhia”.

Falamos então dos seus maravilhosos tapetes, parece impossível que aquelas mãos que já teimam em tremer façam tão bonitos tapetes. Tem uns poucos feitos, dá às filhas, noras e netas e oferece a quem gosta deles advertindo “não vendo nada, faço e ofereço e há muito quem goste deles”. Os tapetes são feitos como se fosse renda mas com tiras de tecido que corta maravilhosamente bem e direitas e depois cose umas tiras às outras e faz os novelos com que trabalha. No juntar das tiras conta-nos o seu segredo e, a sorrir diz que “às vezes nem vejo a agulha para enfiar a linha e coser as tiras mas depois digo assim: ó Meu Deus olha que eu não vejo a agulha, tens que me ajudar, e ele ajuda.” Sorrimos as duas e ela reforça “Jesus ajuda-me a enfiar a linha”. E eu acredito. São tapetes feitos a 4 mãos.

Quando falo na Paz que Lucília transmite faço uns parênteses para a única mágoa que me parece que tem. Um dos irmãos foi para o Brasil e nunca, nunca mais cá voltou. Soube que ele enviuvou, voltou a casar mas depois foi ficando sem saber dele. Gostava, mas vê-se que gostava mesmo, de falar com ele mais uma vez e vejo-o espelhado naquela fantástica alma quando pára e diz “já somos os dois velhos e eu gostava de o ouvir mais uma vez”. Este Querer, com letra maiúscula, ao único irmão que foi para longe comove-me. E pensar que há tanta gente tão letrada, tão estudada e sabida que, no fundo, não sabe nada da vida…

Passámos cerca de hora e meia sentadas frente à lareira onde ardia um pequeno lume, só para confortar. São conversas destas que me fazem sentir que passei o meu tempo da melhor forma que podia. Lucília agradece-me a companhia, agradece muito o tempo de conversa, a quebra da monotonia. Está quase de partida para mais uma estadia com os filhos e sei que fomos uma surpresa uma para a outra. Ela agradece a visita, eu agradeço a dobrar.

Oferece-me um tapete. Escolho um maravilhoso em tons de azul. Não era o mais forte (apontou um feito com tecidos muito bons), nem o mais vistoso como aquele cor-de-laranja, mas houve algo naquele azul que me chamou a atenção. Ofereceu-me, deu-me um dos seus tapetes feitos a 4 mãos. Digo-lhe que é dos melhores presentes que me ofereceram de há muito e ela sorri. Realmente há prendas que não têm preço. E que valem tanto. Obrigada minha querida Lucília.

Já aqui referi a sua serenidade, a Paz, a humildade, o doce que é. Depois de escrever chego à palavra que teimava em faltar-me: Fidalguia. Os jeitos de Lucília são de uma Fidalga, têm algo de magistral, de cuidado, de suave, parece que foi criada entre aristocratas. Lucília, a Ilustre Fidalga, cuja nobreza está no seu modo de ser pessoa. O Mundo, que sabe tão pouco de si, agradece-lhe os seus fantásticos 92 anos! Obrigada!

nuno

Image75 anos

Nuno é uma das figuras da vila. Figura no sentido de que todos o conhecem e identificam, exactamente pela figura. A barba branca, a jeito de Pai-natal ou do próprio Karl Marx cuja doutrina veio a abraçar.

A minha curiosidade por esta figura e a ideia de uma necessária entrevista concretizaram-se e, uma vez mais, foi-me permitido viajar através da história de um homem ao passado deste sítio.

Das ideias que temos de alguém, porque as formamos, vem-se a ideia de Nuno a afixar os cartazes da Festa do Avante. Filiado no PCP por influência de um tio, diz encontrar ali “o único partido que entende os trabalhadores“. Pisou, sem faltar uma única vez, o chão da Quinta da Atalaia nos últimos 35 anos e adverte-me que os bilhetes para este ano já estão à venda. Percebe-se que vive muito e espírito do Avante e justifica: “Gosto de colaborar e conviver com os meus camaradas”.

Típico, refere-se aos amigos de quem fala ao longo da conversa, como “camaradas”.

A época que melhor recorda da sua vida “era quando andávamos a namorar. As moças iam à fonte, ao anoitecer, com o cântaro à cabeça e nós íamos com elas. Bons tempos aqueles.”

Nuno fez a 4.ª Classe, sublinhando que o fez “com distinção”. Conta que teve uma “belíssima professora, a Senhora Dona Ana. Interessava-se e dedicava-se, um mês antes dos exames íamos para a casa dela uma hora antes e uma hora depois das aulas estudar, ajudava-nos. Mas também era boa a bater e a puxar as orelhas”, relembra a sorrir.

Ainda sobre a sua meninice fala de “uma época muito pobre, mas mais sã do que agora. Havia as casas ricas e o resto eramos pobres. Mas era uma época mais sã”. Recorda sobre essa época que ajudavam os pais no campo e conta que, “quando caiam aquelas chuvadas íamos às hortas apanhar a azeitona que caia no chão – só a do chão – e depois íamos levá-la aos lagares e trocávamo-la por azeite, para o conduito da casa”.

Depois da escola foi aprender a sua profissão, Marceneiro, com o pai, que tinha uma oficina. Mas dava pouco e acabaram por fechar a oficina pois “só aparecia uma cadeira, um louceiro, uma mesa para arranjar e não dava”. Satisfaz-me uma curiosidade, ou mesmo ignorância, e explica-me que “um Carpinteiro trabalha com portas, janelas, faz estruturas e um Marceneiro trabalha com móveis”.

Quando fecharam a oficina a avó foi falar com o gerente da Fábrica, a fábrica grande da vila e ele foi para lá trabalhar. “Naquela altura a Fábrica tinha muita gente e pagava bem, pagava melhor do que a Câmara, depois nós começámos a decair e os da Câmara foram subindo”. Na Fábrica trabalhou mais de 30 anos. Começou como tintureiro, “tingia as fazendas mas depois trabalhei mesmo na minha profissão. O Marceneiro reformou-se e eu comecei a fazer os arranjos que era preciso na Fábrica, só que nunca me passaram a Marceneiro, se não tinham que me pagar mais”, revela acusando a esperteza da entidade patronal. Mas gostava do que fazia.

Paralelamente foi Bombeiro mais de 20 anos, até ser expulso. Foi expulso dos Bombeiros, Sr. Nuno? Porquê? Olhe, nunca mo disseram mas foi porque eu era contra a situação”. Fala da política. Pergunto-lhe se era muito revolucionário e diz-me que fazia o que conseguia. Além desta instituição a que, apesar de tudo, teve muito orgulho em pertencer também jogou futebol no clube do “CAT do Pessoal da Fábrica”. CAT, pelo que relembra, queria dizer “Centro de Alegria e Trabalho”. Naquela altura o CAT do Pessoal da Fábrica era muito activo. “Geríamos o CineTeatro, chegámos a passar filmes. Tínhamos um bar que explorávamos, organizávamos bailes à tarde, no verão, e tínhamos a equipa de futebol, que ia jogar com as equipas dos outros concelhos”. Conta ainda que, com o dinheiro que o CAT conseguia faziam um grande almoço para os sócios, trabalhadores da fábrica, e convidavam os chefes. Relembra que “um ano fizemos tal almoçarada que durou 3 dias, parecia um casamento”. Depois, provavelmente com o declínio da fábrica, tudo acabou.

Ainda falamos na crise e, ao longo da sua vida diz que “vivi muito mal, depois isto evoluiu muito e vivia-se bem e agora o país caminha para a bancarrota”. Diz ainda que “o 25 de Abril foi o melhor que nos aconteceu”.

No final conclui que “antigamente era um tempo mais puro do que o de hoje”.

Faz-se tarde e Nuno tem que ir para casa ajudar a irmã, com quem vive, a tomar conta de uma tia. Agradeço-lhe e digo-lhe para pedir desculpa à Dona B. pelo atraso, que a culpa foi minha. Ele ri-se e ainda me deixa fotografá-lo insistindo que não tem lá grande figura. Digo-lhe que parece um poeta e ri-se.

Obrigada, Nuno, o Camarada, pela simpatia. Muito obrigada, Camarada Nuno, pela viagem e pelas histórias. Vemo-nos por aí!

cremilda

84 anos

Quando pensei neste espaço fiz automaticamente uma lista de pessoas a entrevistar. Fui-as conhecendo em situações diversas e ficaram-me no pensamento. Uma delas foi Cremilda. Conheci-a há muitos anos, via-a regularmente num evento local composto por uma parte religiosa, piquenique e tarde cultural, o Dia da Paróquia. Uma pessoa ou grupo de cada aldeia apresentava e representava no período da tarde a sua terra. Eram músicas, peças de teatro, poesias, histórias, de tudo um pouco. Cremilda representava sempre a sua aldeia. Trazia sempre quadras, poemas de sua autoria sobre o que lhe apetecia. O que me fascinava, além da figura alegre e orgulhosa do seu papel, era a forma como declamava as suas quadras, aquele tom era mesmo de recitação. Com o tempo, noutros locais e noutras conversas percebi que é assim que fala, como se declamasse, com uma entoação poética, recitada.

Telefonei-lhe ao início da tarde, pois de certeza que a apanhava em casa. Não perde as novelas depois das notícias. São uma companhia, o acompanhar de várias vidas anima-a, cria-se ali uma ligação quando se vive sozinho. Disse-me que sim, que lá fosse. E eu fui.

Cremilda está viúva. Tem dois filhos, quatro netos e três bisnetos. São o que estima na vida.

Um exercício que faço nas entrevistas é pedir que me digam, olhando para trás, qual a fase mais bonita que recordam das suas vidas. A juventude não foi desta vez a eleita. Não. A fase mais bonita, para Cremilda, “é ver os bisnetos e netos com saúde, e que Deus os acompanhe. Vivo sozinha mas muito feliz”, porque os tem e sabe que estão bem.

Cremilda não teve uma vida fácil e percebe-se que a sua atitude lhe vale o ar radioso e alegre que tem.

Trabalhou no campo, foi mulher-a-dias, servente de pedreiros e costureira. Quando fala na costura, fala de um dom… “tinha tanta capacidade para isso, tanta roupa que eu fiz”. Consegue enumerar todas as localidades para onde fez trabalhos de costura e, nas redondezas, só houve uma aldeia para a qual nunca fez um único trabalho, não sabe porquê mas sabe bem que assim foi.

Nas entrevistas surpreendem-me muitas vezes ao guiar a conversa e eu gosto de ir onde me querem levar, às suas memórias. Disse-me “a minha vida de casada foi muito amargurada, o meu marido bebia muito e eu para orientar a minha vida e a dos meus filhos trabalhava dia e noite. De dia em casas na vila e de noite era agarrada à máquina (de costura)”.

Fala-me de algumas casas onde trabalhou na vila e explica-me que foi “no tempo em que levava cargos de roupa à cabeça para o ribeiro, não havia lixívias, era o sabão e punha-se a roupa a corar nos lameiros à beira do ribeiro ou naquela cascalheira limpa das ribeiras. Agora é uma beleza, há máquinas, lixívia. Naquele tempo era o sabão e as mãos a esfregar”.

 A escola e a escrita

Quando Cremilda passou da 1.ª para a 2.ª classe os pais tiraram-na da escola. “Tinha 9 anos e fui para a azeitona para o Tejo. O meu pai era lá como rancheiro e levaram-me para lá porque, com 9 anos, eu era nova mas tinha muito corpo”. Depois, continua “com 11 anos fui para a monda”. Interrompo-a. Para a monda, Dona Cremilda? Pois, para a monda, mondar o trigo, apanhar as ervas no meio do trigo no Alentejo. Eu com 11 anos já tinha corpo de 15”. E explica que “não havia plásticos, era com uma saca atada à cintura para não se molharmos no trigo quando ele já nos dava pelos joelhos e estava orvalhado. Fiquei lá 90 dias. Só não trabalhámos no dia de carnaval, nesse dia folgou-se e fomos para Campo Maior.

Volta ao tema escola, sempre. “Veja o pouco tempo que eu fui à escola mas o que aprendi nunca mais o esqueci. Dou erros mas escrevo muito. Escrevo cantigas, quadras, décimas, é de tudo um pouco”. Cremilda está sentada num sofá. Tem em frente a televisão e ao lado esquerdo um pequeno móvel onde me mostra vários cadernos preenchidos com textos seus. Não são apenas textos, são memórias, histórias, pensamentos, tudo o que lhe vai na alma e passa para o papel em rima, sempre em rima.

Uma relíquia. E remata, a sorrir: “Eu armava cada cantilhana”.

Questiono-a sobre este outro dom, o da escrita e responde-me que “vem tudo da memória, é engraçado mas é a verdade da vida”. E confidencia-me saber que “há pessoas aí na aldeia que me tinham zanga porque não lhes escorria nada”. Conta ainda que quando ia nos passeios e excursões “tinha sempre que inventar uma cantiga”.

Falamos nos passeios, uma oportunidade para as pessoas das aldeias darem, pelo menos, um passeio mais longe. Cremilda nunca mais foi a nenhum depois de viúva “porque também já tinha estes problemas nas pernas e custava-me a andar mas o que mais gostei de ir foi à Badoca (park)”. Porque tem animais diferentes daqui?Gostei tanto, aqueles animais todos a beber água naquele lago muito grande. Tenho aí uma história disso”. E aponta para os cadernos, pois claro!

A dureza da vida

Pergunto-lhe sobre o Portugal de hoje, diz-me que está mau, mas leva-me para o de antigamente. “Eu passei a crise, aquela crise da guerra de Espanha e da França com os alemães… quando andei na monda aparecia lá aquelas desgraçadinhas que fugiam da guerra de Espanha… aiii… eu cheguei a dar-lhes um casqueiro (pão) mas havia homens que abusavam delas, coitadinhas, algumas tão bonitas…”. Continua explicando que “O Salazar livrou-nos da guerra mas não nos livrou da fome. Eu quando trabalhava a dar serventia a pedreiros, na vila, quando dava o meio-dia desatava numa correria rua abaixo a buscar os meus 250 (gramas) de pão e vinha a roê-lo por ali acima. Chegava cá acima bebia água e viva o velho”. Não conheço esta última expressão e a própria Cremilda acha que a inventou, queria dizer que ficava contente. Ainda faz um reparo quando fala na correria e diz que quem lhe dera voltar a ter aquelas pernas para correr.

Continua e conta que “os meus pais eram muito rijos para mim e cortaram-me sempre as asas”. Explica que, ainda assim “sou muito paciente. Sou sofredora mas sei sofrer que Deus também sofreu por nós”. Explica ainda, a jeito de segredo para a vida que “há quem desanime por tudo e por nada, eu acho sempre que se hoje correu mal, amanhã é outro dia. Sou optimista”.

O casamento e o destino

Contou logo no início que o casamento não foi fácil mas é espantoso que não fala com mágoa, nem ressentimento. Casou com quem tinha de casar, porque acredita no destino. Cremilda acredita mesmo no destino e se algo não acontece como desejava é “porque tinha que ser”. Penso que é por isso que continua a acreditar sempre que o dia seguinte será melhor.

Cremilda começou a namorar com um rapaz que conheceu nos bailes (nos balhos) com 16 anos mas entretanto o pai adoeceu, nasceu-lhe um mal num pé a acabaram por lhe amputar a perna. Tinha dois irmãos muito novos e teve que ajudar a família. Deixou de ir aos bailes, esqueceu-se do pretendente. Uns anos mais tarde ele apareceu à procura dela mas rejeitou-o. Os pais dela também não o aceitavam muito bem. Recebeu entretanto uma proposta para ir trabalhar para Lisboa mas os pais não a deixaram. Cortaram-lhe novamente as asas. “Eles não deixaram e eu fiz chantagem com eles, ou me deixavam ir para Lisboa ou casava com ele. E eles disseram-me para casar com ele”. Ri-se e exclama, agora divertida com a sua própria história “Para eu não ir para Lisboa disseram-me para casar com ele, e eu casei”. E remata: “Para quê?… Tanto que eu sofri… era o destino”. Mas depois sorri, sempre.

Fé, família e futuro

Cremilda, que é zeladora da Igreja da aldeia há mais de 20 anos, tem uma Fé enorme. Diz ter “muita Fé em Deus e no Senhor dos Aflitos”. Aponta-me para as paredes e faz uma visita guiada às imagens de santos que tem, uns que comprou, outros que lhe ofereceram e diz “Sábado temos cá Missa”. Com 84 anos trata da Igreja, faz os Salmos e canta o Aleluia.

A conversa volta à crise quando diz que “isto os velhos, vem a reforma, mesmo pequenita, e a gente está habituado a comer de tudo… se eu comesse como algumas pessoas, do melhor, não me governava… gasto é muito com os medicamentos que os diabetes dão cabo da gente”. Conta que recebe de reforma pouco mais que duzentos euros e eu pergunto-lhe se lhe chega. “Tem que chegar… a gente tem que ogar* a boca com a bolsa e não dar o passo maior que a perna”. No meio da conversa falamos da crise e se se voltará a tempos difíceis como antes. Cremilda fecha a mãos, a jeito de prece, levanta-as ao céu e exclama, com aflição “Ai, Deus mos defenda”. O medo, aquela aflição tão sentida seguida de prece era pelos netos e bisnetos, que Deus lhos defenda…

Conta que come pouco, que às vezes coze grelos com ovo cozido, embora tenha peixe e bacalhau na arca “dá-me é a preguiça, só para mim chega. Ainda hoje veio aí a minha filha e até ralhou comigo porque não lhe disse que já não tinha conduto, nem queijo nem nada para comer com o pão mas eu pego no pão e ponho-lhe um bocadinho de azeite e gosto”.

A filha trouxe-lhe ainda uns pés de courgette, de beringela e de meloas para plantar. De manhã esteve a debulhar favas mas depois foi plantá-los. Frente à sua casa estão umas ruínas do que foi, como conta “a casa da gente mais rica cá da terra, uma viúva e uma solteirona”. É lá, dentro dos restos de paredes, fechado com porta, que tem o seu quintalinho onde, como diz “tem um bocadinho de tudo, para ir comendo, tenho lá couves, alfaces, batatas, alhos,muita couve boa para o caldo verde, é um bocadinho de cada coisa. As batatas semeei-as cedo mas já se queimaram duas vezes com a geada. Algumas ainda rebentaram. Tenho ervilhas, feijão, ainda hoje tive que apanhar as favas porque a rama já estava cheia de piolhos. Os meus filhos também me trazem batatas das deles e assim.

Sempre um passo à minha frente, adivinhando que lhe vou perguntar pelo seu dia-a-dia diz-me, quase que a jeito de conselho “Parar é morrer, se eu fosse a fazer a vontade ao meu corpo já estava paralisada.

Remata que estava um bocadinho em baixo mas que a conversa a está a distrair. Volta-se novamente para os seus cadernos e diz ter algures um texto sobre a vila. Ao longo da conversa leu-me e mostrou-me vários que lhe iam aparecendo ao folhear os cadernos.

Estamos a terminar e conto-lhe que sou amigas de duas das netas, que estudei e vivi com elas. Diz-me que ainda bem, que isso é muito bonito. Falamos de uma, depois da outra e eu digo-lhe que essa neta “é muito inteligente”, ao que me responde, sem falsas modéstias: “Olhe que ela tem a quem sair. Eu era de uma inteligência… se os meus pais me tivessem dado asas… mas cortaram-mas… Já viu o pouco que eu fui à escola e sei fazer contas de somar e subtrair e o que gosto de escrever… tudo me fica na memória”. E é bem verdade, o querer desta mulher é de uma força invejável que vai contra todos os muros que lhe quiseram levantar.

Cremilda, mesmo de asas cortadas voa alto, sonha ainda mais alto. Só começou a escrever depois de enviuvar e de se reformar “era para me entreter”, explica. E que maravilhosa maneira de passar o tempo, memórias de tudo e de há tanto tempo… tudo em rima, um tesouro muito valioso.

Um dos seus textos, sobre a água, deixou-me verdadeiramente impressionando. Fotografei-o e deixo-o aqui. Impressiona-me a inteligência com que o curso da água é explica em paralelismo ou metáfora com o amor, com o próprio casamento. Não são rimas tolas, avulsas, feitas de palavras que simplesmente rimam. Não, estas são rimas mesmo inteligentes:

Cremilda tem esta particularidade no nome de fugir à sua forma mais tradicional, Cremilde. Perguntei-lhe porque é assim e diz-me que foi o nome que lhe quiseram por.

Cheguei a casa e fui procurar o seu significado. Concluí que, para esta mulher que tanto acredita no destino, foi com ele que lhe chegou este nome, que só podia ser o seu. Cremilda que significa “a que combate com capacete: Pessoa charmosa, amável e expressiva, muito criativa e um tanto curiosa. (…) Sempre de bom astral (…). Só tem um problema em enfeitar demais a realidade (…).”

Cremilda, a fazedora de histórias. Cremilda, a optimista. Cremilda é e será sempre, antes de tudo, Cremilda a combatente. Porque combate tudo com optimismo e ainda conta a história com a dedicação das suas rimas.

Porque uma conclusão é sempre um ponto final, esta história fecha com um grande ponto de exclamação, de espanto. Perceberão quando ouvirem, no áudio seguinte, a sua história de vida escrita, decorada e contada pela própria, em quadras, claro está.

Desfrutem e aprendam, « aqui »
 Obrigada, querida Cremilda, (desde sempre) a combatente!

* Ogar: De augar, de áuga, forma de se dizer água. Ogar é dar água, aguar.

elisa

90 anos

Começava o dia 5 de Outubro de 1945, eram 6 da manhã quando a camioneta sardinheira chegou à pequena vila do interior. Trazia sardinhas e pessoas. Uma dessas pessoas era Elisa.

Eram 6 da manhã de 5 de Outubro de 1945 quando a nossa Dona Elisa chegou a Mação.

A riqueza de uma vida aparentemente simples mede-se, pesa-se e soma-se no valor da visão e da posição das pessoas sobre a própria vida.

É pelo modo de estar, de ser, e de ver, que a vida da Dona Elisa é de uma riqueza incrível.

Surpreendeu-me aquela serenidade com que me disse “cheguei a Mação às 6 da manhã do dia 5 de Outubro de 1945, na camioneta sardinheira. Tinha saído de Lisboa às 10 da noite, num autocarro até Belver onde aguardávamos depois a camioneta que ia ao comboio buscar as sardinhas e nos levava então para Mação”. Era assim que se vinha de Lisboa para Mação em 1945.

No dia em que chegou a Mação realizava-se o funeral do até então director do Colégio onde vinha dar aulas. Não foi ninguém recebê-la por esse mesmo facto. Recém-licenciada em Línguas Clássicas na Universidade de Lisboa chegou assim à pequena vila do interior que diz ser,  à altura “um meio pequeno cujo grande evento era a Feira dos Santos neste largo onde hoje vivo e onde não havia nada, aliás, nada do que existe hoje além do centro histórico, nada disso existia, lembro-me e acompanhei a construção de tudo isto que forma hoje a vila”.

Elisa nasceu há 90 anos em Angola. Com 6 foi com os pais para a Ilha do Príncipe onde viveu até aos 10 anos. O pai era funcionário dos quadros de São Tomé e Príncipe e andava sempre lá e cá. Cresceu até aos 10 anos numa Ilha em que era a única criança branca. Teve apenas um amigo na sua infância, um pretinho que era filho de um casal de empregados da casa dos seus pais e a quem uma vez enfiou uma tigela na cabeça e cortou o cabelo. Rimo-nos.

Na sua infância não brincou muito pois, além da falta de companhia, a tosse convulsa levou-a a quebrar e usou até aos 13 anos uma funda* “cresci fundada, com um género de cinta atada na cintura, talvez por isso tenha ficado com esta forma pequena.” A mãe não a deixou operar porque o hospital da Ilha não tinha condições.

Com 10 anos foi para Lisboa pois na Ilha não havia escola. Esteve primeiro em Lisboa e depois em Coimbra. Voltou para Lisboa para a Universidade. De Lisboa foi colocada como professora na pequena vila do interior onde ainda hoje vive.

Dona Elisa, a Professora

Perguntei-lhe quantos anos leccionou. Fê-lo com prazer, uma quase devoção e inteira dedicação entre 1945 e 1991 quando foi obrigada a reformar-se, “praticamente expulsa pois o limite de idade já tinha sido atingido. Tinha 70 anos. Eu não queria” E alunos, quantos foram? Sorriso na cara e a óbvia resposta “milhares… acompanhei três gerações de famílias, dos avós aos netos…”. A sua história cruza-se, de facto, com a da vila, histórica, social e arquitectonicamente. “Quando cheguei o Colégio (privado) era na Quinta. Vi construir-se o novo, passámos para o edifício novo. Entretanto o Colégio deixou de ser privado, passámos para o Ensino Oficial, tive sorte e contaram-me os anos do privado e efectivei na Escola**”. Esta Professora, que foi também a Directora conta ainda, divertida que “o curso permitia-me leccionar Português, Francês, Latim e Grego. Grego nunca dei, as outras sim mas, quando foi preciso, dei ainda aulas de História, Geografia, Ciências, cheguei a dar Inglês, mas só uns meses que é língua de que não gosto. Eu parece-me que só não dei aulas de Matemática… e Desenho, que isso seria uma desgraça… Isto no Privado, depois no Oficial foi o Português, a Geografia e a História”.

A mim deu-me História, no seu último ano no ensino. Tinha uma vareta que esticava, tipo antena, para apontar no quadro. Diga-me lá, D. Elisa, era muito exigente, não era?!  A resposta vem séria e segura: “Eu acho que não abusava e sempre tive muitas manifestações de amizade, ainda hoje antigos alunos que já são avós têm-me muita consideração. Posso dizer que nas reuniões havia professores com queixas de alunos e eu nunca tive uma queixa sequer.” Com a seriedade do acreditar reflecte: “Procurei sempre, na minha consciência, não prejudicar os meus alunos, não os fazer passar pelo ridículo e não fazer comparações, por exemplo entre melhores e piores notas. Nunca.” Falamos quase de uma fórmula? “Se calhar, tratei-os com respeito e eles respeitavam-me a mim. Tive colegas, dessas que ficavam aí colocadas um ano, que até se sentavam na mesa… não se davam ao respeito e não eram respeitadas. Não eram todas… Nos últimos anos eu já percebia que a pouca disciplina dos alunos se devia à pouca disciplina dos professores. ”

E hoje, Dona Elisa, que ideia tem sobre o Ensino em Portugal?Está tudo muito baralhado. Pelo que vejo, leio e falo com as minhas colegas, que já somos poucas vivas (e ri-se), o que acho é que o ensino antes era muito fechado, depois abriu muito e teve um efeito tipo 25 de Abril”. Tipo 25 de Abril ou devido ao 25 de Abril?Tipo, tipo 25 de Abril, primeiro era muito fechado e depois não soube o que fazer com a liberdade e desorganizou-se, baralhou-se. Por exemplo, antes as licenciaturas eram muito poucas mas com mais conteúdo, hoje há licenciaturas em tudo e mais alguma coisa. Haver mais cursos não prejudica mas há menos exigência. Mas há o lado bom, o ensino em Portugal abriu-se ao mundo, em 1991 os programas já eram muito melhores.

Saúde e Família

Falamos da sua lucidez, excelente memória e saúde. Diz que nunca teve grandes problemas de saúde “mas ando muito controlada… tomo alguns comprimidos que também não sou um milagre, mas não tenho diabetes nem colesterol, posso comer de tudo. Gosto muito de café e de chá, o médico disse que só posso beber 4 bicas por dia e não me tira o sono”. Rimo-nos, o ir à bica, hoje com mais dificuldade e a ajuda da bengala é uma das imagens do quotidiano da vila. Pergunto-lhe qual a fórmula desta longevidade e responde-me que deve estar na origem dos pais, “um de Avis, outro de S. Martinho do Porto, a junção destas origens deu-me saúde” e ri-se de novo. Depois confessa que os nervos é que a deixam um bocadinho em baixo. Conta que no final do curso teve um esgotamento. “Escrever a tese, preparar os exames finais e dar explicações para ajudar a economia familiar esgotou-me, cheguei ao último exame, o de Latim, e bloqueei. O Professor foi muito compreensivo, tive sorte. Ainda hoje tenho alguns problemas com os nervos, as pernas não acompanham a cabeça e isso enerva-me, revolta-me.” Assume alguma culpa e diz que “quando me reformei parei muito, foi o meu erro.” Ainda assim, esta fantástica mulher de 90 anos ia, com 84, de Expresso para o Porto, para Lisboa e para as Caldas da Rainha visitar os primos.

Não bebe leite, nem iogurtes e o queijo, só fresco. Mesmo assim, nunca partiu um osso. Fala de uma queda que deu há uns anos, desequilibrou-se e caiu um vão de 8 degraus. Malgrado todo o sangue que deitou só cortou uma sobrancelha e rebentou uma veia na perna, da qual já nem há marca. “Tinha ido à festa do Sr. das Encruzilhadas, foi ele que me ajudou”. Ri-se de novo.

Muita gente desconhece a história desta Professora que abraçou Mação. Quando o pai se reformou veio também para a pequena vila, porque lhe agradou o sítio. Veio o pai, a mãe e uma tia. O pai morreu cá em 1951, depois foi a mãe e por fim a tia. Filha única que era, nunca casou e optou por ficar, visitando regularmente a família. Ainda tem alguns primos vivos.

Quando Elisa se mudou tinha uma empregada, uma cozinheira, que teve uma filha. Elisa viu essa filha crescer lá em casa. Cresceu, casou e teve uma filha, Fatinha, que é como se fosse também sua filha e os filhos desta, são os seus netos. O dia-a-dia desta família fazia-se muito na casa da Professora D. Elisa. Hoje é com eles que vive. Fatinha, que é neta dessa sua empregada  tem a sua casa, a sua família, mas vai todos os dias visitar os pais e Elisa, chamada em casa carinhosamente por “Li” e aos sábados, sempre que pode, leva-a a beber a bica. Uma história simples a da sua família do coração que, como diz, “Graças a Deus encontrei”.

90 anos

Dona Elisa, como é hoje um dia na sua vida? “É muito rotineiro, fechado. Vejo televisão, leio alguma coisa mas a vista já não quer muito. Graças a Deus que me levanto todos os dias e ainda faço a minha cama.” Para não dar trabalho, entenda-se! Todos a associamos aos passeios pela vila, a ida à bica e buscar umas compras mas diz que hoje já não o faz diariamente por causa das pernas. E do frio, “com frio não saio, não me constipo há 2 anos. Mas por causa do frio, ao não dar um passeio as pernas ficam piores”. Também já só sai de tarde pois deita-se tarde e não se levanta cedo. Um passeio de manhã, devagarinho como anda, podia atrasá-la e o almoço é pontualmente ao meio-dia. Conta que quando sai lhe dizem “Vá devagarinho”. Ri-se e responde “Vou, vou”, com isso não se preocupem!

A sua vida foi sempre “casa-colégio e colégio-casa, nunca me inseri muito na sociedade, société, como dizem hoje, mas quando saio toda a gente me fala, antigos alunos, mães de antigos alunos, tenho alunos antigos que quando me vêem, se pudessem, andavam comigo ao colo”.

Gosta de livros, leu ultimamente o Rio das Flores e mais dois de Miguel Sousa Tavares. “Gostei muito do Rio das Flores e o último que li foi Mataram o Sidónio, do Moita Flores, aprendi muito da história sufocada da 1.ª República, da justiça e da política, coisas de que desconfiávamos. Gostei muito.”

Evoca e agradece a Deus muitas vezes na nossa conversa e diz que “sim, acredito em Deus. Não sou praticante mas sou Católica. Talvez a vida não me tenha levado a ser praticante, mas pratico interiormente”.

Aos mais novos deixa um conselho simples, uma pequena aula para a vida “que tenham confiança em si próprios, sejam honestos, rectos, respeitosos. Procurem seguir os bons exemplos dos pais e preparem o futuro. Trabalhem, tenham juízo. Sejam honestos e sinceros”.

Elisa, sempre Dona Elisa, sempre daqui, sempre por aqui. Nunca lhe chamam, não sei porquê, Professora Elisa. Dona, sempre Dona, mas com o respeito que se lhe deve, como que a dizer, a jeito de reverência: Senhora Dona Elisa. Elisa, a Professora. É “Li” junto dos seus. Elisa, a nossa. Elisa, a Eterna Dona Elisa.

Mais de duas horas de conversa, maravilhosa conversa e trazem-me para eu ver, num canudo de ferro, já a querer enferrujar, O Verdadeiro Canudo, que eu nunca tinha visto um assim. Lá dentro, com data de Junho de 1945, escrito à mão e em Latim, assinado pelo Reitor da Universidade de Lisboa, está o seu Diploma de Licenciatura. Juntam-se-lhe vários Diplomas de Mérito. Vem depois a Pasta das Fitas, estimada, amada, uma recordação de valor incalculável para a doce Elisa. Um tesouro só visto e partilhado em família. Quase que tremo com tão honrosa partilha. Peço-lhe uma fotografia. Ri-se, “agora quer tirar-me uma fotografia com o Diploma”. Acede e eu tiro.

Elisa, a nossa pequena, tão grande, Dona Elisa posa nesta fotografia com o seu Diploma e a Pasta das Fitas. Foram estes símbolos que um dia, em 1945, lhe disseram que sim, que podia vir até nós, que a trouxeram à pequena vila do interior. Foi este Diploma que a fez chegar-nos no dia 5 de Outubro de 1945, às 6 da manhã, na camioneta sardinheira.

Quando me despedi dei-lhe dois beijinhos. Depois mais dois e a promessa de uma visita em breve. Na rua já queria escurecer, o frio chegou-se ao meu rosto mas o calor no meu coração afastou-o. Não sinto o frio. Sorrio. Começo a ficar preocupada pois nem sei por onde vou começar a contar tão rica história.

Agora já está. Obrigada Dona Elisa, Elisa, a Eterna.

Muito Obrigada!

*Cinta, faixa atada à cintura

** Esta escola já está desactivada e há já uma nova

antónio

 82 anos

Há quadros perfeitos como descobrir uma casinha de rés-do-chão com jardim que resiste no meio dos prédios de uma cidade. Ou um campo todo cultivado, perfeitamente alinhado, cada cultura arrumada no seu quadradinho de chão.

Há quadros reais, que nos passam por vezes despercebidos, de uma perfeição avassaladora. É o mesmo com as pessoas.

Quem passa numa das ruas principais de Mação sabe onde fica o barbeiro, sabe quem é o Sr. António. Passa e sabe, porque está lá. Mas olhar com olhos de gente… Ver… isso é que é uma surpresa. Hoje fui surpreendida. Pelo Sr. António. Da barbearia.

António tem uma figura muito bem tratada, mais a sua bata branca. Quem passa à porta da barbearia percebe-lhe os anos, do dono e da barbearia. Ali dentro tudo parou e faz parte do tal quadro perfeito. O Sr. António, esse atravessa o tempo, cresce e aprende com ele. Actual, esperto, informado. De uma lucidez invejável.

Entrei na barbearia e percebo que nunca lá tinha realmente entrado. Pergunto-lhe se lhe posso fazer uma entrevista e acede. “Pode ser agora, não demora muito, pois não?” E começamos. Quem começa com as perguntas é ele. Que tive um filho há pouco, quantos já são e se sou da idade da filha mais nova. Respondo que devo ser 2 ou 3 anos mais nova. António abre a carteira, puxa de uma folha branca que desdobra e começa a ler as idades dos 4 filhos. Eu sorrio e pergunto se são as datas e aniversários dos filhos. Ele ri-se “Filhos e netos que a cabeça às vezes já não se lembra de tudo”. Falamos um bocadinho dos filhos. Tem três raparigas e um rapaz. Tem também quatro netos, três rapazes e uma rapariga.

Voltamo-nos para a sua vida, uma vida de 82 anos ele diz-me que “foi uma vida sempre a trabalhar. Saí da escola com 11 anos e fui aprender a alfaiate e a barbeiro. Ainda andei a fazer feiras mas nunca tive jeito para vigarista e dediquei-me à barbearia”. Mas como é que aprendeu duas profissões?Foi no Manel Silvério, o meu Mestre, tinha a casa aberta ao pé da Igreja. Lá faziam-se barbas, casacos e capotes. Era eu e outros lá a aprender. Só o trabalho dos domingos dava para nos pagar, o resto era tudo para ele. Ia-me prometendo sociedade e isto e aquilo e nada. Com 22 anos escapei a caminho de Lisboa a comprar esta cadeira (a de barbeiro) e estabeleci-me”. Explica-me onde foi a primeira barbearia e a luta que foi comprar a casa onde está há mais de vinte anos. António gostava do sítio e falava ao dono para lha vender, ele não a vendia e servia apenas para barracão. “Quando ele morreu a viúva depois adoeceu, o filho estava no Brasil e eu agarrei em 10 contos e fui entregá-los ao que tomava conta disto. Entretanto estavam outros interessados mas eu já tinha dado a entrada. Tive que ir fazer a escritura já ao Hospital, onde estava a viúva”. Vai buscar um dossier e mostra-me a escritura.
Dedicamo-nos à cadeira. A que foi buscar a Lisboa, aos 22 anos.

Comprei-a na Calçada da Boa Hora, agora parece-me que há lá um supermercado. Depois de a comprar tinha que a trazer para cá e um primo meu que era lá polícia é que me ajudou. Arranjou o transporte, mas tinha que vir num caixote. Tive que a desmontar e quando a recebi cá, montei-a outra vez.” Na cadeira, gravado a ferro lê-se Pessoa – Lisboa, pergunto-lhe o que é e explica-me que “esse António Pessoa pensou na cadeira, registou-a e mais ninguém podia fazer este modelo”.

Sobre as barbas que já por ali passaram diz-me, a sorrir, que já foram milhares e conta que “às vezes acordo de noite e ponho-me a pensar… só na Rua de S. Bento, da Capela à Igreja, só dessa rua já tive ao longo dos anos mais de duzentos clientes, agora não há lá quase ninguém”.

Sente muitas diferenças do antigamente para hoje?Eu cheguei a fazer barbas a 10 tostões… isto evoluiu muito. Mas as pessoas vão fugindo daqui…” Depois confidencia-me: “Eu devia ter ido para o Brasil mas a minha mãe disse-me que tanto arranjava dinheiro lá como cá, tinha é que trabalhar.

Falamos sobre o Portugal de hoje e diz-me que “é só exploração, tanta gente desempregada, é impossível que isto vá para a frente. Os grandes comem tudo e os pequenos é só serem explorados. Os mais novos têm que ir para fora. Deviam era apoiar as empresas para haver trabalho, mas é ao contrário. Agora até os hospitais querem fechar… mas isto tem algum jeito?…

Deixamos Portugal lá fora. Como é um dia seu? Levanto-me de manhã, como uma banana e tomo o comprimido.E acrescentaPara a tensão, diz o médico. Vou até à horta. Lá cultivo de tudo, batatas, cebolas, couves, feijão, é tudo. Às 10 horas venho a fugir para cima bebo um copo de leite e um papo-seco e venho abrir. Fecho para o almoço e depois é até às sete.” E gosta de andar na horta? “Cultivo de tudo e tenho 2 cabritas. A surpresa… tem duas cabras? A mulher faz dois ou três queijos, dão os cabritos, fazem o estrume para a horta e são um entretém”.
Fico absolutamente maravilhada com este relato. Com esta energia. Nunca pensei que António, o barbeiro de bata branca ia diariamente à horta e cuidava de duas cabritas que, feitas de contas, têm várias utilidades…
Casou aos 28 anos. Pergunto-lhe como se mantém um casamento 54 anos e ele, sem fórmulas mágicas, diz simplesmente “É fácil. Tem sido fácil… damo-nos bem!” Falamos dos filhos que “trazem muita felicidade” e diz-me que “primeiro só vinham meninas e eu disse ao médico ó doutor, como é isto e ele respondeu-me para continuar a tentar… e lá veio o rapaz”. Ri-se.

Falamos então sobre a escola, de onde saiu aos 11 anos. “Fiz a 4.ª classe e tive que sair. O meu pai morreu muito novo, com trinta e poucos anos e a minha mãe não podia pagar mais, tinha três filhos”. A mãe…. Pausa e diz-me “Ela morreu com 87 anos, foi uma mulher incansável”.

Continuamos a falar da mãe. “Aprendi muito com ela, era muito inteligente. Tinha um forno, cozia pão para outros e mesmo na altura da fome nunca nos faltou pão. A rapaziada do meu tempo assava umas batatas e umas cebolas com um ferro ao lume mas pão não tinham… não havia.” Conta-me, relembrando o tempo da fome que “O Salazar, no último discurso que fez disse hei-de ver se vos livro da guerra, mas da fome não prometo. Nas casas, uns tinham sobejos de batatas, outros azeite e as pessoas trocavam, dou-te isto e dás-me aquilo e era assim”.

Conclui: “Deus queira que não se volte a isso. As pessoas criavam 8 e 9 filhos e hoje diz-se que tudo se criava… criar, criava, mas era descalços e esfarrapados.

Lembra-se entretanto de outra situação impressionante que me conta. “Nas mercearias… – os homens iam para a ceifa para o Alentejo – e nas mercearias vendiam fiado às famílias. Um dia perguntei ao dono de uma mercearia como é que fazia a vida a vender fiado. Ele explicou-me que quando os homens voltavam da ceifa com o dinheiro e iam pagar a conta ele levava mais 10% de juros. Ora, ficavam logo sem dinheiro e voltavam a comprar fiado. Eu disse-lhe que ele assim fazia fortuna depressa…”.

 A hora para o almoço já tinha entretanto sido ultrapassada e pergunto, para finalizar: Diga-me só mais uma coisa, acredita em Deus? Sim, sim. Acredito que há um Ser Superior. Uma cadeira sabe-se quem a fez mas este globo que nos cerca… isto não é coisa do homem. Deus… nunca o vi, mas acredito.”

 António despe a bata branca e preparamo-nos para sair. Sei que podíamos ficar ali o resto da tarde, não quebrasse a rotina. A mulher esperava-o com o almoço na mesa. António, que passa pelos tempos e os acompanha. António, uma maravilha de conversa e de memória. António, 82 anos mais a sua cadeira que já conta uns 60. António, o Iluminado barbeiro. Aquela barbearia é agora para mim um novo espaço. Vezes que lá passe será agora, sempre, um quadro perfeito.

 Obrigada António, o Iluminado, pela paz, pelo saber, pela memória e pela lucidez.

maria

92 anos

Já a tinha visto na rua vezes sem conta e achava-lhe graça. Porque a tem. Fazia-me lembrar uma bonequinha de trapos em forma de gente. As camadas de roupa a resguardá-la do frio. O avental por cima. O xaile de malha pelas costas e o lenço atado à cabeça. Tal e qual uma bonequinha de trapos.
Dizia-lhe bom dia, boa tarde e ela respondia-me. Umas vezes passava por ela no passeio, com a sua bengalita, uma bengala baixinha a amparar as costas já curvas, ela já de si tão pequenina. Outras vezes via-a sentada num dos bancos que asseguram, nos passeios da rua principal os momentos de descanso. Ou simplesmente de se estar.
Até ao dia em que me sentei junto dela, num dos bancos. E fiz conversa. E ela retribui-me a conversa com uma graça indescritível. Fizemos as apresentações e conclui que lhe conheço a família e não sabia que ela era deles. Ela ri-se, gosta que eu lhe conheça os filhos e os netos.
Nesse dia eu disse-lhe que estava frio e ela explicou-me que “lá nos ermos a gente tem o lume, acende-o ao fim da tarde a aquece-se ali. Na vila não se acende o lume, até se usa o fogão para fazer a comida, não sabe ao mesmo“… Eu sei que ela tem razão e digo-lhe que sim, que a comida feita ao lume é outra coisa. Quando nos despedimos ela disse-me: “Obrigadinha pela visita“… Devia ter-lhe falado mais cedo. Ela gosta e eu também. E não custa nada fazer-lhe uma visita!
Dias depois marquei entrevista com ela. Deu-me o tempo, levou-me os ensinamentos, comoveu-me. Fez-me rir, perdeu-se um bocadinho e lá viajámos no tempo. Levou-me pela mão de uma memória ainda boa mas que já teima em repetir-se. Uma maravilha, ainda assim, para a nossa D. Maria que, aos 92 anos, tem memórias que o tempo não pode perder.
Há dois ou três temas que vai sempre buscar, qualquer que seja a pergunta. O tempo que trabalhou na fábrica de lanifícios, a família e o tempo que se demorava a pé de casa até à vila. Uma hora.
Maria, 92 anos. Dois filhos, dois netos e dois bisnetos. Viúva, pequenina, rija, uma verdadeira bonequinha de trapos com bengala.

Maria, a cheia de graça

Quando nos reencontrámos eu quis saber, no seu quase século de vida, qual a melhor fase por que passou. Diz-me que “o melhor é quando se é nova, ali com 24, 25 anos. Vinha da aldeia para a Vila para trabalhar e descobria os campos. Todos os campos tinham um nome e estavam bem tratados”. Parece-me que aquela ligação aos campos era quase com uma relação interpessoal, de reconhecimento, de perceber que há ali algo que cresce, que evolui, que dá frutos, que está tratado, há quase uma interacção entre a pessoa e a terra.
Quis saber se tinha preferido viver numa cidade. Diz que não, que gostava de andar no campo. “Fui criada assim… Um dia dizia às vizinhas: Hoje vou para o Albardeiro, amanhã para o Porto, depois para o Ribeiro, cada horta tinha o seu nome…“. Repete esta ideia várias vezes, como se ao recordar regressasse um bocadinho àquele tempo, sete ou oito décadas atrás…

Casamento
Perguntei-lhe como se namorava noutros tempos, e a D. Maria respondeu-me a sorrir: “Quer dizer, quando se chegava ali aos 15, 16 anos a gente começávamos logo a andar com a cabecita no ar. Depois, ali nos 20, 21, 22 ou 23 é que já falávamos com eles e depois casávamos“. Contou-me que namorou 3 anos. Ele era de uma aldeia vizinha e vinha à dela aos “balhos” (bailes) e foi lá que se arranjou o namoro. E diz-me “ele tratava-me tão bem, tão bom, era muito bom para mim, ele gostava tanto de mim e eu dele, mas ele não era trabeco (de trabucar, de falar), eu era mais divertida“. À pergunta sobre os anos que estiveram casados responde-meeu agora directamente já não sei dizer… Ele era um santo, o Zé. Nunca me rogou uma praga!”.
E o casamento, como foi a festa? Conta que o casamento foi na aldeia dela, o Padre ia lá dizer Missa e eles foram confessar-se ao Padre que depois os casou. Os convidados foram os irmãos, cunhados, primos, a família. E remata vaidosa: “Foram dois dias de boda“.
Para a boda matava-se uma cabra que se guisava. Fizeram-se Bolos dos Santos e o baile não falhava. Ó Dona Maria e o vestido de noiva?Olhe, eu ia bonita, que era para parecer bem às pessoas. Foi um dia tão alegre…”
Uns anos depois de estar casada vieram os filhos e ela explica-me que teve um rapaz e uma rapariga. Depois o rapaz teve uma rapariga e a rapariga teve um rapaz. Saudosa, exclama: “é um tempo que abala e já não volta, era um tempo muito alegre quando eles eram pequenos. A alegria da casa são os filhos. Depois, olhe, depois eles crescem e também se aborrecem da gente e depois têm os filhos deles com quem se divertir“.
Sem tempo para outra pergunta, continua na viagem às suas memórias e exclama “O meu homem era muito bom para mim, a minha mãe não teve sorte nenhuma com o marido. Ao domingo ele vinha à vila falar com os homens para irem para a ceifa e vinha um pagava, outro pagava, outro pagava, (faz uma pausa, olha para mim e explica: vinho. Eu  aceno com a cabeça, sei do que fala) ele bebia muito e ficava quente e quando chegava a casa gritava muito e depois os vizinhos vinham mandá-lo calar“. Não a interrompo, que ela agora está longe… “Ele arranjava grupos de homens lá na terra, grupos de 40, 50 homens para irem para a ceifa do trigo nas fazendas daqueles grandes lavradores no Alentejo. Ficavam lá aos 40 dias“.
Pergunto-lhe se se vivia melhor antigamente ou agora e a resposta é clara como os seus olho.Bem, isto agora o tempo é outro, há coisas que não havia e as pessoas eram mais atrasadas, mas isto hoje ainda pode piorar… O tempo não estava muito ruim mas agora estes malandros a roubar… até se matam uns aos outros”. E desabafa: “oh que raio é isto…” e pausa. Quando volta à conversa diz-me: “Da maneira que isto se vai a preparar parece-me que isto acaba depressa, matam-se uns aos outros. Isto está uma vida desgraçada. Antigamente não havia tanta desgraça como agora”.
Voltamos à sua meninice e pergunto-lhe sobre a escola. Diz que não andou na escola, eram quatro irmãos, um rapaz e três raparigas. “Das raparigas só a mais nova é que foi andar à escola, eu fui nova guardar gado, que os meus pais também eram muito pobres”.

As engenharias do saber

E gostava de andar com o gado?Tinha que gostar. Quando chovia molhava-me toda. Tinha um gabão”. Interrompi-a: o que era o gabão.”Era um capuchinho que vinha atar aqui à frente com um ou dois botões. Tinha uma abeira enfiava-se um baraço para atar e fazia uma capa comprida em fazenda”. Pela explicação penso que o gabão deve vir de capão, de capa grande que consistia no tal capuchinho a cobrir a cabeça que ligava a uma capa grande que cobria parte do corpo e a tal abeira seria a aba onde se enfiava o cordel para atar ao pescoço e que ligava a capa ao capucho. Conta-me entretanto que as fazendas, os tecidos, para fazer este e outro vestuário era tudo feito em casa, teciam os próprios tecidos para costurar. No final diz-me “as pessoas eram mais atrasadas mas ensinavam o que sabiam umas às outras”.

E voltamos ao gado. “O meu patrão dizia-me para ir levar o gado a tal parte, que as terras tinham nomes, e que voltasse às tantas horas. Mas eu não tinha onde ver as horas. Sabe como é que se fazia? Ao meio-dia a fábrica na vila apitava e quando ela apitava eu espetava um pau no chão e marcava um risco onde fazia sombra, era o meio-dia, depois já me sabia regular nas horas. Às vezes nem era preciso o pau, era com a sombra de algum palheiro. Até com a mão, pela sombra dos dedos” (e faz o gesto com a mão a formar cova e com o polegar no ar). Diz-me ainda que as pessoas se guiavam muito por sinais, pelo sol… e conclui “antigamente eram espertos”.

No nosso primeiro encontro falou-me logo no trabalho na fábrica, penso que a orgulha ter tido aquele trabalho. Pelas suas contas foram uns vinte anos na fábrica grande da Vila. Depois de casada ainda lá trabalhou mais oito. Explica-me as tarefas que desempenhou. “Fiz de tudo. Trabalhei na fiação, atava os fios que formavam as maçarocas de onde depois se enchiam os fusos. Gastava uma hora a pé de casa até ao serviço. Vinha com uma irmã minha. Trabalhei ainda na retrocedeira, na esfarrapadeira e na caneleira”. Volta a dizer que gastava uma hora a pé. Começa a ficar cansada.

Desafio-a, para concluir, a dizer uma moda antiga. Ela diz que sabia muitas, era muito divertida e começa:
Fui ao mato, fui à lenha,
Fui-me deitar a afogar…”
E pára. Não se consegue lembrar do resto. Eu digo-lhe que noutro dia falamos das cantigas e dos versos e ela explica-me: “Sabe, o cérebro gasta-se”. E sorri.

Depois da entrevista já a vi mais duas vezes sentada num dos três bancos no passeio da rua onde vive a filha. Reconhece-me mas não sabe bem de onde. Volto a apresentar-me e da última vez já me associou à entrevista. Diz que gosta muito de conversar, que quando está sozinha a cabeça começa a pensar noutras coisas. Ficamos um bocadinho à conversa, repetimos os temas e no final Maria, a cheia de graça, despede-se, “Obrigadinha pela visita”!

De nada, Dona Maria, foi (é sempre) um prazer!