teresa

teresinha

85 anos

 

Esta história é uma das primeiras em que eu não sabia ao que ia. Disseram-me que tinha, porque tinha, que falar com a D. Teresa. E eu fui. Em boa hora. Esta é a história de Teresa, Regente Escolar desde o início da década de 50 do século passado. Já está reformada quase há 30 anos mas lembra-se de muito, muito mesmo, do que viveu. Desculpa-se que já lhe faltam algumas lembranças mas sabe, por exemplo, que em Casas da Ribeira todos os anos tinha 22 alunos e só um ano é que teve apenas 17.

Teresa, figura pequena e de uma simpatia enorme é muito bem conhecida na Vila. Dá as suas caminhadas, faz as suas compras e vai à Missa, quase sempre de braço dado com a sobrinha Céu, junto de quem vive. Conheço-a de a ver na rua, de nos cumprimentarmos, de me perguntar pelos meninos. Mas não a conhecia. De todo. Não imaginava a riqueza das suas memórias. Que me mostraram tanta coisa que desconhecia. E o privilégio que é ter memórias tão antigas!

 

A Regente Teresa

A sua carreira começou pela mão da Dona Ana Tavares, que foi professora em Mação muitos anos, “foi ela que me habilitou para ser Regente, e não me levou um tostão”. As Regentes, explica-me, “tinham menos estudos que as Professoras que tiravam o 5.º ano e faziam mais 2 anos de estudos no Magistério”. A Regente, nos seus primeiros anos nas escolas, só podia levar os alunos até à 3.ª classe, que era o ensino obrigatório. Conta que, no fim do ano “o Delegado Escolar indicava-me a que escola levava os alunos e a Professora que lá estava é que fazia as passagens (de classe)”. Também tinha que levar os alunos a uma Professora para lhes fazer o exame da 3.ª classe.

No início era mais complicado ser-se Regente, “recebíamos menos do que as Professoras, não recebíamos vencimento nas férias de verão e não faziam descontos para a reforma, mais tarde lá veio uma Lei e passámos a fazer os descontos para podermos ter reforma, que é pequena mas melhor do que nada”.

No seu primeiro ano ficou colocada em Rosmaninhal. Foi lá também que deu aulas nos últimos 14. A diferença estava na escola que no seu primeiro ano lá era uma casinha normal e nos últimos já era um edifício escolar com um jardim que cuidava com os meninos. Tem pena de não se lembrar dos primeiros ordenados “mas era pouco”, remata.

Depois de Rosmaninhal esteve um ano em Queixoperra, outro no Castelo e um outro em Amêndoa. Tudo no concelho de Mação. Hoje em dia chega-se a estas localidades em 10 a 20 minutos. Naquela altura alugava uma casinha e ficava lá a semana, ia à segunda-feira de camioneta e voltava ao sábado, umas vezes a pé, outras de boleia, muitas vezes apanhava boleias com os médicos que iam ver doentes e a traziam para Mação. Em Amêndoa, o sítio mais longe da Vila em que ficou, partilhava casa com a outra professora. Falamos de uma época sem luz eléctrica e sem água canalizada. Falamos de uma época de que a maioria de nós não tem memória, mas Teresa tem. E não é só a memória de cozinhar num pequeno fogareiro à luz da candeia. É a memória, como conta, de “quando os dias eram maiores e íamos as duas dar uma voltinha pelas ruas e se ouviam as pessoas em casa a rezar”. Alto. Em família. Conta ainda que “em Amêndoa as mulheres faziam a Encomendação das Almas na Quaresma. Era as ruas, tudo escuro, em casa só o candeeiro e aquelas vozes das mulheres a cantar no Cruzeiro, aquilo arrepiava-me, metia respeito”.

Esteve depois 2 anos em Mação, em casa, mas ainda como agregada. Foi depois 11 anos para Casas da Ribeira e só aí ficou efectiva. De Casas da Ribeira vêm as maiores memórias. Diz que lá nunca houve edifício escolar, era uma casinha com menos condições, num primeiro andar, tinham que descer por uma escada de pedra. Conta que “aquela salinha tinha só um quadro e uma secretária com gavetas e uma cadeira para me sentar. Tinha as carteirinhas para os alunos e depois os mapas das colónias nas paredes”. Não havia aquecimento, claro, mas “havia um forno que todos os dias era aceso, sempre lá se fazia pão, e traziam-nos umas brasinhas para dar um calor, para os meninos aquecerem as mãos”.

Quando fala nas Casas da Ribeira, além de recordar as muitas crianças que lá havia, quase sempre com 22 alunos, fala dos casamentos, das raparigas novas, bonitas, a ir à fonte e a festa que era. Fala de uma aldeia muito alegre, com muita gente. Conta que “às vezes, à sexta-feira, os meninos vinham com as roupitas melhores, era porque ia haver casamento e as mães estavam a trabalhar para o casamento e eles iam lá jantar, ia a aldeia quase toda aos casamentos, tudo ajudava, era uma festa muito grande, uma alegria”.

Recorda os alunos que teve, alguns com quem se cruza ainda na vila. Recorda um, “o Manuel Augusto Mota, ele tinha uma cabeça… ele e o irmão, que ele uma vez trouxe-me o exame da 4.ª classe do irmão e nunca na vida eu vi um exame assim. Mas nenhum estudou, foi uma pena. Era assim, não tinham dinheiro, saíam da escola e iam trabalhar na Fábrica. Alguns, bem burros, estudavam porque tinham dinheiro e os mais pobres, alguns bem inteligentes, não podiam estudar. Perderam-se muitas cabeças que podiam ter feito muito pelo país”.

Como este, fala de outros alunos que teve, há muitos anos, há tantos anos. E ainda lhes recorda as capacidades, os feitos. Volta a dizer que eram poucos os que podiam ir estudar no Colégio D. Pedro V. Fala então do Sr. Lalanda e no grande feito que foi ter cá o Colégio, ajudou muita gente a poder estudar. Conta que em casa da mãe alojavam raparigas que vinham das aldeias mais longe. “Estiveram cá 2 raparigas da Carregueira, eram tão bonitas que a Professora Cândida quando as via à janela dizia que não era preciso ir a Abrantes ver as janelas floridas. Os rapazes arranjavam desculpas para lhes vir falar. Esteve também cá em casa a Preciosa, mas foram só 5 anos que era uma espertalhona e nunca perdeu um ano”.

Quando vinha de dar aulas ainda dava explicações a adultos, “aos que não tinham feito a 4.ª classe, levei muita gente a exame”.

Depois das Casas da Ribeira esteve mais 14 anos em Rosmaninhal, até acabarem os postos escolares. Foi então 4 anos para a Delegação Escolar, de onde se reformou. Conta que “nas aldeias ofereciam muitas coisas às professoras, então quando matavam os porcos era uma farturinha, e os queijos já curados, era de tudo, o ordenado era pequeno mas as pessoas ofereciam-nos muitas coisas”.

Teresa diz que “gostava muito de dar aulas, as crianças eram muito humildes. As minhas sobrinhas que são professoras dizem que hoje em dia os alunos são difíceis de aturar, no meu tempo não”. Continua a dizer que a grande diferença que nota em relação ao seu tempo “é que hoje em dia o ensino apela mais à inteligência, antigamente era enfiar tudo na cabeça, aqueles rios, cidades, tudo, tinham que saber aquilo tudo”. Refere ainda que os seus alunos não davam erros, escreviam muito bem, “porque para conseguir acudir às 4 classes punha uns a escrever palavras difíceis até que ia ensinar os outros”.

A Regente Teresa caminhava muito, deslocava-se muito a pé. Embora algumas professoras já tivessem carro, as regentes ganhavam menos. Não tinha carro. Mas refere que “não havia medos nos caminhos, havia sempre gente a passar. Eu quando ia de manhã para as Casas da Ribeira passava por muita gente. Os que trabalhavam na fábrica não, que entravam mais cedo, mas passava pelos estudantes, lá vinha o Prof. Pomba e o irmão com a sacola para o Colégio, e o Manuel, o Latoeiro, que na altura andava já a aprender o ofício dele. Era muita gente sempre nos caminhos. Eu hoje não ia lá sozinha”.

 

A Vila, as pessoas e a Casa Rebelo

Teresa fala de uma Vila que eu não conheci. E pelo que conta, vejo-a muito, muito distante. Fala muito no que era a vizinhança noutros tempos. As portas sempre abertas, o faltar uma cebola e ir pedir ao vizinho, que mais tarde vinha lá a casa pedir umas brasas para o ferro para abrir umas costuras num fato que estava a fazer. Fala de quando o pai chegava com a carroça e a vizinha da frente, a tecedeira Ti’ Dores que passava o dia a tecer e a cantar, vinha ajudar a descarregar a carroça e depois lhes pedia para levarem umas encomendas para seguirem na camioneta. Eram outros tempos. Teresa diz que “hoje há mais dinheiro mas menos amor, menos amizade”. O que acha é que as pessoas se fecham mais. “Dou-me bem com os vizinhos mas está cada um na sua casa, há a televisão, antigamente as pessoas socorriam-se mais, trocavam-se produtos, usavam o nosso forno e nós ajudávamos uns a debulhar feijão, outros a escarolar o milho, era como uma família. Nos Santos, para fazer os bolos, uns tinham a farinha, outros os ovos, os tabuleiros era ali da casa do professor Baço, havia mais amizade nas ruas”.

Além da fraternidade que se perdeu, o que lhe parte o coração é ver o estado da Casa Rebelo. Uma das casas grandes, senhoriais, da vila. O pai de Teresa era o Feitor da Casa Rebelo. “Era uma casa tão bonita, muito grande, tinha um piano, eu até me perdia lá dentro. Agora faz-me pena, eu nem quero entrar lá agora.” O pai de Teresa, o Feitor, tomava conta das propriedades e dos bens da Casa Rebelo. “Tinham 2 ou 3 lagares, muitos terrenos, celeiro, animais, adegas. Tinham ranchos de homens a trabalhar, que vinham das aldeias para os terrenos da Casa Rebelo. Havia também quem cultivasse terras que a Casa Rebelo cedia e depois uma parte do que apanhavam era para a Casa”. Todos os meses o pai de Teresa ia de carroça a Gavião, à Quinta onde os Senhores moravam, prestar as contas.

Teresa conta que “o Sr. Bispo, quando vinha a Mação ficava lá em casa, celebrava lá Missa e tudo”, que a casa tem Capela. “Quando vinha para celebrar o Crisma as pessoas iam esperá-lo à porta da Casa Rebelo e faziam Procissão até à Igreja”.

Os senhores vinham cá só de vez em quando. Na Casa, além do Feitor, havia uma Governanta e uma Criada, “mas quando eles vinham traziam uma criada que andava sempre com eles, muito arranjada. E tinham chauffeur, não conduziam”. Conta ainda que “quando era para fazer limpezas na Casa vinha um grupo de moças do Casal”.

Teresa conta que “era uma Casa muito rica nem dá para explicar. As filhas eram a D. Márcia, a D. Delfina, a D. Valentina, a D. Adriana, a D. Maria Teresa e o Dr. José Rebelo, que tinha uma avioneta para se deslocar”. Sendo o pai Feitor na casa, os padrinhos de Teresa foram Maria Teresa Rebelo e o marido. A madrinha quis que a criança tivesse o seu nome e conta-nos Teresa que “a minha mãe tinha tido 3 meninas, todas com Maria no nome tinham morrido as 3. A minha irmã era Engrácia mas não era Maria e sobreviveu. Quando eu nasci a minha mãe não queria voltar a por o nome Maria mas a minha madrinha quis e eu fiquei Maria Teresa e correu bem”. Rimo-nos.

Teresa conta ainda que o pai não recebia o ordenado todo em dinheiro, “era só uma parte, o resto era pago em comedias, que era em cada mês um alqueire de feijão outro de outra coisa, era pago com produtos para comer”.

Teresa conta que, naquela altura “por aqui, mesmo assim, era pão e mel, não havia assim tanta pobreza. Havia muitas fábricas, muitos alfaiates de capotes que iam para fora, para as feiras vender. Tudo conseguia um trabalhito. No Alentejo vivia-se pior”. E desabafa que “mas hoje há mais dinheiro mas não há empregos”.

 

As Sobrinhas – filhas

A certa altura da sua carreira, deram a Teresa a oportunidade de ir 2 anos ao Magistério para ficar como Professora. Ganhava-se melhor. Mas Teresa não foi. “Tinha as minhas sobrinhas para orientar e a minha mãe já tinha idade, não fui. O que ganhava chegava-me”.

Volta a falar nas sobrinhas quando falamos de casamento. Nunca casou. Não casou e sublinha: “e não me arrependo, dediquei-me às minhas sobrinhas, que perderam a mãe muito novas”. As sobrinhas foram a sua devoção.

Fala das sobrinhas como de filhas, sem usar esta palavra, mas é uma coisa que se sente quando fala. Pelo que conta, como conta. As suas dores são também de Teresa e a sua sorte celebra-a como se fosse sua. Fala dos filhos das sobrinhas como fala uma avó. Refere um, depois outro e o outro, fala de todos com o enorme orgulho da tia-avó que é.

Sempre que a vejo é com as sobrinhas. Acode-lhes quando precisam. Acodem-lhe quando precisa.

Fala com dor de quando uma das sobrinhas voltou de África com o marido e os filhos e sem nada, que lhes ficou lá tudo, como a tantos. Fala da outra sobrinha a quem ensinou a 1.ª classe pois não teve vaga para a escola, mas entrou depois directamente para a 2.ª classe, com 17 anos estava na Universidade e com 20 era Professora. Mais a outra sobrinha com quem dá passeios e que trabalhava na secretaria da escola com o marido. Mais esta sua sobrinha, que nos acolhe em sua casa, com quem partilha o dia-a-dia e a ajuda nalgumas memórias.

Dedicou a vida aos alunos mas o seu círculo mais estreito do afecto, que é também o maior, é inequivocamente das suas sobrinhas. É delas o seu coração. O seu sentimento maior.

São todos seus, os seus sobrinhos. Realmente seus. Da Encantadora Tia Teresa. Um amor de Tia, esta nossa Teresa. Senhora de um outro Mação, que ficou lá atrás mas que guarda na memória e que nos deixou conhecer um bocadinho. Obrigada, Dona Teresa.