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Se falasse do Manuel Marques… não chegariam lá! Professor Pomba. Só assim sabemos todos de quem se fala. É universal! Foram 36 anos dedicados ao ensino, foi professor primário de muitos, tantos, tantos maçaenses. O professor do ensino básico que é o Homem da Matemática, que a vive como poucos, que a trata por “tu” como quase ninguém…

Foi muito calma, às vezes empolgada, mas acima de tudo cheia de conteúdo e inspiração, esta nossa conversa. Foi muito interessante falar com o Homem por detrás do Professor.

Nasceu em Casas da Ribeira. Filho de mãe doméstica e pai trabalhador rural. Tinha um irmão, já falecido e de quem fala com um enorme orgulho e reconhecimento. Casado com outra das professoras emblemáticas da Vila, a Professora Lurdes, tiveram 2 filhos e têm 5 netos, quatro rapazes e uma rapariga.

De aluno feliz a professor dedicado

Começamos por falar da escola, do que foi ser aluno e refere logo que, “antes de entrar na Primária, aprendi a ler nas pernas do meu pai. Ele mostrava-me os livros, lia-mos, eu olhava para as imagens, era o método fonético. Quando um dia começo a ler, nem sei quando aprendi, nem o meu pai soube como foi. Dei pouco trabalho à professora…”. E ri-se. Remata que “o meu pai era um bom professor, eu só podia ter saído professor…”. A Primária foi feita em Casas da Ribeira e nos Santos. Diz que teve Professores muito bons, que o acarinhavam e considera que: “sou Professor porque fui um aluno feliz”. Conta ainda que “na 4.ª classe tive a Professora Angelina Morgado que gostava muito de mim porque era bom aluno e por isso sentou-me na carteira com a prima dela, a Virgínia Patrício, que me emprestava os lápis…”. E ri-se pela história, porque se ri e sorri muito, o Professor Pomba.

Foi fazer o exame de admissão a Setúbal, junto com o irmão. Tinham lá um tio, que era Polícia. Eram 800 alunos a fazer o exame, “o meu irmão era o n.º 518 e eu era o 519. Num problema de matemática os que estavam à minha volta começam a sussurrar-me que eu tinha o problema mal resolvida, até o meu irmão o dizia. O meu resultado era diferente do dos outros e diziam para eu copiar por eles, mas eu não, não me demovi do meu. Quando saímos juntaram-se todos à minha volta e eu a explicar como tinha resolvido o problema, que era, ainda me lembro, um problema de fracções na compra de uma bola…”. Continua a contar que “o meu tio estava à nossa espera e até se assustou por vê-los todos à minha volta, eu ali, pequenito, no meio. Mas quando saiu o resultado, o meu é que estava certo, estás a ver que isto da matemática já vem de longe, o bichinho já lá estava”. Depois da Primária foi para o Colégio D. Pedro V, em Mação. Diz que o Colégio “foi um grande farol para Mação, foi um privilégio ter ensino liceal aqui, naquela altura, até ao 5.º ano, que é o actual 9.º ano. Mas era caro, o meu pai pagava 150 escudos por mês, valiam os pinheiros que ia vendendo…”.

Recorda com muita saudade o Dr. Jaime, médico na vila e professor de matemática no Colégio. Antes dele já a Professora Tanim, filha do Professor Lalanda, lhe tinha despertado o gosto pela Matemática, mas “com o Dr. Jaime, durante dois anos, só eu é que era chamado ao quadro, para os outros verem como eu resolvia os problemas. Ele chamava-me o Filósofo da Matemática”. Sorrio ao Filósofo da Matemática, nome que lhe assenta como uma luva até hoje.

Terminado o Colégio veio a primeira grande desilusão da sua vida, o pai não o deixou continuar a estudar. Não tinham muito dinheiro e o irmão também não tinha continuado os estudos. O Professor Pomba recorda que “ver os outros a ir estudar e eu sem poder… fiquei doente, deixei de comer…”. Valeu-lhe um rapaz lá da terra que queria ir para o Seminário mas precisava de ajuda na matemática. Deu-lhe explicações desde os 16 aos 18 anos. Conta que foi o que o ajudou e lhe mostrou como gostava de ensinar. Dá uma gargalhada e conta, divertido que “eu dava-lhe explicações todos os dias às 4 da tarde. Eu gostava tanto daquilo que antes das 4 eu começava a espreitar na fechadura a ver se ele já lá vinha…”.

Quando fez 18 anos, teve uma cunha para ir trabalhar no Tribunal da Anadia como Escriturário. Esteve lá 9 meses e 11 dias. Gostavam muito dele e davam-lhe as sentenças para dactilografar porque sabiam que não dava erros de ortografia nem de pontuação, “graças ao que aprendi no Colégio, aqui”. Ao fim desses 9 meses e 11 dias, conta, “o Chefe de Secretaria do Tribunal chamou-me ao trabalho a um sábado e disse-me que gostava muito de mim mas que aquilo não era trabalho para mim”. E explica que a progressão na carreira se fazia por Concurso Documental, por currículo assente em anos de serviço e ele estava só a começar… Veio-se embora. Chegou a casa a dizer que se tinha despedido e que tinha que ir estudar. O pai nem queria acreditar, o choque por deixar um emprego daqueles. Mas o irmão, e perceberemos sempre a sua profunda amizade e reconhecimento para com o irmão, como já estava a trabalhar no Tribunal em Mação, disse que lhe pagava os estudos. É um agradecimento tão grande e sentido que não se paga… isto sente-se em cada bocadinho de si quando o conta.

Foi para Castelo Branco fazer o curso do Magistério Primário. Conta então que “as notas no primeiro ano foram tão boas que o meu pai depois já pagou o resto”. Ri-se. Acabou o curso com 16 valores. “Veio um Júri de Coimbra, onde vinha o Director da Escola do Magistério Primário de Coimbra, Doutor Sousa Loureiro. Eles queriam dar-me 17 valores mas peguei-me lá com uma professora, não tínhamos a mesma opinião (ri-se) e ela queria que me dessem um 15, mas o Dr. Sousa Loureiro impôs os 16 valores e disse – me «em muitos anos como Director da Escola só vi um outro ponto igual ao seu, seja feliz e de si é de esperar qualquer coisa de novo», são estas coisas que nos marcam para a vida”. Falava do ponto de Pedagogia onde, “no final escrevi o que deve ser o lema do Professor e citei São Jerónimo que dizia «vivei como se em cada dia tivésseis que morrer, estudai como se eternamente tivésseis que viver»”.

Foi em Castelo Branco, a estudar, que conheceu a mulher. Conta que “a Teresa do Trapos, que era como chamávamos à Professora de Lavores, dizia que se todos namorassem como nós, todos podiam namorar, que os namoros deviam ser como o nosso. Lá na Escola eu tinha as melhores notas nas teóricas e ela nas práticas, do dedal”. Ri-se novamente.

Terminado o curso, ficou a dar aulas em Castelo Branco mas depois quis vir para Mação e explica que “tinha apenas um irmão, com alguma fragilidade na saúde e os meus pais envelheceriam sem o apoio afectivo que eu lhes devia dar, como fui cá feliz como aluno quis fazer os alunos de Mação também felizes”. Conta ainda, divertido, que quando terminou o curso o Director da Escola lhe perguntou: Vais trabalhar para o Estado? Ao que respondeu: “Não, vou trabalhar para os meus alunos”. E foi o que fez durante 36 anos. E que Mação lhe agradece. E reconhece até hoje. E prova nos alunos a quem ainda dá explicações.

Conta várias histórias, oferece-nos de bandeja várias lições de vida. E faz-nos pensar, o Professor Pomba, como quando diz que a certa altura, naquele mesmo café onde nos sentamos, encontrou-se com o Director da Escola de Santarém que vinha chamá-lo para dar lá aulas. Recusou. “Ele disse-me que em terra pequena não se fazem homens grandes, não concordo”.

Já a trabalhar a mulher dizia-lhe para ir estudar mais. Chegou a propor-se para o exame de matemática e foi fazê-lo, com o Professor Aleixo, do Castelo. Conta que “tive 16 valores mas não acabei o exame, não tive tempo, mas o que fiz acertei tudo”. E bastou-lhe. Porque gosta de se por à prova. Não fez nada com o exame, não voltou a estudar. Só em casa. Em casa descobre o Mundo.

Uma das etapas deste estudo foi acompanhar os próprios estudos dos filhos. Devorava os livros de matemática deles, ainda os tem. Conta que “uma vez o meu filho trouxe um exame do Técnico que tinha um problema de indução. Peguei-me com ele (o problema) às 10 da noite, dei conta dele às 3 da manhã. A minha mulher veio lá, espreitou-me e perguntou se estava tudo bem. Estava, já tinha dado cabo dele…”. Ri-se muito e remata: “olha que alguém a ver isto de fora dizia que era maluqueira, das 10 da noite às 3 da manhã, mas não é maluqueira é paixão”. Conta ainda que “no dia seguinte mostrei o problema a um colega, eram 5 anos páginas em que o resolvi. Dei-lho, disse que não o queria ver mais para poder um dia voltar a encontrá-lo e resolvê-lo novamente”. E ri-se.

Enquanto professor, participou durante 5 anos no Programa Interministerial de Promoção do Sucesso Educativo (PIPSE), tinham formação que depois vinham dar aos colegas, nas escolas. Estava no núcleo de Santarém, Lisboa, Leiria e Setúbal. Foi também Delegado Escolar. Conta ainda que “tivemos em Mação uma das primeiras Telescolas, com emissão no Posto 59. Foi também muito bom, era onde podiam estudar os alunos que não tinham dinheiro para pagar o Colégio”.

A política e a Santa Casa

O Professor Pomba foi Vereador durante 8 anos, nos primeiros mandatos do Senhor Elvino Pereira. Embora fossem de partidos diferentes, conta que trabalhavam bem juntos, completavam-se. “Não havia partidos, havia um trabalho a ser feito e era o que fazíamos e é assim que se deve fazer. A partir do momento em que são eleitos, Presidente e Vereadores, por que partido seja, todos devem trabalhar para a causa comum”. Fala de Elvino Pereira com uma profunda admiração, um respeito e amizade enormes. Fala do Busto que lhe tem que ser feito e de todas as homenagens que nunca serão muitas. Há ali uma profunda admiração.

Estava a dar aulas em Mação há 3 anos, quando foi convidado pelo Professor Baço e pelo Dr. Luís Catarino para reavivarem a Santa Casa. Conta que o Hospital tinha fechado por falta de médicos e de verbas. “Fizemos um cortejo de oferendas gigantesco. Correu muito bem, no Carvoeiro foram incansáveis. As pessoas davam o que podiam, como pinheiros para depois vendermos, fez-se aqui uma pilha de pinheiros… Até do Brasil veio ajuda, antes do cortejo já tínhamos 400 contos que tinham vindo do Brasil, só o Sr. João Veríssimo, da Sanguinheira (do Carvoeiro) que estava no Brasil mandou 100 contos. Conseguiu-se contratar um médico e o Hospital voltou a funcionar, fazia muita falta.” Quando vai ao passado percebe-se que se sente privilegiado pelas pessoas que teve o prazer de conhecer, e com quem trabalhou. Refere que “foi muito bom integrar aquela Mesa Administrativa com o Sr. Manuel Saldanha, o Sr. Heitor, que era o Provedor, e o Professor Baço. Ainda comprámos o terreno onde mais tarde se construiu o Lar”.

Há uma pausa na nossa conversa antes das últimas duas ou três perguntas que tenho para lhe fazer. É iniciativa sua dizer-me: “muitas coisas têm-me corrido mal mas sinto um nível de realização muito grande”. E relembra uma frase de André Gide que diz “Não me esforço por prazer mas sinto prazer no meu esforço. Eis o segredo da minha felicidade.” E remata que há-de ser Professor toda a vida.

Explica-nos, este nosso Professor, que “o neutro não existe, o nosso trabalho, a nossa acção, é positiva ou negativa, não existe espaço para o neutro. Se há palavras de que não gosto é do talvez e do assim-assim, o que é isso do talvez?… não aceito um talvez como resposta porque ou é sim, ou é não”…

O futuro, a vida e a paixão

Falamos dos projectos que tem, de um muito especial. O Professor Pomba, este nosso Filósofo da Matemática, tem vindo a preparar, e quer editar, um Ficheiro Didáctico, a que falta acabar de dar corpo. Trata-se de um livro que faz o que ele faz com os seus alunos: desmistifica a matemática, como explica “este livro ajudará os alunos a desenvolver o raciocínio lógico da matemática, baseia-se na lógica bivalente, para que compreendam que há dois valores lógicos em que tudo se baseia, o que é certo e o que é errado, o que é verdadeiro e o que é falso, tudo se rege pela matemática, há que compreendê-la.” Conclui dizendo que “quero apresentar o projecto ao Ministério da Educação para patrocinarem a sua edição, e tem que ser depressa porque gostava que os meus netos ainda apanhassem esta base nos seus estudos”. Conclui dizendo que “um professor com clarividência simplifica o que se diz difícil, o não clarividente complica o que se diz fácil…

Há muito que lhe sei deste sonho e acho que vai ser um trabalho de apoio fenomenal. Passando o Professor Pomba o seu à vontade e o seu entendimento da matemática para uma obra destas e os alunos deste nosso país ganharão muito, mesmo muito, com isso.

Pergunto-lhe se acredita em Deus. Diz que sim, claro que sim. E explica que “acredito em Deus, não gosto é de todo aquele ritual… Uma vez li um livro do Arcebispo Manuel Trindade Salgueiro chamado «Porque Creio em Deus» onde explicava que um laboratório constrói um ovo com uma composição igual à do ovo que sai da galinha. Mas do ovo da galinha sai um pintainho e do ovo do laboratório não sai vida…”. Diz que “há muito que fiz pazes com o que é a morte, porque percebi que tem que ser, se fossemos eternos os homens viravam lobos e matavam-se. Mas a alma não morre” e, no dizer de Pascal “a maior dimensão do homem é quando se põe de joelhos a contemplar a obra do criador”. Remata com outra história, das que o foram fazendo acreditar, ou perceber, que tem que haver Deus. Conta que “certa vez um casal de burgueses que tinha aias e professores para o filho em casa lhes diziam para não falarem de Deus ao menino. O menino fazia perguntas e davam-lhes as respostas, quem inventou isto e aquilo. Até ao dia em que o menino se pôs a contemplar um canteiro de flores e perguntou quem as tinha pintado. A terra era a mesma mas porquê as cores diferentes. Falavam do solo, da sua composição mas ele não aceitava nenhuma resposta. Disse que deixaria de comer até que lhe dessem a resposta correcta. E tiveram que lhe explicar a obra de Deus… porque há coisas que só têm uma explicação…”. E relembra uma outra frase que leu, que dizia “o Homem é um peregrino à procura de Deus, que pode estar num simples canteiro de flores”.

Por fim, explica que quando percebeu que o corpo tem que ter um fim na terra, o que lhe interessa é que, como alguém disse “tenha vivido de forma a que, no leito da morte, ainda ouça em surdina dizerem teve uma boa vida, fazia cá falta.”

A fórmula, diz, é viver-se com Paixão. Diz que “sem Paixão nada se consegue, chamem-lhe loucura, maluquice, o que quiserem, mas é Paixão pelo que se faz na vida que torna tudo possível”.

A nota final do nosso Professor Pomba vai para os seus colegas, para todos os Professores da Primária. Refere que gostava de chegar a todos os Professores do 1.º ciclo e explicar-lhes que “a Escola Primária é a base, é onde tudo se forma. Tem que se dar aos miúdos competências para serem capazes de desenvolver um trabalho com autonomia. As crianças têm que sair da primária com o raciocínio desenvolvido… há crianças que chegam ao 5.º ano e que não foram ensinadas a raciocinar… não pode ser… em vez de os encherem de trabalhos de casa, que deve ser o mínimo dos mínimos, pois de modo geral os professores nem os conseguem corrigir, não é possível… têm é que lhes lançar desafios, ensiná-los a raciocinar…”.

A conversa com o Professor Pomba foi, não sei dizê-lo de outra forma, uma conversa de emoções. Algumas muito fortes. Claro que falou no filho que perdeu recentemente. Falou, e disse “as lágrimas vêm já, não posso”. E vieram. E segurou-as. E explicou que a perda de um filho é algo que não tem explicação. É algo que o ultrapassa, que não é possível medir. Que só quem passa por isso… Fugimos ao tema. Mas não fugimos porque não se pode falar. Saímos do tema tal como entrámos, porque lhe custa, porque não consegue, porque a vida continua e é de vida que continuamos a falar, da Paixão de viver.

Sabemos, muitos de entre nós, o que este homem sente pela matemática. Podemos adivinhar o quão diferente teria sido a sua vida se tivesse desenvolvido a sua profissão numa terra maior, com mais oportunidades à mão. Porventura poderia ter sido melhor. Mais rica, de grandezas. Mas não lhe interessa. Só lhe interessa a grandeza do que viveu. O ter estado presente até aos últimos dias de vida dos pais, dando-lhes afecto, o ter dado apoio ao irmão quando a saúde lhe fugia… O irmão que lhe proporcionou o ter podido estudar, que lhe agradecerá eternamente. Não podia ter estado longe, ausente. Não podia. Porque não é o material que o move. É o Ser. É o ser-se gente. Humano. Porque falamos do Professor Pomba, o Filósofo da Matemática… um Homem da lógica que se guia pelas emoções, porque as consegue medir e perceber. Com Paixão. Se isto não é uma forma fantástica de se viver, não sei o que será.

Obrigada, caro Professor Pomba. Obrigada por tudo.

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