zé costa

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Quando caminhamos para o fim de um ano de comemorações, pelos 150 anos da Sociedade Filarmónica União Maçaense (SFUM), é inevitável a entrevista ao homem que lhe deu a mão nos últimos 37 anos. Saindo da forma normal deste espaço não lhe posso chamar apenas José. Não, não posso. Hoje abro excepção. Falamos de Zé Costa. Assim não há que enganar.

A entrevista foi marcada, remarcada e finalmente feita. Chovia e Zé Costa recebeu-me em casa, de mantinha nas pernas, agenda ao colo e a salamandra acesa. Começa por dizer que quer ver se a cabeça se lembra do que lhe vou perguntar. Escusava de se preocupar. Fizemos uma viagem de mais de 30 anos, mais de metade da sua vida ligado a tanta coisa, um braço aqui, a dar uma mãozinha acolá, o coração cheio na música e o pensamento sempre na Igreja. Uma maravilha de pessoa reflectida numa vida activa.

Zé Costa é o filho mais novo de três. Tem duas irmãs. O pai, Manuel Costa, era Sapateiro e Sacristão. A mãe, Maria da Conceição Matos, acompanhava-o na última função. Eram os Sacristães. Das suas funções Zé Costa destaca o tocar os sinos, “todos os dias tocavam as Trindades, de manhã, ao meio dia e ao por do sol. Depois tocavam os sinos quando havia casamentos e baptizados. Quanto maior era a gorjeta do sacristão maior era o toque…”. Rimo-nos. A par disso o pai de Zé Costa era o Regedor da Freguesia de Mação. Tratava-se de um agente de autoridade na freguesia, o regedor era a autoridade policial, principal da freguesia, dependia directamente do Ministério do Interior. Abaixo dele tinha os Cabos de Ordem, um por cada povoação. Eu desconhecia esta figura e fico maravilhada. Zé Costa lembra-se que as funções do pai eram, por exemplo, quando alguém queria entrar para a função pública, atestar se era fiel ao Estado Novo. Os regedores garantiam a boa aplicação das leis e dos regulamentos administrativos.

A família de Zé Costa era muito religiosa, o que afirma quando diz “pois é, cresci debaixo da saia da minha mãe na Igreja”. E remata que foi pela forte ligação à Igreja que lhe veio, depois, a ligação à música. Conta que “a Banda acompanhava o Padre nas actividades da Freguesia e comecei-lhe a tomar o gosto”. Além disso o pai, os tios e primos, foram todos músicos na Banda.

Zé Costa conta que quando a Banda saia para ir tocar numa festa iam a pé com o Padre e com o Sacristão, “ao sair da Vila tocavam uma Arruada e as pessoas vinham saber onde era a festa. Ao fim do dia, quando voltavam o meu pai, que era o sacristão, trazia um foguete da festa e lançava-o quando chegavam à vila, sinal de que a festa tinha terminado”. Zé Costa conta ainda que o Padre Marujo chegou a fazer uma música de que muitos ainda se lembram e que dizia:

“Tim Ba Da Lim
Tim Ba Da Lão
O Senhor Vigário vai à Festa
Acompanhado pelo Sacristão”.

A entrada de Zé Costa na Banda deu-se quase por acaso. Conta que “certo dia ia com o meu primo João Manuel na rua, frente à sede da Banda e ouvimos muito barulho. Estava lá o meu sogro e outros e fomos lá. Era uma altura conturbada, não conseguiam encontrar uma direcção. Nós os dois dissemos que se o Sr. Zé Simões e mais alguns ficassem, nós entrávamos. E assim foi. Fez-se a direcção”. Isto aconteceu, como que por mero acaso, há 37 anos. Desde então Zé Costa esteve sempre ligado à SFUM. Nos últimos anos, desde a saída do Sr. Carreira, como Presidente da Direcção. Sempre acompanhado pelo primo João Manuel.

No meio houve outras direcções, outras fases difíceis e, como diz “voltei a ficar com a menina nas mãos”. Pegou nela. E trouxe-a, ao colo. Até hoje. Jovem e forte. Vistosa. Cheia de esperança no futuro. A Banda de Mação chegou, assim, aos 150 anos. Muito foram os homens que a trouxeram. Nos últimos anos foi, inegavelmente, este homem, Zé Costa.

Zé Costa é casado e tem um filho, Jorge. Fez a Escola Primária, depois estudou no Colégio D. Pedro V. Começou a vida profissional como Serralheiro nas Oficinas do Sr. Pombo. Depois foi para a tropa. Esteve no Ultramar. Dois anos e meio em Angola. Quando voltou foi para o mesmo patrão, mas como motorista de táxi. Estava entretanto para abrir o Centro de Saúde. Foi a altura em que casou. Fez o Curso de Agente Sanitário no Instituto Ricardo Jorge, em Lisboa, e foi colocado no Centro de Saúde de Mação em 1973. Fez depois o Curso Técnico de Diagnóstico e Terapêutica – área de Saúde Ambiental e foi nestas funções que se aposentou em 2008. Nos seus 35 anos ligado ao Centro de Saúde rara terá sido a Vistoria do Ramo Alimentar e Insalubridade em que não participou. Após a reforma continuou na sua área profissional, agora com ligação à Câmara Municipal, quando foi criado o Serviço Municipal de Segurança Alimentar.

Comissão dos Passos

Uma das muitas facetas da sua vida é a ligação à Comissão dos Passos. Não sabe quando entrou, ri-se e diz que “foi desde pequeno”. A Comissão dos Passos é um grupo de 30 pessoas ligadas à Igreja mas com funções muito específicas que passam pela organização e promoção das festividades da Quaresma, Semana Santa, Passos e Páscoa. Não dependem financeiramente da Igreja. Zé Costa explica que “fazemos peditórios para angariar fundos para pagar Alfaias, pagar à Banda, gerir o espólio dos Passos, as lanternas, as imagens têm sido restauradas pela Comissão, tanto as da Misericórdia como as do Calvário”.

Falamos um pouco desta parte tão importante das tradições da terra. Zé Costa explica que “na Quaresma canta-se um Terço a cada Domingo, são 7 Terços que são cantados de madrugada. Os quatro primeiros, entre o 1.º e o 4.º Domingo da Quaresma são os Terços da Boca Aberta. São cantados pelas 3 da manhã. As pessoas antigamente deitavam-se cedo e cantava-se o Terço pelas ruas àquela hora e elas acordavam com os Terços e sabiam que já era a Quaresma, mas há uns 15 anos que não cantamos os 4, só cantamos 1 porque são iguais, tornava-se repetitivo. No 5.º Domingo da Quaresma canta-se o Terço da Paixão, que é no Domingo de Ramos. Depois entra-se na Semana Santa, com todas as celebrações. No Sábado da Aleluia à noite, depois da Missa, faz-se a trasladação do Senhor, que é a Procissão da Ressurreição em que se leva a imagem do Senhor da Igreja Matriz para a Igreja da Misericórdia. Depois da Procissão é a Ceia Pascal em que oferecem uma ceia a quem vai, de madrugada, cantar o Terço, que é o Terço da Farinheira”. Tenho esta dúvida há anos, e pergunto-lhe porque tem o Terço o nome de Farinheira ao que me responde, sem certezas absolutas, mas porque é o que se consta que “durante a Quaresma não se podia comer carne e antigamente as carnes eram caras e a farinheira era a mais barata e seria o que se comia na Ceia Pascal, dai ter ficado o Terço da Farinheira”. E continua a contar que “na Ceia, que tem sido na casa do Sr. Courela, depois de se comer e beber cantam-se as Alvíssaras a quem ofereceu a ceia. Antigamente cantavam-se ao Padre, mas agora mudou. Depois, pelas 2 e meia, 3 da manhã, é o Terço da Farinheira (Ressurreição) ”.

Zé Costa conta, a jeito de curiosidade que, antigamente, ainda antes de ter memória de ir aos Terços, as pessoas eram muito mais rigorosas com os Terços e quem assistisse ou passasse tinha que se ajoelhar, “um dos membros levava uma moca e quem não se ajoelhasse levava uma cacetada, quem passava muito por eles eram as pessoas que vinham com os produtos da horta para fazer o Mercado do Domingo de manhã, e tinham que obedecer ou levavam uma cacetada.” Zé Costa remata que “agora já não é assim, também já podem participar mulheres, antigamente não”.

Grupo Coral e Excursões
O Grupo Coral da Igreja foi criado em 1976. Zé Costa pertenceu a esse grupo inicial e lá continua até hoje. Todas as semanas é ele quem escolhe os Cânticos. Conta que “a 1 de Novembro comemoramos o aniversário do Grupo Coral e ainda hoje, nesse dia, a jeito de comemoração, cantamos os cânticos que cantávamos no início”.

Curiosidades, estas entre outras, de muitas áreas, que podem passar despercebidas a muitos de nós, são como que partes de nós, da sociedade, da paróquia, da vida comunitária, da nossa identidade. Zé Costa conhece-os e partilha-os connosco.

No ano de 1973, além de ter ingressado no Centro de Saúde, Zé Costa casou com a sua “Lete”, Celeste, que o acompanha na vida, em tudo o que pode. Conheceram-se de sempre, de miúdos, das brincadeiras na rua. O pai de Celeste tinha uma taberna em frente à Igreja e Zé Costa morava junto à Igreja. Brincavam, iam às Procissões e ouviam as radionovelas no rádio que o pai de Lete tinha na taberna. Enquanto conversamos essa mesmo rádio que lhes trazia as novelas permanece, maravilhoso, mais velho do que qualquer um dos presentes, numa mesinha na sala da casa de Zé Costa.

Também nesse ano, junto com o primo João Manuel e o Sr. Sambado, começaram a organizar umas excursões a que dão o nome de “Amigos de Mação”. Já correram muito. Fazem, anualmente umas 2 ou 3 viagens. O grupo muda sempre, é aberto a quem se queira inscrever, mas este casal, entre outros, permanecem, desde 1973. Em Outubro passado foram a Espanha e a Guimarães, em Março próximo vão a Trás-os-Montes ver as Amendoeiras em Flor. As Excursões, como tudo na vida, evoluíram. Nas primeiras dormiam no autocarro de um dia para o outro. Hoje em dia vão com tudo preparado, hotel, restaurantes e guia.

Na última excursão Zé Costa teve que levar a companhia de uma cadeira de rodas. Mas foi, e vai, até poder. Há cerca de 8 meses teve umas tonturas, depois algo mais grave. Os exames médicos acabaram por mostrar a causa. Um tumor na cabeça. Não lhe perguntei, mas vou adivinhar aquela revolta do porquê eu, do porquê agora. Se a teve já não lha noto. Vejo-lhe apenas a Fé. Vejo-a e afirma-ma. Diz que “se não fosse a Fé que tenho, de que tudo se controle, que melhore”. Tem feito tratamentos, está para saber o resultado do último. Quimioterapia com comprimidos. Interessa-lhe que não avance. Que fique quietinho, o tumor. O que mais sente é a falta de equilíbrio que o obriga a companhia constante. Quase sempre a sua Lete. Logo Zé Costa que nunca esteve parado.

Hoje mais recolhido, “obrigado a estas férias”, como diz, continua a preparar os cânticos, a organizar e participar nas excursões, a acompanhar as comemorações dos 150 anos da Filarmónica, a ver o que se passa na internet. “Já tenho ali os cânticos para o Senhor das Encruzilhadas”. Faltam 15 dias mas está tudo pronto. Aos domingos é vê-lo no Coro da Igreja. Celeste remata que “a voz não lhe dói“. Há outras dores, sabemos que há.

Mas Zé Costa tem uma função em Mação. Que são várias. Que são fazer Mação mexer. Que são… ser o Zé Costa.

Mação conhece-o. Estima-o. Admira-o. Reconhece-lhe os feitos. O trabalho. O empenho. Mação tem Zé Costa na história, como Zé Costa tem Mação espelhado na sua vida, especialmente a sua muito activa vida adulta.

Que nossa Fé se junte à sua, já de si tão grande. O desejo de que lhe volte o equilíbrio. Que lhe melhore a saúde. Que continue a fazer mexer. Que volte rápido ao passo certo com que acompanha e abre caminho para passar a Banda pelas ruas.

Porque muito tem ainda para nos dar. Embora não nos faltem já, motivos para lhe agradecer. Eu já o sabia, mas sei-o mais enquanto conversamos. Do tanto que me ensina, que me explica sobre Mação, ao falar da sua própria vida. Não falássemos, afinal, de Zé Costa, o Amigo de Mação.