maria

Image85 anos

Vejo-a, de há anos, várias vezes por semana, até porque vivemos relativamente perto. Vejo-a sempre da mesma forma, desconhecendo-lhe a idade. Vejo-a invariavelmente na sua bicicleta. Sim, sempre com a sua bicicleta. Vejo-a eu e todos quantos a identificam como a “Maria da Bicicleta”, como a própria diz. Na verdade não é bem uma bicicleta pois tem 3 rodas, será mais um triciclo em tamanho para adultos.

Cruzamo-nos várias vezes na mercearia, a fazer compras e foi aí que, desta vez, a abordei e lhe perguntei se lhe posso fazer uma entrevista. Estávamos já à porta. Ela diz que sim, mas que vai só ali “comprar uns rebuçadinhos para os ratos, que se esqueceu”. Rio-me com os rebuçadinhos… na volta começa logo por dizer que é uma vida com muitas amarguras e, adivinhando ao que vou, conta que “com 15 anos fui servir numa casa em Tomar, voltei com 18 ou 19 anos e fui aprender costura. Trabalhei 11 anos na Alfaiataria do Sr. Zé Simões”. Vêm-me as memórias, pois que sim, que me lembro bem de a ver lá.

Entretanto, conta Maria, “casei, tivemos dois filhos e enviuvei quando tinha 36 anos, … a minha filha tinha 11 meses…”.

Fala desta primeira tristeza mas diz que “a paixão maior foi a morte do meu filho há 4 anos…”. Maria, cheia de Fé, conta que “tenho uma fotografia do meu filho e de manhã beijo-o e dou-lhe os bons dias e ele dá-me força”. Já muito antes tinha perdido a nora, que também deixou os filhos pequenos.

Quando saiu da Alfaiataria Maria foi trabalhar para a Praia da Figueirinha, em Setúbal. Foi lá que conheceu o 2.º marido “eu tomava conta dos balneários e ele era responsável pelas barracas e pelos toldos da praia”. Entretanto voltaram para a terra. Esteve casada 14 anos, voltando a enviuvar. Maria foi casada 3 vezes, mas agora vive sozinha. A filha deu-lhe entretanto um desgosto, não a vê há vários anos. O filho, como já referiu, foi levado por uma doença há 4 anos. Deixou-lhe os 2 netos e, agora, uma bisneta, Carminho, recém-nascida.

Maria, que nasceu aqui há 85 anos, era uma de 7 irmãos, vivia-se mal. Fez de tudo em nova, que se começava a trabalhar bem cedo. Fez costura, lavou roupa para fora e tomou conta de crianças, algumas pouco mais velhas do que ela. Mas fez-se à vida, sempre. Acima de tudo, noto-lhe a enorme Fé, um acreditar que a faz andar em frente, todos os dias.

Há anos perdeu a visão numa vista. Um dia, a notícia de que a outra podia ter o mesmo destino. Foi a Fé que a fez acreditar que havia de voltar a ver bem. Acreditou na intervenção médica e na santinha a quem entrega a vida, Maria das Dores. Fez-lhe uma promessa, que havia de cumprir no seu Santuário em Espanha se a operação corresse bem. Como correu. O filho, à altura ainda vivo, bem lhe perguntou por que tinham que ir tão longe, mas tinha que ser, e foi. Explica, no seu jeito simples e sentido que “quando temos os sentimentos, temos que os viver”.

Maria tem realmente muita Fé e explica que “Deus já me tem dado muitos sinais”. Quando sai de casa, faz uma reza, que diz assim:

Da minha casa vou sair,

A minha vida vou governar,

Tantos Anjos me acompanhem,

Como passos eu vou dar.

Nosso Senhor me livre das enguiças de Satanás”.

No final, um Pai Nosso e uma Avé Maria. É sempre assim, antes de sair de casa, quase sempre na sua bicicleta.

Tem a bicicleta há 10 anos, comprou-a em Almeirim, dá-lhe muito jeito. É com ela que se desloca à Vila, é com ela que transporta as compras que faz. Há 2 anos foram contra ela e conta que “partiram-me tudo, a bicicleta e a cabeça, tudo. Paguei 17 contos para arranjar a bicicleta”. Recuperou-a, porque a ajuda muito, lá vai pedalando, acaba por fazer exercício e transporta o que precisa. Maria, aos 85 anos, desloca-se 2 ou 3 vezes até à vila e quem a vê acha-lhe graça, mesmo desconhecendo a sua idade…

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Maria tem duas casas, a sua a cerca de 1 quilómetro da vila e outra mesmo no centro. Comprou-a para o filho, agora será para os netos. Vai lá todas as semanas regar as plantinhas.

Falamos então de plantas, de animais, de todas as suas pequenas paixões e entreténs do dia-a-dia. Além de ter animais, cultiva uma horta. Fala do cão que lhe morreu há 2 anos, teve-o durante 8 e era como um elemento da família. Tem gatos e conta que “agora apareceu-me lá outra que fez o favor de parir um gatinho e agora pede-me comida, olhe, já aqui a levo” (a latinha, para o gato).

Maria tem patos, galinhas, pombos, rolas e cabras, “tenho uma cabrinha que criei a biberon, a mãe morreu no parto”. Conta também, a jeito de pequenas aventuras do seu dia-a-dia, que “outro dia abri a porta da despensa e saíram-me de lá dois patinhos, a pata chocou em cima do forno e eu nem dei por nada”. Ri-se. Depois lembra-se de um pinto para quem construiu uma gaiola que ele se recusou a usar, “ele não gostou dela, já viu os animais?!…” .

Fala ainda nas galinhas, conta que comprou uma poedeiras e que há uma com quem tem uma relação especial, diz que a galinha a cumprimenta e Maria responde “Olá Catarina, o que é que queres?

Mas depois fala de um episódio mais aborrecido. Maria acredita, com a Fé que a alimenta, nas energias que nos envolvem a todos, e que uns transmitem aos outros.

Já não é, note-se, a primeira entrevistada que mo diz, que acredita e eu começo a achar mesmo que sim, que é bem verdade! É daquelas coisas que, se calhar, devíamos pensar um bocadinho sobre elas.

Mas conta-me Maria que uma vez “veio lá um para comprar uma cabra, eu não a quis vender e ele ficou chateado. Olhe, fizeram-lhe tal macumba que não lhe consigo sequer beber o leite,  é que não se consegue beber.

Por fim, fala ainda da sua laranjeira que não dava nada, ora flores, ora folhas, não dava laranjas. Maria trocou-a de sítio, no seu quintal, no dia em que nasceu o filho dos Duques de Bragança, há uns 15 anos, “foi nesse dia para me lembrar e agora dá laranjas que é uma maravilha”. Tem destas coisas engraçadas, constrói-se no seu meio, ou no meio das suas coisas, para que os dias não se levem pela solidão.

E não levam, não levam porque Maria, mais a sua bicicleta e a Fé, não deixam.

A saúde não abunda, fala da espinha que ficou em mau estado depois do acidente de há 2 anos, o problema das varizes, dos tendões… mas não se deixa derrotar, diz que “quando estou cansada, vou-me sentar. Tudo se vai fazendo”.

À noite tem por companhia a televisão, mas só um bocadinho há noite.

Maria volta a referir- se a Deus, fala porque é a sua companhia permanente, diz que “Ele é o meu grande Salvador”. Cita a sua biblioteca, todos os livros que tem à volta da história de Deus e da Igreja. Fala ainda dos vizinhos. Diz que os da frente foram os primeiros a acarinhá-la. Com os do lado de baixo, quase como uns filhos, trocam produtos da horta, quando um tem mais de uma coisa dá ao outro. Quando precisa, o vizinho vem cortar-lhe a erva, tanto que lhe ofereceu a máquina que ela tinha pois não a conseguia usar. É esta troca de serviços e produtos que ainda se vai encontrando e que dão mais sentido a vidas que, muitos dias, podiam ser mais desacompanhadas.

Maria, que vem na sua bicicleta 2 ou 3 vezes por semana à vila aos 85 anos fala, constantemente, na Fé. Fico sempre impressionada com a Fé das pessoas, com o lado positivo e feliz que conseguem tirar da vida, apesar e acima de tudo. Dizem que a Fé move montanhas… acho que é isso que Maria quer dizer… ou mostrar… Maria, a Cheia de Fé, um enorme obrigado pelo Acreditar…

Entre esta nossa conversa e a sua publicação Maria já conheceu Carminho, a bisneta recém-nascida. Veio conhecer e festejar os 85 anos da Bisavó Maria. Maria já me mostrou, deliciada, as fotografias da sua Carminho, linda. Junto à de Carminho está a do pai e a do avô, o seu filho. Maria diz que “é a continuação… Da vida, pois claro!