emanuel

72 anos

A imagem de Emanuel, na sua loja, cruza-se com as imagens de toda a minha vida, cuja duração há-se ser a mesma. Sempre o conheci ali e dali. Hoje, duas casas ao lado, mas sempre na rua principal da vila. O que mais se destaca nesta figura da vila é a simpatia ou, chamemos-lhe, cordialidade. Não acredito que alguém tenha alguma vez passado por Emanuel sem receber um cumprimento. Tem sempre um Bom Dia, uma Boa Tarde ou uma Boa Noite para dar. Sempre. E por aqui ficaria apresentado, para quem o conhece não haveria novidade se falasse apenas na sua cordialidade.

Podemos acrescentar, para o quadro ficar mais composto, a humildade do seu ser, essa humildade com que acedeu a esta entrevista mas advertindo que “não sei se tenho muito para lhe dizer…”. Claro que tem, Emanuel, tem a sua vida, para que se confirme na nossa memória.

Filho de uma das figuras mais marcantes da história e do desenvolvimento da vila a conversa sobre a sua vida remete para o negócio do pai onde trabalhou até ter o seu. Eram quatro irmãos, dois rapazes e duas raparigas. Falta-lhe o irmão, o seu amigo e apoio mais a falta que lhe faz. A conversa vai para o irmão várias vezes. Vai também para as irmãs. A mais velha, com quem vive desde que ela voltou de África e a mais nova que, nas suas palavras me “poderia explicar melhor as coisas”.

Emanuel nasceu e viveu sempre cá. Tem uma memória, que diz às vezes já faltar, de uma vila “com mais gente, mais viva, mas as ruas estão diferentes, isto foi tudo modernizado”. Lembra-se de “quando havia as carroças, poucos carros”. É do tempo de ir “à fonte, na Praça, com uma bilha de barro” e conta que electricidade em casa “só mais tarde, quando tinha uns 18, 20 anos. Usavam-se os petromax”. Ainda assim, conta, “nunca passámos fome, lá havia as suas crises…”.

A mãe era costureira “vinham as senhoras lá a casa, fazia-lhes vestidos”. O pai, entre muitas coisas que fez “fundou os bombeiros na vila”. Começou por trabalhar como alfaiate “depois entregou esse negócio ao meu tio e abriu o armazém de lanifícios”.

Emanuel, que em criança se lembra de brincar com uns carrinhos de madeira que se puxavam por um cordel foi à escola e fez a 4.ª classe. Ao iniciar-se no trabalho foi aprender a alfaiate. “Primeiro estive a aprender a alfaiate com o meu tio, andei lá uns tempos, depois fui trabalhar para o armazém de lanifícios do meu pai”. Fala-nos do negócio numa terra que girava à volta dos lanifícios. “Na loja vendíamos fazenda. Tínhamos muitas encomendas, vinham e pediam 5, 10 metros, nós cortávamos e vendíamos”. O pai adquiria as fazendas na Covilhã e também na fábrica cá da terra “em que chegou a ter uma parte”.

Na altura existiam os Caixeiros-viajantes que, conta, “ traziam encomendas de fora, de toda a parte, nós preparávamos as encomendas e íamos despachá-las, à altura, pela empresa de transportes do Sr. Pombo que depois as levava para o comboio. Ele fazia o transporte de pessoas e das mercadorias”. Os Caixeiros-viajantes, explica, “recebiam depois uma comissão pelas encomendas que traziam”. Além disso, “vendíamos para outras lojas e para os alfaiates”.

Depois de trabalhar na loja do pai abriu o seu próprio negócio, com a ajuda imprescindível, que não pára de referir, do irmão Rui. Abriu, na rua principal da vila, a Xara Boutique que, como refere, “era um pronto-a-vestir que à altura tinha muito movimento”. Lembro-me de sempre do seu pronto-a-vestir que apresentava sempre as novidades e a excelência das boas marcas. Era um bom negócio? Pergunto-lhe.Era, era, era bom. O meu irmão é que ia comprar tudo, ele é que escolhia”.

Na loja há ainda calças de ganga marca Lee, poucos tamanhos, mas bons preços. Figura ainda o antigo manequim de veludo preto que mostrava as toilettes e o acompanha desde sempre e várias peças de roupa que já decaíram e estão novamente na moda, soubesse boa gente o que ali se pode descobrir.

Conta que hoje, já reformado, “isto tem decaído, tenho a porta aberta para estar ocupado” e conta que depois de o irmão falecer “já pouco se comprou”.

Emanuel passa o dia na loja, lê o seu jornal diário e cumprimenta sem distinção quem passa. Sempre. Ao fim do dia gosta de dar um passeio para distrair.

Emanuel talvez não sabia mas tem um nome que quer dizer “Deus está no coração dos homens puros”. Perfeito.

É com o seu jeito humilde e simpático que, dia após dia, Emanuel, o Cordial, nos ensina que nos pequenos gestos está a diferença. O bem que sabe um cumprimento. Que nunca lhe falta.

Obrigada, Emanuel, uma Boa Tarde para si!

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