antónio

(Sotana)
75 anos

Acede à conversa, dispensa a fotografia. Daí recorrer, em cima, ao sobrenome pelo qual é amplamente (re)conhecido.

Quando nos encontramos e encaminhamos para um dos bancos do Jardim do Largo dos Combatentes falamos de trabalho. De trabalho e da reforma. Conta-me que trabalhou durante 36 anos e 3 dias. Acho interessante esta precisão.

Sentamo-nos. Nenhum sabe ainda por onde se desdobrará a conversa sendo certo, penso que para ambos, que falaremos do “seu” Chave Dourada.

Começamos pelas origens. Nasceu em Mação, o pai era Chefe da Secretaria da Câmara, a mãe era doméstica. Relembra-me que há 75 anos vivia aqui o triplo da população actual. O movimento na Vila era muito maior, sem as comodidades, equipamentos e oferta de hoje, mas muito mais activo. Aponta para a velhinha Escola Primária, já desactivada, hoje um pólo do Museu. Foi onde fez o 1.º ciclo. Seguiu para o Colégio, então na Quinta das Encruzilhadas. No seu processo de admissão passou o Colégio D. Pedro V para as instalações “novas” que serviram a terra muitos anos. Fez uns exames do colégio velho e outros já no novo. Quando frequentava o antigo 7.º ano (final do ensino secundário) foi chamado para a tropa, onde esteve 18 meses. Escapou à Guerra por ser da Artilharia, “alguns Colegas da Infantaria já não tiveram essa sorte, por sorte naqueles meses não precisaram da Artilharia”.

Concluiu os estudos já em Lisboa e ingressou nos Correios. “Fiz primeiro o estágio em Viseu, seguiram-se 9 terras por Portugal e estava nos Correios do Aeroporto, novamente em Lisboa, quando sai dos Correios e fui para a Caixa Geral de Depósitos”.

Deixou a Caixa para voltar à terra. Tinha 28 anos. O Chefe, na Caixa, disse-lhe “que fazia asneira”. Não é que se arrependa, aqui veio a casar e foi onde teve a sua filha mas reconhece que ”se lá tenho ficado, provavelmente outro galo cantaria”.

A Câmara

Já de volta foi trabalhar para a Câmara onde esteve de 1964 a 1995. “Comecei como Escriturário de 2.ª, que era a posição mais baixa. Naquela altura, para ir para a Câmara, tinha que se ter, pelo menos o 5.º ano (antigo). Já nas Finanças, bastava ter a 4.ª classe e ganhava-se o mesmo”.

Passou entretanto a Escriturário-Dactilógrafo. Isto numa altura em que “na Câmara havia uma máquina de escrever para todos, havia outra mas não era grande coisa e, mais tarde, veio uma nova”. Sobre o seu trabalho na Secretaria da Câmara relembra ainda um tempo em que “não havia fotocopiadora, o chato era quando era preciso uma cópia de uma declaração e tínhamos que a escrever à máquina exactamente igual ao original, com os mesmos erros e tido. Aquilo era danado, íamos embalados a escrever e quando olhávamos devíamos ter dado um erro e tínhamos escrito bem”. Rimo-nos os dois mas depois António remata “olhe que na altura não tinha piada nenhuma”. Explica ainda que para todo o serviço havia também só um pequeno furador, um agrafador, enfim, era tudo partilhado. Os tempos mudaram…

Quando se deu o 25 de Abril passou a 3.º Oficial. Deslumbram-me estes nomes, tão diferentes dos de hoje, tinham uma certa pompa, se calhar havia também mais circunstância. Passaram todos àquela categoria pois a Câmara não tinha quadros para mais. Diz que o pior naquela altura “era a falta de formações, tínhamos que nos desenrascar, não havia uma uniformidade com o resto do país”. Quando se reformou era Chefe de Secção. Reformou-se, como referiu, ao fim de 36 anos e 3 dias de trabalho.

A reforma trouxe-lhe mais tempo que partilha com a mulher, também já reformada. Era professora do 1.º Ciclo. Diz que ela se entretém com a renda, ele tem a famosa Chave Dourada, mas o trabalho que lhe requer não é diário. Do pai, além do Chave Dourada herdou o gosto pelas plantas. Dedica-lhes também algum tempo. Antes tinha as hortas mas o fogo levou tudo.  Conta que o pai “tinha um gosto às plantas sem explicação, mandava vir plantas de todo o lado, era no que gastava dinheiro, mas gastava algum, era uma paixão”. No meio explica-me que para os vasos não encharcarem se deve colocar uma camadinha de telha no fundo. Agradeço-lhe a explicação.

Além da jardinagem lê os jornais diários e vê os noticiários na televisão mas tem que ter cuidado pois diz que se enerva “ refilo com algumas notícias mas tenho que ter cuidado, senão sobe-me a tensão. (Risos) Refilo com as notícias porque não se compreendem certas coisas, como isto agora da Ministra da Agricultura, não pode ser. Há muita falta de tacto político”.

Chave Dourada

Esta parte da nossa conversa foi uma surpresa para mim. Porque o Chave Dourada é um vinho licoroso raro, muito nosso, muito daqui, envolto num género de quase segredo e este homem, cujo nome estará sempre associado ao Chave Dourada, desmistificou um pouco este processo.

O Chave Dourada é um vinho licoroso cuja produção tem como base um barril principal a que chamam “mãe”. O barril-mãe que tem, herdou-o do pai, que por sua vez o herdou da família da 1.ª mulher, que perdeu cedo. Esse barril data de 1800.

O barril-mãe, com cerca de 200 anos é um dos 3 em que assenta a sua produção. O mais novo é de 1965, um barril que tinha sido de vinho do Porto e que lhe trouxeram de Santarém, conta, “de um sujeito que, de tinas do vinho do Porto, fazia barris mais pequenos. O que interessa é começar com um barril já encorpado, de preferência que tenha tido vinho do Porto. Lava-se bem, fica sem vestígios, mas a madeira já está inchada, de outra forma iria absorver grande parte da produção”. Pela mesma razão, explica que “o local onde se faz a produção tem que ser fresco, quanto mais fresco o sítio, melhor. Senão o pipo bebe mais do que nós”.

A receita do famoso Chave Dourada é, na sua explicação, muito simples. Há quem diga que se deve começar com um pouco de vinho de um barril-mãe mas, na sua opinião, pode começar-se do nada. Basta juntar duas partes de vinho e uma de aguardente. Depois o açúcar. Mistura-se tudo muito bem num alguidar de barro. António usa as mãos e não a colher de pau para mexer pois tem melhor noção de quando o açúcar está desfeito. Para, por exemplo, 20 litros de líquido, serão uns 2 quilos de açúcar (do branco) mas, como diz em tom de brincadeira “a quantidade de açúcar depende do produtor, se é mais ou menos guloso…”.

Deixa-se então no barril durante um ano. Ao fim desse ano prova-se o vinho. António usa a típica mangueirinha. Aplicou-lhe um tubo mais rijo por dentro para a endireitar. Diz que há quem aplique a torneira no barril mas a torneira fica em baixo e, como refere, “nós ainda somos amadores, o nosso vinho tem tendência a ganhar pé. Com a torneira em baixo o que é que apanhamos? A borra. A borra interessa que fique lá, no fundo, mas para provar e encher as garrafas não queremos ir ao fundo, daí preferir a mangueira”.

Como explicava, ao fim de um ano prova-se e vê-se, então, se é preciso mais ou menos açúcar. Nesse ano algum vinho foi absorvido pela madeira e retirou-se um pouco para provar pelo que se deve fazer mais líquido para juntar (as tais duas partes de vinho e uma de aguardente), e mais ou menos açúcar conforme o vinho esteja. Este processo repete-se todos os anos, no verão. O pai ensinou-lhe que “se deve escolher um dia totalmente limpo, mas eu não ligo muito a isso”.

Pergunto-lhe quando fica o Chave Dourada pronto a consumir quando é feito assim, de novo. A resposta vem na forma de um conselho, de uma advertência: “há quem tenha começado a fazer o Chave Dourada mas querem logo começar a bebê-lo e a vendê-lo… tem que se esperar, antes de 15 anos não está bom – bom para começar a tirar…”. Pergunto-lhe quanto produz por anos. Diz que, dos 3 barris que tem, tira cerca de 8 garrafas por ano, 2 ou 3 de cada barril. Tira um pouco e volta a encher os barris com a receita.

Criou uns rótulos, os primeiros mandou-os fazer mas refere, orgulhoso que “os últimos foi a minha filha que os fez, têm a imagem de uma chave. Em cada garrafa de cada ano escrevo de qual barril saiu e a data”. Já fez este ano, estamos no Verão? “Ainda não, agora com a Margarida cá é que vamos fazer”. A filha, professora no Algarve está de férias e ajuda-o “ela já aprendeu e também gosta”. Pois bem, que é a sua herdeira!

Questiono-o ainda sobre a manutenção do barril com dois séculos. Diz que “desde que o tenho só tive que lhe substituir uma aduela”.

Preocupação com o futuro só tem com a matéria-prima. Deixou de produzir vinho, muitos têm deixado. Ou são os fogos que queimam as vinhas ou as pessoas que ficam velhas e deixam de ter força para as vindimas e para fazer o vinho “o vinho é cada vez menos”. Este ano já teve que comprar aguardente, “perde-se tudo, quem é que pega na agricultura?”. Diz ainda, meio a sério, meio a brincar, mas com preocupação que “qualquer dia já não se justifica o cacho de uvas no brasão …

Pergunto-lhe ainda se é só em barris de madeira que o Chave Dourada é produzido, ao que responde: “não sei jurar que sim, mas também nunca vi doutra maneira”.

Sobre a produção que tem explica que “como só tiro cerca de 8 garrafas por ano não tenho suficiente para vender. Assim,  olhe, não vendo nem ofereço. Depois zangavam-se por oferecer a uns e não a outros.”

Reforça que explica a quem quiser aprender, sublinha a importância de se produzir, a virtude de se saber esperar e remata que, no entanto, gosta de oferecer a provar a quem o procura. António, o guardião do Chave Dourada recusa-se, humildemente, a uma fotografia, mas oferece-me uma prova de Chave Dourada. Prometo-lhe uma visita um dia destes.

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