manuel

70 anos

Abordei Manuel de véspera, que tínhamos que ter uma conversa. Disse que não, que sim, que logo se via. No dia seguinte fui lá. Viu-me entrar na sua loja e disse “e não se esqueceu”. Ri-me.

Sentei-me e começámos uma conversa que foi uma verdadeira descoberta, uma vez mais, sobre uma vida que se cruza com a da vila. Grandes descobertas.

Manuel é Latoeiro. Toda a vida trabalhou com as chapas, deu-lhes formas e feitios, criou, com as suas mãos utensílios úteis e indispensáveis em casa e para a agricultura. Manuel, que com 70 anos, já tem 55 dedicados à sua arte, a latoaria. Tem duas filhas e quatro netos.

Manuel nasceu numa aldeia perto da vila. Perto hoje, pois antigamente levavam uma hora a chegar cá. Pergunto-lhe como era ser criança naquele tempo, ao que responde “era ir para a horta e brincadeira”. Fez a 3.ª classe na sua aldeia, Casas da Ribeira. Havia lá uma casinha, em cima era a escola, por baixo vivia a professora “que ainda é viva, está no Lar”. Após a 3.ª classe teve que ir para uma aldeia vizinha, Santos, “onde se fazia a 4.ª classe, já era uma escola oficial”.

O pai trabalhava na vila, na fábrica de lanifícios. Manuel foi, com 13 anos aprender com o seu Mestre a arte da Latoaria. Esteve, com esse Mestre, dois anos e meio a aprender. No final desse período a sua família mudou-se para a vila, que era onde já fazia (pel)a vida. Manuel tenta explicar-me onde era a casa onde aprendeu, mas já não existe, “era ali à frente perto de onde se volta para a Rua Nova, foi tudo abaixo, para alargar a rua”, que é hoje a principal da vila, onde vive e tem a sua loja e oficina. Conta que “só aqui passavam dois carros, à justa. Um dia atropelaram um homem e tiveram mesmo que alargar a rua”. Como curiosidade diz que “uma vez ia uma camioneta do Sr. Pombo a transportar a barca, para a Amieira, que a barca que lá está foi feita cá em Mação, e para passarem com a barca aquilo foi o diabo, passou à justa”.

O Mestre, com a necessidade de lhe demolirem a casa, acabou por deixar de trabalhar.

Manuel estabeleceu-se na mesma rua, mais acima. Tinha pouco mais de 15 anos quando começou na sua arte, por conta própria. A casa onde principiou, imagine-se, também teve que ser demolida para fazer uma rua. Rimo-nos com estas coincidências. O progresso da vila perseguia-o. Existiam 2 casinhas um pouco mais acima da que é hoje a sua, frente ao edifício da Câmara. Manuel conta que queriam fazer uma rua que viesse da entrada da vila até à rua principal, frente à Câmara.

O pai de Manuel tinha, entretanto, comprado uma casa que era de uma antiga tecedeira. Manuel estava para casar e o pai e o sogro construíram, no espaço dessa casa, a casa onde vive e trabalha até hoje. Situa-se, curiosamente, a meio caminho entre o espaço da casa onde aprendeu a sua arte e o espaço da casa onde se estabeleceu primeiro como Latoeiro.

Quando Manuel começou a trabalhar havia 3 Latoeiros na Vila, hoje é só ele. Manuel conta que “no início havia muito trabalho, depois foi diminuindo. Os canos para a água foram substituídos pelos de plástico, na agricultura foi-se deixando de trabalhar, acaba tudo”.

Antigamente Manuel fazia potes para o azeite, tubagens, latas para a resina, baldes, regadores, alambiques, aguadouros, acinchos, entre muitas outras coisas. Com a quebra no negócio foi optando por vender outros materiais como tintas, mangueiras, as próprias tubagens de plástico… “essa coisa do plástico tirou muito serviço à gente, mas é mais leve e mais barato…”.

Hoje em dia, conta que se levanta, vai à horta e abre a loja pelas 10 da manhã, “até que venham clientes, ou não”. Diz que “ainda se vai fazendo alguma coisa, algerozes e assim”. Mas uma das suas dificuldades é encontrar bom material para trabalhar. As suas peças sempre foram feitas em três materiais principais: a folha zincada, a folha-de-flandres e o cobre. Diz que “a chapa zincada ainda há, mas a de flandres só muito longe, antigamente vinha o viajante e fazia-se a encomenda que depois vinha de comboio e as camionetas do Sr. Pombo iam busca-las à estação, mas hoje isso acabou tudo”.

Uma das peças que ainda lhe vão pedindo são os acinchos para fazer queijinhos frescos “mas a chapa com a medida certa para fazer os acinchos desapareceu, quer dizer, deve haver mas os fornecedores têm que comprar grandes quantidades e não se aguentam, também vendem menos“.

Manuel continua a ver a Latoaria com o gosto de sempre. Diz que quando lhe pedem um trabalho “faz como o freguês quer”. Conta que “para fazer uma peça faço os moldes, recorto a chapa e costuro-a na máquina. Depois soldo-a a estanho, para não verter”. Contrariamente à complexidade que eu adivinhava à sua arte, diz que “é tudo feito a frio, é fácil, a chapa é boa de trabalhar”.

Manuel, que na televisão só vê as notícias, não muito animadoras, fala da sua carreira de Lateiro, como fala da própria Vila, ou do próprio país: havia muita gente, havia muito trabalho. Ponto final. Entretanto, diz que “houve uma altura em que houve muita emigração. Foram as pessoas, ficaram por lá os filhos. Há aldeias que dentro de anos desaparecem”. Pergunto-lhe se o preocupa o futuro dos netos, ao que responde que “não sabemos o que vai acontecer mas isto, como está, não vai parar a bom caminho, não”.

Num último exercício, porque falamos com o último Latoeiro da Vila, relembra as profissões que já desapareceram pois já ninguém trabalha nelas aqui e consegue enumerar e nomear 4 Sapateiros, 4 ou 5 Alfaiates (1 ainda faz uns trabalhos), 3 Ferreiros (ainda há 1), as Tecedeiras não sabe quantas eram, relembra ao longo dos tempos uns 4 Marceneiros e 1 Oleiro. Manuel refere os nomes, identifica as famílias e aponta-me um ou outro familiar dos homens que se dedicavam a estas profissões. Como referiu várias vezes na nossa conversa, acaba tudo.

A conversa caminha para o fim mas Manuel ainda me conta daquela vez que o Professor José Hermano Saraiva o visitou e filmou para um dos seus programas, feito em Mação. Ainda tem o vídeo e comenta que sempre gostou muito dos seus programas e o impressionava tudo o que lhe saia da cabeça, mas foi naquela visita que percebeu que “ele escrevia o que queria nuns cartões e depois estava um a filmar e outro ao lado a segurar o microfone e os cartazes para ele ler, mas isso não se via na televisão”. Rimo-nos com a sua descoberta, na sua oficina. Diz que lhe ofereceu uma Candeia e que o Professor lhe comprou um Aguadouro para oferecer a alguém.

Agradeço a Manuel, o Último Latoeiro a nossa conversa e a sua partilha. Saio feliz com as descobertas e, ao sair, consigo ver a rua principal com novos olhos, que acabaram de regressar do passado, de quando a rua era mais apertada e só cabiam dois carros à justa.

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emanuel

72 anos

A imagem de Emanuel, na sua loja, cruza-se com as imagens de toda a minha vida, cuja duração há-se ser a mesma. Sempre o conheci ali e dali. Hoje, duas casas ao lado, mas sempre na rua principal da vila. O que mais se destaca nesta figura da vila é a simpatia ou, chamemos-lhe, cordialidade. Não acredito que alguém tenha alguma vez passado por Emanuel sem receber um cumprimento. Tem sempre um Bom Dia, uma Boa Tarde ou uma Boa Noite para dar. Sempre. E por aqui ficaria apresentado, para quem o conhece não haveria novidade se falasse apenas na sua cordialidade.

Podemos acrescentar, para o quadro ficar mais composto, a humildade do seu ser, essa humildade com que acedeu a esta entrevista mas advertindo que “não sei se tenho muito para lhe dizer…”. Claro que tem, Emanuel, tem a sua vida, para que se confirme na nossa memória.

Filho de uma das figuras mais marcantes da história e do desenvolvimento da vila a conversa sobre a sua vida remete para o negócio do pai onde trabalhou até ter o seu. Eram quatro irmãos, dois rapazes e duas raparigas. Falta-lhe o irmão, o seu amigo e apoio mais a falta que lhe faz. A conversa vai para o irmão várias vezes. Vai também para as irmãs. A mais velha, com quem vive desde que ela voltou de África e a mais nova que, nas suas palavras me “poderia explicar melhor as coisas”.

Emanuel nasceu e viveu sempre cá. Tem uma memória, que diz às vezes já faltar, de uma vila “com mais gente, mais viva, mas as ruas estão diferentes, isto foi tudo modernizado”. Lembra-se de “quando havia as carroças, poucos carros”. É do tempo de ir “à fonte, na Praça, com uma bilha de barro” e conta que electricidade em casa “só mais tarde, quando tinha uns 18, 20 anos. Usavam-se os petromax”. Ainda assim, conta, “nunca passámos fome, lá havia as suas crises…”.

A mãe era costureira “vinham as senhoras lá a casa, fazia-lhes vestidos”. O pai, entre muitas coisas que fez “fundou os bombeiros na vila”. Começou por trabalhar como alfaiate “depois entregou esse negócio ao meu tio e abriu o armazém de lanifícios”.

Emanuel, que em criança se lembra de brincar com uns carrinhos de madeira que se puxavam por um cordel foi à escola e fez a 4.ª classe. Ao iniciar-se no trabalho foi aprender a alfaiate. “Primeiro estive a aprender a alfaiate com o meu tio, andei lá uns tempos, depois fui trabalhar para o armazém de lanifícios do meu pai”. Fala-nos do negócio numa terra que girava à volta dos lanifícios. “Na loja vendíamos fazenda. Tínhamos muitas encomendas, vinham e pediam 5, 10 metros, nós cortávamos e vendíamos”. O pai adquiria as fazendas na Covilhã e também na fábrica cá da terra “em que chegou a ter uma parte”.

Na altura existiam os Caixeiros-viajantes que, conta, “ traziam encomendas de fora, de toda a parte, nós preparávamos as encomendas e íamos despachá-las, à altura, pela empresa de transportes do Sr. Pombo que depois as levava para o comboio. Ele fazia o transporte de pessoas e das mercadorias”. Os Caixeiros-viajantes, explica, “recebiam depois uma comissão pelas encomendas que traziam”. Além disso, “vendíamos para outras lojas e para os alfaiates”.

Depois de trabalhar na loja do pai abriu o seu próprio negócio, com a ajuda imprescindível, que não pára de referir, do irmão Rui. Abriu, na rua principal da vila, a Xara Boutique que, como refere, “era um pronto-a-vestir que à altura tinha muito movimento”. Lembro-me de sempre do seu pronto-a-vestir que apresentava sempre as novidades e a excelência das boas marcas. Era um bom negócio? Pergunto-lhe.Era, era, era bom. O meu irmão é que ia comprar tudo, ele é que escolhia”.

Na loja há ainda calças de ganga marca Lee, poucos tamanhos, mas bons preços. Figura ainda o antigo manequim de veludo preto que mostrava as toilettes e o acompanha desde sempre e várias peças de roupa que já decaíram e estão novamente na moda, soubesse boa gente o que ali se pode descobrir.

Conta que hoje, já reformado, “isto tem decaído, tenho a porta aberta para estar ocupado” e conta que depois de o irmão falecer “já pouco se comprou”.

Emanuel passa o dia na loja, lê o seu jornal diário e cumprimenta sem distinção quem passa. Sempre. Ao fim do dia gosta de dar um passeio para distrair.

Emanuel talvez não sabia mas tem um nome que quer dizer “Deus está no coração dos homens puros”. Perfeito.

É com o seu jeito humilde e simpático que, dia após dia, Emanuel, o Cordial, nos ensina que nos pequenos gestos está a diferença. O bem que sabe um cumprimento. Que nunca lhe falta.

Obrigada, Emanuel, uma Boa Tarde para si!

Você na TV

Amanhã, sexta-feira, vejam o programa “Você na TV” do Manuel Luís Goucha e Cristina Ferreira, na TVI.

Vão dar uma reportagem sobre o Pequeno-almoço moderno, na cidade, e à antiga, no campo.

Foram entrevistadas 3  senhoras de Mação: A D. Nazaré, a D. Cremilda e a D. Belmira.

Acompanhei a reportagem e acho que vão adorar!!!
Amanhã, dia 10 de agosto, de manhã!

antónio

(Sotana)
75 anos

Acede à conversa, dispensa a fotografia. Daí recorrer, em cima, ao sobrenome pelo qual é amplamente (re)conhecido.

Quando nos encontramos e encaminhamos para um dos bancos do Jardim do Largo dos Combatentes falamos de trabalho. De trabalho e da reforma. Conta-me que trabalhou durante 36 anos e 3 dias. Acho interessante esta precisão.

Sentamo-nos. Nenhum sabe ainda por onde se desdobrará a conversa sendo certo, penso que para ambos, que falaremos do “seu” Chave Dourada.

Começamos pelas origens. Nasceu em Mação, o pai era Chefe da Secretaria da Câmara, a mãe era doméstica. Relembra-me que há 75 anos vivia aqui o triplo da população actual. O movimento na Vila era muito maior, sem as comodidades, equipamentos e oferta de hoje, mas muito mais activo. Aponta para a velhinha Escola Primária, já desactivada, hoje um pólo do Museu. Foi onde fez o 1.º ciclo. Seguiu para o Colégio, então na Quinta das Encruzilhadas. No seu processo de admissão passou o Colégio D. Pedro V para as instalações “novas” que serviram a terra muitos anos. Fez uns exames do colégio velho e outros já no novo. Quando frequentava o antigo 7.º ano (final do ensino secundário) foi chamado para a tropa, onde esteve 18 meses. Escapou à Guerra por ser da Artilharia, “alguns Colegas da Infantaria já não tiveram essa sorte, por sorte naqueles meses não precisaram da Artilharia”.

Concluiu os estudos já em Lisboa e ingressou nos Correios. “Fiz primeiro o estágio em Viseu, seguiram-se 9 terras por Portugal e estava nos Correios do Aeroporto, novamente em Lisboa, quando sai dos Correios e fui para a Caixa Geral de Depósitos”.

Deixou a Caixa para voltar à terra. Tinha 28 anos. O Chefe, na Caixa, disse-lhe “que fazia asneira”. Não é que se arrependa, aqui veio a casar e foi onde teve a sua filha mas reconhece que ”se lá tenho ficado, provavelmente outro galo cantaria”.

A Câmara

Já de volta foi trabalhar para a Câmara onde esteve de 1964 a 1995. “Comecei como Escriturário de 2.ª, que era a posição mais baixa. Naquela altura, para ir para a Câmara, tinha que se ter, pelo menos o 5.º ano (antigo). Já nas Finanças, bastava ter a 4.ª classe e ganhava-se o mesmo”.

Passou entretanto a Escriturário-Dactilógrafo. Isto numa altura em que “na Câmara havia uma máquina de escrever para todos, havia outra mas não era grande coisa e, mais tarde, veio uma nova”. Sobre o seu trabalho na Secretaria da Câmara relembra ainda um tempo em que “não havia fotocopiadora, o chato era quando era preciso uma cópia de uma declaração e tínhamos que a escrever à máquina exactamente igual ao original, com os mesmos erros e tido. Aquilo era danado, íamos embalados a escrever e quando olhávamos devíamos ter dado um erro e tínhamos escrito bem”. Rimo-nos os dois mas depois António remata “olhe que na altura não tinha piada nenhuma”. Explica ainda que para todo o serviço havia também só um pequeno furador, um agrafador, enfim, era tudo partilhado. Os tempos mudaram…

Quando se deu o 25 de Abril passou a 3.º Oficial. Deslumbram-me estes nomes, tão diferentes dos de hoje, tinham uma certa pompa, se calhar havia também mais circunstância. Passaram todos àquela categoria pois a Câmara não tinha quadros para mais. Diz que o pior naquela altura “era a falta de formações, tínhamos que nos desenrascar, não havia uma uniformidade com o resto do país”. Quando se reformou era Chefe de Secção. Reformou-se, como referiu, ao fim de 36 anos e 3 dias de trabalho.

A reforma trouxe-lhe mais tempo que partilha com a mulher, também já reformada. Era professora do 1.º Ciclo. Diz que ela se entretém com a renda, ele tem a famosa Chave Dourada, mas o trabalho que lhe requer não é diário. Do pai, além do Chave Dourada herdou o gosto pelas plantas. Dedica-lhes também algum tempo. Antes tinha as hortas mas o fogo levou tudo.  Conta que o pai “tinha um gosto às plantas sem explicação, mandava vir plantas de todo o lado, era no que gastava dinheiro, mas gastava algum, era uma paixão”. No meio explica-me que para os vasos não encharcarem se deve colocar uma camadinha de telha no fundo. Agradeço-lhe a explicação.

Além da jardinagem lê os jornais diários e vê os noticiários na televisão mas tem que ter cuidado pois diz que se enerva “ refilo com algumas notícias mas tenho que ter cuidado, senão sobe-me a tensão. (Risos) Refilo com as notícias porque não se compreendem certas coisas, como isto agora da Ministra da Agricultura, não pode ser. Há muita falta de tacto político”.

Chave Dourada

Esta parte da nossa conversa foi uma surpresa para mim. Porque o Chave Dourada é um vinho licoroso raro, muito nosso, muito daqui, envolto num género de quase segredo e este homem, cujo nome estará sempre associado ao Chave Dourada, desmistificou um pouco este processo.

O Chave Dourada é um vinho licoroso cuja produção tem como base um barril principal a que chamam “mãe”. O barril-mãe que tem, herdou-o do pai, que por sua vez o herdou da família da 1.ª mulher, que perdeu cedo. Esse barril data de 1800.

O barril-mãe, com cerca de 200 anos é um dos 3 em que assenta a sua produção. O mais novo é de 1965, um barril que tinha sido de vinho do Porto e que lhe trouxeram de Santarém, conta, “de um sujeito que, de tinas do vinho do Porto, fazia barris mais pequenos. O que interessa é começar com um barril já encorpado, de preferência que tenha tido vinho do Porto. Lava-se bem, fica sem vestígios, mas a madeira já está inchada, de outra forma iria absorver grande parte da produção”. Pela mesma razão, explica que “o local onde se faz a produção tem que ser fresco, quanto mais fresco o sítio, melhor. Senão o pipo bebe mais do que nós”.

A receita do famoso Chave Dourada é, na sua explicação, muito simples. Há quem diga que se deve começar com um pouco de vinho de um barril-mãe mas, na sua opinião, pode começar-se do nada. Basta juntar duas partes de vinho e uma de aguardente. Depois o açúcar. Mistura-se tudo muito bem num alguidar de barro. António usa as mãos e não a colher de pau para mexer pois tem melhor noção de quando o açúcar está desfeito. Para, por exemplo, 20 litros de líquido, serão uns 2 quilos de açúcar (do branco) mas, como diz em tom de brincadeira “a quantidade de açúcar depende do produtor, se é mais ou menos guloso…”.

Deixa-se então no barril durante um ano. Ao fim desse ano prova-se o vinho. António usa a típica mangueirinha. Aplicou-lhe um tubo mais rijo por dentro para a endireitar. Diz que há quem aplique a torneira no barril mas a torneira fica em baixo e, como refere, “nós ainda somos amadores, o nosso vinho tem tendência a ganhar pé. Com a torneira em baixo o que é que apanhamos? A borra. A borra interessa que fique lá, no fundo, mas para provar e encher as garrafas não queremos ir ao fundo, daí preferir a mangueira”.

Como explicava, ao fim de um ano prova-se e vê-se, então, se é preciso mais ou menos açúcar. Nesse ano algum vinho foi absorvido pela madeira e retirou-se um pouco para provar pelo que se deve fazer mais líquido para juntar (as tais duas partes de vinho e uma de aguardente), e mais ou menos açúcar conforme o vinho esteja. Este processo repete-se todos os anos, no verão. O pai ensinou-lhe que “se deve escolher um dia totalmente limpo, mas eu não ligo muito a isso”.

Pergunto-lhe quando fica o Chave Dourada pronto a consumir quando é feito assim, de novo. A resposta vem na forma de um conselho, de uma advertência: “há quem tenha começado a fazer o Chave Dourada mas querem logo começar a bebê-lo e a vendê-lo… tem que se esperar, antes de 15 anos não está bom – bom para começar a tirar…”. Pergunto-lhe quanto produz por anos. Diz que, dos 3 barris que tem, tira cerca de 8 garrafas por ano, 2 ou 3 de cada barril. Tira um pouco e volta a encher os barris com a receita.

Criou uns rótulos, os primeiros mandou-os fazer mas refere, orgulhoso que “os últimos foi a minha filha que os fez, têm a imagem de uma chave. Em cada garrafa de cada ano escrevo de qual barril saiu e a data”. Já fez este ano, estamos no Verão? “Ainda não, agora com a Margarida cá é que vamos fazer”. A filha, professora no Algarve está de férias e ajuda-o “ela já aprendeu e também gosta”. Pois bem, que é a sua herdeira!

Questiono-o ainda sobre a manutenção do barril com dois séculos. Diz que “desde que o tenho só tive que lhe substituir uma aduela”.

Preocupação com o futuro só tem com a matéria-prima. Deixou de produzir vinho, muitos têm deixado. Ou são os fogos que queimam as vinhas ou as pessoas que ficam velhas e deixam de ter força para as vindimas e para fazer o vinho “o vinho é cada vez menos”. Este ano já teve que comprar aguardente, “perde-se tudo, quem é que pega na agricultura?”. Diz ainda, meio a sério, meio a brincar, mas com preocupação que “qualquer dia já não se justifica o cacho de uvas no brasão …

Pergunto-lhe ainda se é só em barris de madeira que o Chave Dourada é produzido, ao que responde: “não sei jurar que sim, mas também nunca vi doutra maneira”.

Sobre a produção que tem explica que “como só tiro cerca de 8 garrafas por ano não tenho suficiente para vender. Assim,  olhe, não vendo nem ofereço. Depois zangavam-se por oferecer a uns e não a outros.”

Reforça que explica a quem quiser aprender, sublinha a importância de se produzir, a virtude de se saber esperar e remata que, no entanto, gosta de oferecer a provar a quem o procura. António, o guardião do Chave Dourada recusa-se, humildemente, a uma fotografia, mas oferece-me uma prova de Chave Dourada. Prometo-lhe uma visita um dia destes.