artur

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76 anos

 Uma boa conversa, ainda que curta, é o melhor programa depois de um dia de trabalho. O descobrir as pessoas, as suas vidas, as suas experiências que são sempre tão diferentes das nossas é um momento único.

Foi assim quando, à tardinha, falei com Artur. Toda a vida o conheci como Taxista. Foi o que fez ao longo de 32 anos. Cresci com a sua imagem na praça de táxis, a cumprimenta-lo quase diariamente, sempre com aquele jeito simpático.

Hoje, aos 76 anos, já reformado, vai todos os dias visitar os colegas à praça de táxis. Tem 1 filha e 3 netos, mas estão longe. Ficou viúvo há meio ano e quando fala da sua companheira de toda a vida comove-se. Acho, sinceramente, que se vai comover sempre, tal o amor que os unia. Foram 52 anos “muito felizes, ela era muito brincalhona, era trocista…” e sorri, provavelmente com o mesmo sorriso cúmplice que tinha com ela. Custa-lhe a viuvez.

Impressionante descobrir naquele que sempre conheci daqui, como Taxista, toda uma outra vida, lá mais para trás, bem longe.

Com 17 anos foi para Angola, para trabalhar. “Ainda me convidaram para ir para Moçambique mas já tinha família em Angola”. Luanda conheceu-a uns dias, o resto foi “pelos matos, pelas províncias”, por cidades, umas mais desenvolvidas do que outras. “Naquela altura alguns concelhos menos desenvolvidos não tinham nada. Nalgumas cidades já havia comodidades, mas noutras…”. Trabalhou como comercial, fez uma formação, e foi no que trabalhou sempre. Foi assim que conheceu aquele país que adora e para onde ainda sonhou voltar.

Conta que, numa altura “estava a viver em Buenga Sul, lá ainda não havia nada… morava numa casa capim”. Pausa e explica que “o telhado era de capim e depois era forrado com umas esteiras. O banho… era um balde pendurado com uma torneira aplicada. Enchia-se o balde, abria-se a torneira e pronto…”. E sorri, voltando aos velhos tempos. Depois remata “às vezes viam-se as cobras com o rabo pendurado do capim”. O meu espanto ganha forma e a natural pergunta: mas não tinham medo?Não, daquelas não, que eram rateiras, queriam era os ratos…”.

Conta depois que “a única vez que fui atacado foi pelas Kissonde, aquelas formigas vermelhas, grandes, aquilo onde passavam arrasavam tudo. Uma noite senti uma comichão nas costas, quando vimos estava a casa toda invadida”. Escaparam ilesos, mas teve menos sorte no pombal. “Os pombos e as galinhas, foi tudo devorado pelas formigas, desapareceram-me com tudo”. Viveu 5 anos naquela cidade, naquelas condições mas, ainda assim, desabafa um sonho de hoje. “Agora gostava de ir para lá, mesmo nessas condições… havia lá uma liberdade…”.

No périplo que a sua memória faz pelas cidades de Angola onde viveu paramos no norte, onde vivia com a mulher e a filha quando, dois anos após o 25 de Abril, a Guerra Civil o trouxe às raízes, já com a sua família. Vieram, mas a ideia era voltar. Depois foi-se perdendo a ideia, foi-se a esperança de voltar a uma Angola que tinham conhecido e que já não era a mesma. Resolveram instalar-se. Artur trabalhou num comércio, depois nas obras de construção dos colégios, como ajudante. Surgiu então a oportunidade nos táxis. Que agarrou e manteve. Para isso teve que ir, mais tarde, com a mudança das regras, tirar o CAP, profissionalizar-se.

Pergunto-lhe, por brincadeira, quantas pessoas já transportou. Ri-se com a impossibilidade de contabilizar. Falamos das amizades que a profissão traz, das confidências, vê-se que gostava mesmo de ser Taxista e explica que “era uma convivência”. Mais de 3 décadas de trabalho trouxeram-lhe também os hábitos que ainda hoje mantém. “Venho cá acima fazer umas compras e beber o café, há cafés mais perto de casa mas parece que não dá jeito”.

Sobre o seu dia-a-dia, com a reforma e a viuvez, teve que se habituar à lida da casa. É por isso que diz passar “muito tempo a preparar o almoço e o jantar, tive que me habituar…”. Pergunto-lhe ainda o que lhe faz falta para ocupar o tempo, ao que reponde “era trabalhar”, pois quem se habituou ao volante por mais de trinta anos sente-lhe a falta. Falamos ainda da terra, de como evoluiu, diz que “veio muita coisa boa, pena é as casas mais velhas”, e explica que “esta terra tem é um mal, pedem muito dinheiro pelas casas…”.

É já no final da conversa que falamos na filha e nos 3 netos. Já não os visita tanto “por causa das portagens e do valor da gasolina, é muito, ainda esta noite subiu mais 3 cêntimos”.

Uma conversa com quem teve que abandonar África tem sempre dois momentos, entre a vida de lá e a vida de cá. São dois momentos distintos, ainda que a conversa flua, sem interrupções. Há qualquer coisa da alma que ficou em África, que é maior que saudade ou tristeza. Há qualquer coisa mágica que fica no ar e a vida cá, por muito boa que tenha sido, falta-lhe sempre qualquer coisa. Não sei explicar o que é. Mas é maior que os homens. Será liberdade?!…

Despedimo-nos, acha engraçada esta minha ideia. Pede para lhe tirar uns 10 anos na fotografia. Rimo-nos e despedimo-nos.

Volto costas e cruzo-me com uma senhora a passear um cãozinho. Ainda ouço Artur a perguntar à senhora “veio passear a fera?”. Sorrio e penso que foi sempre naquele bem-estar e boa disposição que o conheci. Artur, o amável, que tem sempre uma saudação para dar, um cumprimento para fazer e dá-nos, anonimamente, um exemplo de vida, um estar discreto e atencioso, mas sempre lá.

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