júlia

Image80 anos

Júlia. “Sim, Júlia Guerra, mas de muita paz…”. É assim que me responde e ri-se e apresenta-se só pelo modo de rir, é uma questão de atitude, consigo e com a vida. De bem com a vida.

Aos 80 anos mantém um sentido de humor único, talvez até um pouco raro, e uma maneira muito coerente de ver as coisas. Encontramo-nos a meio da tarde na esplanada onde vai, todos os dias “comer um sorvete, depois de ir beber o café”. Um café por dia, depois do almoço, que representa acima de tudo sair de casa, ver pessoas, socializar, “mas são cada vez menos pessoas na rua, uns emigram, outros saem daqui, antigamente via-se mais gente”.

A nossa conversa, no tempo que me dedica na sua rotina diária, podia ir em muitas direcções. No final, é uma conversa sobre amor, bem-estar e liberdade, com a sapiência que aos 80 anos já se conquistou há muito.

Júlia nasceu em Luanda. Vinha a Portugal passar temporadas de vários meses todos os anos, a família do pai era de Trás-os-Montes. Numa das viagens de regresso a Luanda conheceu o amor da sua vida. Na própria viagem? “Sim, na viagem”. E ri-se. O destino e o lugar onde foram sentados juntou-os e conversaram pela circunstância da viagem. Foi amor à primeira vista “mas lá depois foi mais difícil”. Espero um cenário de amores contrariados mas não, “foi difícil voltarmos a encontrar-nos. Ele sabia que eu trabalhava no laboratório de medicamentos e ia tentar encontrar-me na paragem do autocarro. Eu cheguei a vê-lo mas ele não me encontrava. Um dia, lá deu a volta ao contrário e encontrou-me a entrar em casa”. Encontrada a rapariga do avião começaram as conversas, os encontros e “no prolongamento, o namoro”. Ri-se novamente.

Namoraram dois anos e casaram. Tiveram dois filhos. Vieram para Portugal quando se deu a independência. Adaptou-se bem? “Sim, que eu tenho facilidade em adaptar-me bem a qualquer lado”. Estiveram casados 32 anos, está viúva há 26 quando, em 8 dias, a repetição de uma síncope cardíaca lho levou. “Ele era excelente. Desejo às minhas amigas um marido como o meu, grande companheiro e bom amigo”. Ao perceber o amor que os unia pergunto-lhe como foi ficar sem ele. É aí que Júlia fica séria, abre os olhos e responde, do fundo do coração “Parecia que enlouquecia… não estava neste mundo, parecia que levitava. Quando fui ao médico ele perguntou-me: você anda?, tal era o meu estado…”.

Conta que “ele dizia assim: não há homens pobres com uma mulher como a minha e eu digo que não há mulheres pobres com um homem como o meu…”. E sorri.

Voltamos a Luanda. Diz que já não lhe apetece lá voltar. Os 2 irmãos já morreram e a mãe veio para junto dela e morreu cá. E conta que “às vezes perguntam-me se não quero ir lá reclamar o que é meu e eu respondo que não, que lá comam e bebam tudo e sejam felizes…”.

Falamos do seu dia-a-dia. Diz que “cada dia é mais um…”. E ri-se. Gostava que houvesse uma vida cultural mais rica, “eu era menina de cinema, matinés e bailaricos, que ainda hoje gosto de dançar…”. Não vê muita televisão porque, explica “não sou fascinada nas novelas, vejo as notícias  e fecho a televisão às 11 e meia, meia-noite. Só há noite é que tenho pachorra para estar quieta, em casa estou sempre a fazer alguma coisa”. Pintava mas já não pinta, aborrece-a ter os quadros amontoados pela casa. “Sempre tive muito jeito para os trabalhos manuais e gostava de ter sido professora nessa área, mas já não tenho paciência. Agora passo um bocadinho a ferro, que a máquina lava a roupa, só não a estende, isso tenho que ser eu…” Rimo-nos novamente e remata “já ouço mal e vejo mal, todos os sintomas da velhice, mas como bem e durmo bem, o sono é comigo”.

Digo-lhe que é muito bem-disposta e responde-me “ser bem-disposta é o que me traz de pé. Sim, é uma qualidade minha, também não invejo ninguém nem sofro de prisão de ventre de maneira que estou sempre bem-disposta”.

Conta que costumava ir ao lar fazer visitas e custava-lhe perceber alguns olhares alheados deste mundo, “há pessoas que já não sabem que ainda estão vivas… é aquele olhar…”. Diz que se tiver que ir para o Lar vai, acomoda-se e explica que “para muitos ir para um lar é uma ventura, é um bem, mas é um crime quando as famílias os deixam e não os reclamam… há quem não saiba avaliar a solidão… Há ainda casos em que se morre na solidão porque não há dinheiro para ir para um Lar”. A sua explicação é que “no nosso ambiente o amor acabou… não há humildade. Ai do velho que não fale em morrer, estafermo do velho, quer ficar vivo?!”. Conclui que com esta crise de valores “há pessoas a quem custa muito viver. Eu gosto de viver porque gosto de ser independente”.

Tem 4 netos e uma bisneta, que a deixa embevecida, conta que “ela tem 2 anos e meio mas já faz conversa… as crianças de hoje… é uma coisa diferente…”. Também tem cá um neto de férias e percebo que está na hora de continuar a sua rotina.

Agradeço-lhe o tempo. Ela pergunta-me: “está satisfeita?”. Respondo que sim, muito. “Não pensei que interessasse assim para uma entrevista”.

Claro que sim. É mais uma personagem desta terra, de há tantos anos, de sempre. Hoje o privilégio foi conhecê-la melhor. É esse o grande objectivo deste espaço, conhecer o ser das pessoas.

A grande descoberta hoje foi a atitude de Júlia, a Independente, Júlia, tão de bem com a vida.

Foi um privilégio e uma honra! Como julgo que será para quem ler esta conversa. Despedimo-nos, peço-lhe uma fotografia, lá deixa. Ri-se quando se vê na máquina. Depois pega no saco das compras e parte jardim afora.

Paro a olhá-la e penso na nossa conversa, quando falámos da dor da viuvez e me disse que, 26 anos depois “às vezes vou na rua e julgo que ainda sinto a mão dele no meu ombro…”.

Olho-a o parece-me, sinceramente,  que não vai sozinha!

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