céu & lucília

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74 e 76 anos

Uma novidade, uma dupla entrevista. A justificação é simples, Céu e Lucília são irmãs. Mas irmãs inseparáveis. Vivem juntas, passeiam juntas, conversam sobre tudo, riem-se as duas. Cúmplices, amigas de sempre. A história das suas vidas é como se fosse de uma vida só, contada mais por Lucília que, mesmo  sendo mais velha, é a que tem melhor memória. À medida que conversamos Céu adverte-me “olhe que o que ela diz é tudo verdade, que ela guarda tudo na cabeça, eu já não”. E Lucília confirma “o nosso paizinho não nos ensinou a mentira”.

Hora e meia de conversa, ao fim da tarde, num banco de jardim. A companhia não podia ser mais bem-disposta, tanta coisa para contar e, se nos perdíamos, voltávamos ao ponto anterior e a conversa seguia o caminho devido. Foi Céu que avisou novamente “ela fala tanto que se não a calar só saímos daqui amanhã de manhã”. E riem-se as duas.

Nasceram aqui as duas, há mais de 70 anos. Era tudo muito pobre, depois havia as casas ricas, elas não tiveram essa sorte. Eram cinco irmãos. Primeiro vieram dois rapazes, a mãe queria uma menina e quando Lucília nasceu “foi um ai-Jesus que ali apareceu. A minha mãe tinha pouco mas fazia-me aqueles vestidinhos e o meu pai fazia-nos umas chinelinhas… as pessoas até comentavam que parecíamos meninas ricas, muito ajeitadinhas”.

A Escola

Andaram as duas na Escola “mas naquele tempo os rapazes tinham que lá andar até ir para a tropa, as raparigas diziam às mães que queriam sair e saiam, porque as mães precisavam da ajuda delas em casa”. Céu estudou mais do que Lucília que não chegou a completar a 4.ª classe. Uma prima pediu à mãe para Lucília ir lá a casa ajudá-la porque ela tinha um bebé. Lucília às vezes dormia lá, fazia recados e ajudava em casa. E conta que “como não havia telefone para chamar as pessoas ela mandava-me ir falar à lavadeira para ir lá buscar a roupa, mandava-me ir dar cumprimentos a esta ou àquela casa – faziam isso entre as casas mais ricas – mandavam-se aqueles cumprimentos. Andava muito na rua, mas era muito responsável e não me esquecia de nada”. Mas ainda andava na escola?Andava, é aí que quero chegar. Quando chegava a casa à noite a minha mãe mandava-me ir dormir mas eu dizia-lhe ó mãe e as contas para a senhora (professora)? E ia fazer as contas, por isso é que não gostava de andar na escola e a deixei. De manhã ia para a Escola com as contas feitas na lousa, embrulhada em papel pardo. Eu quando via a escola até me parava o coração”.

Céu andou mais tempo na escola. Lucília interrompe: “mas olhe que também não teve sorte”. E Céu conta que uma vez “fui empurrada da escada da escola e abriu-se-me uma brecha na testa. Foi uma senhora que me apanhou do chão e me foi entregar à minha mãe”. Lucília conclui “a nossa mãe chorava dia e noite, ela na cama sem saber se estava viva ou morta. Já viu, ter uma filhinha ali assim… Mas a minha mãe pagava a avença ao médico e ele foi lá vê-la. Aquilo depois passou, nem ficou a marca”. É então que Lucília conta, quase em sussurro, que, há poucos anos “uma mulher cá da vila veio ter com a gente e contou que foi ela que empurrou a Céu e nós dissemos-lhe: pois, agora que já não temos mãe nem pai é que nos contas, se eles estivessem vivos diziam-te das boas… mas ela com medo nunca tinha contado e disse que não teve culpa pois alguém a empurrou”.

Ainda sobre a escola, Lucília conta que quando tinha 17 anos, ela mais uma amiga quiseram fazer o exame da 4.ª classe. Os pais falaram a um professor mais antigo da escola que as preparou para ir fazer o exame a Abrantes. Lucília diz que gostava, e aprendia muito bem as contas, mas as redacções… “eu não percebia de fazer redacções e então decorei as que o professor ditava para depois as escrever. Era redacções e era a História, aquilo não me entrava, era coisas que a gente não tinha vivido, mas as contas… isso sim”.

Nova curiosidade, quando foi a Abrantes fazer o exame da 4.ª classe, a dada altura avistaram um rio e Lucília exclamou: “ai que ribeiro tão grande e outra é que me disse que não era ribeiro, era o Tejo… eu nunca tinha visto um rio, não tinha saído daqui”. Riem-se. Riem-se e lembram-se, ao mesmo tempo, de semelhante história, mas com o mar.

O Mar

A irmã Céu conheceu primeiro o mar porque o pai pediu na Câmara para a levarem junto com outro irmão às colónias de férias na Nazaré, onde a Câmara levava algumas crianças, e eles foram. E vem nova história, da ida à colónia, é Céu que conta que “o meu irmão fez xixi na cama e puseram-no de castigo, deixaram-no na cama com aquele lençol por cima, de castigo”. Lucília acrescenta “e ela veio de lá cheia de sarampo”.

Mais tarde foram numa excursão à praia, a primeira vez de Lucília. Quando iam a chegar à Nazaré, avistou-se o mar e Céu disse: “olha Lucília, é o mar”. Lucília ri-se e diz que olhou e disse à irmã “mas eu só vejo um olival – que eu sempre fui curta de vista – e aquilo parecia-me aquele cinzento que formam os olivais ao longe, só mais perto é que percebi o azul do mar”. Escusado será dizer que se largaram a rir novamente. Sempre bem-dispostas.

Sempre fizeram excursões, umas a pagar, outras da Junta de Freguesia. Para as pessoas mais antigas do interior as excursões são uma forma privilegiada de conhecer o país.

Excursões

Só as histórias das excursões faziam um livro de memórias. Contam-nas e riem-se e olham uma para a outra e dizem “e aquela da junta, é que foi uma barracada!…” e uma já sabe do que a outra está a falar. Enquanto as contam rimo-nos as três e eu só penso que uma pessoa que sabe rir-se de si própria está muito bem com a vida. E elas estão.

Há três histórias que se destacam tendo, a última, ditado o fim das suas idas às excursões. É Lucília quem conta que “uma vez fomos numa excursão, daquelas a pagar, à Nazaré, mas as pessoas querem é ir comer e beber e havia uma sardinhada e nós falámos com a senhora se podíamos levar a nossa comida e em vez da sardinhada ficávamos na praia. E assim foi. Deixaram-nos lá e combinámos a hora do encontro. Passeámos todo o dia, vimos aquelas ruas todas e sentámo-nos na praia. Quando vimos, já passava da hora marcada e não estava ninguém no ponto de encontro. Chegámos a perguntar onde se apanhava um autocarro para vir para Abrantes ou assim mas depois lá apareceram, também se tinham atrasado”.

Numa outra excursão, da Junta, falaram com o Presidente para não irem comer ao restaurante pois Lucília dá-se mal, tem que comer coisas mais simples. Levaram a comida de casa e ele levou-as a um parque com outra senhora que era diabética e também levava a comida de casa. Sentaram- se e conta Lucília que “vieram umas pessoas e começaram a atar uns cordéis à nossa volta, depois uns balões e umas bandeirinhas. Até que veio uma menina e disse que fazia anos e o paizinho lhe ia fazer ali a festa. Levantámo-nos para sair dali mas veio uma senhora e disse para nos deixarmos estar, que ficássemos de olho nas coisas até que ia buscar o resto. Nós ficámos a tomar conta daquilo e lá vieram as senhoras com a comida, mesas cheias de coisas boas. Quando o presidente da Junta nos veio chamar até lhe dissemos que gostámos de ver aquilo, grandes mesas, tudo muito composto”. E riem-se muito. Mas vem depois a parte que leva à terceira história. Uma senhora que ia na excursão foi-lhes dizer que eram agarradas ao dinheiro, se não podiam ir ao restaurante. Custou-lhes ouvir aquilo. E Lucília conta que “na última excursão lá fomos ao restaurante mas dissemos que não podíamos comer coisas muito fortes. Ora, o almoço foi sendo servido, era feijoada. O empregado veio perguntar-me se não comia e eu disse que tinha pedido uma coisa mais simples, ele levou-me à cozinha, que não sabia, abriu-me o frigorífico e não tinha nada preparado. Olhe, arranjou-me um filete e três quadradinhos de batata. Eu, para comer assim… não, nunca mais fomos a nenhuma”. Acrescenta que no Lar, onde passam o dia há 12 anos, as sentam junto com as pessoas que comem coisas mais simples, sabem que não podem comer qualquer coisa.

Foi assim que as duas irmãs deixaram de ir a excursões, para não serem mal julgadas e para não passarem fome. Céu adorava ir à Nazaré, Lucília preferia as excursões a Fátima, “cheguei a ir ao Museu da Cera, coisa bem feita…”.

Trabalho

O pai fazia sapatos e trabalhava em algumas casas, ao dia. O barbeiro trabalhava até tarde e chamou-o para lá para engraxar sapatos aos clientes, enquanto esperavam. Contam a sua habilidade para os sapatos, arranjava uma mala e dali fazia sapatinhos para elas. O avô tinha uma besta (burro) e uma carroça com uma capota e fazia o transporte das pessoas, das sardinhas e do correio de Belver (onde chegava o comboio) para Mação. “Chegava às 5 da manhã, deixava as malas do correio à porta da casa dos correios e levava as sardinhas às Sardinheiras, havia cá muitas”. A mãe começou depois a distribuir o correio, “tudo a pé, só uma terra era duas horas para lá chegar e mais duas para voltar, por atalhos…”.

Quando saiu da escola, Lucília ficou a ajudar a mãe. “De manhã não saia de casa, a fazer o almoço, era ao lume e não se podia deixar apagar se não os feijões não se coziam. De tarde ia para uma vizinha que costurava e aprendi, só a olhar para ela”. Contam que quando a mãe estava doente ou tinha algum problema iam elas distribuir o correio. Lucília diz “isto parece mentira mas eu quando ia deixava ramos de pinheiro para encontrar o caminho de volta, para lá era fácil, íamos de caras ao sítio, mas a volta… e guiávamo-nos pelas sombras das oliveiras para saber que horas eram… e os sustos… uma vez vi um vulto, parecia-me um homem. Mal para continuar, mal para voltar, mas aquilo era o medo na minha cabeça, depois vi que era uma sombra”.

Uma tia que tinham “lá fora”, trazia-lhes roupas e elas pegavam nelas e faziam peças novas. Lucília adora costurar. “Pegava naqueles pijamas com brilhantes e fazia camisolas daquilo. A minha tia trazia aqueles casacos estrangeiros e eu de um forro fiz um sutiã. Depois vieram pedir-me, as senhoras daquelas casas (mais ricas) para fazer sutiãs para as filhas e eu fazia-os, de camisas velhas”.

Céu remata que “a melhor herança que a nossa mãe nos deixou foi a máquina de costura”. Que ainda usam. As sobrinhas trazem-lhes sacos de roupa que elas, depois, adaptam para si. As camisas que vestem na entrevista eram de homem e Lucília fez uns moldes com folhas de jornal e refez as camisas para elas, ao pormenor de ter passado as casas dos botões para o lado direito, que é assim uma camisa de senhora. As suas roupas são, em grande parte, feitas, adaptadas, refeitas, desenhadas e costuradas por Lucília e isso, além de a entreter, dá-lhe um prazer imenso. Um encanto.

O primeiro trabalho pago que ambas tiveram foi para a fábrica. Falaram com uma senhora que ia à fábrica buscar as fazendas para rematar, passar os nós todos para o avesso da peça, tirar as imperfeições deixadas pelos teares… “Éramos umas poucas, trazíamos as peças ao ombro porque tínhamos vergonha de andar na vila com aquilo à cabeça”. Ao sábado Lucília ia receber o dinheiro, “ganhávamos consoante as fazendas, umas valiam 10 escudos, outras 20. Trazia o dinheiro e ia dar a cada uma o que lhe pertencia. Eramos amiguinhas, se uma tinha mais trabalho, dividia pelas que não tinham”. Este trabalho foi o primeiro passo para irem para a fábrica onde, como desabafam “foi onde vimos algum dinheiro na vida”. Céu trabalhou sempre junto aos teares, “arranjava as fazendas quando saiam dos teares, vinham com óleo e assim”. Já Lucília trabalhava “na ultimação, a fazer os acabamentos e a passar as fazendas”.

Da vida antigamente

Interrompem-se, entretanto, e dizem que me estão a maçar, que falam muito. Explico-lhe que não, que é muito bom perceber como se vivia, como foram criadas, como cresceram, perceber toda a evolução até hoje, mas saber também como se vivia antigamente.

Pegam no mote e contam que não tinham leitos. “Juntavam-se dois bancos compridos com umas tábuas ao atravessar e uma enxerga (colchão) em cima. Julga que havia colchões como agora?

Contam como a mãe, dedicada que lhes era, “todos os anos lavava a enxerga e trazia, de longe, que aqui não havia, um feixe de palha centeia à cabeça para encher a enxerga. E olhe que aquilo tinha ciência, a maneira como punha as palhinhas.” Contam depois que, “no Inverno, éramos pequenitos, tínhamos frio e a nossa mãe dizia-nos para ir tirar um bocadinho de palha à enxerga, da zona dos pés, que fazia menos falta, para acendermos o lume.”

Contam ainda como se marujavam as enxergas, tanto as de palha como as de samarras. “Vinham os albardeiros, com aquelas grandes agulhas e com um bocadinho de algodão faziam aqueles pontos aqui e ali, que era para a palha ou as samarras (folhas do milho) ficarem apertadinhas e não abrirem covas nas enxergas”. E advertem “mas isso era nas casas ricas, chamavam lá os albardeiros, nós era a nossa mãezinha que compunha as enxergas”.

Pergunto-lhes, entretanto, porque nunca casaram. Eram 5 irmãos, só um é que casou. Têm os sobrinhos em Lisboa. Um dos irmãos morreu no Ultramar e o outro morreu já doente no Hospital, esse teve uma vida complicada. “A gente, olhe, com aqueles problemas todos não casámos, foi uma vida difícil. Ter filhos? Para depois, quando não se pode dar isto ou aquilo aos filhos, eles a sofrer? Os nossos paizinhos eram muito nossos amigos, mas olhe que era difícil, passámos muito”.

Já passou hora e meia daquele nosso alegre convívio. Peço-lhes uma fotografia. Riem-se, pois se tem que ser, pode ser. Passam a mão no cabelo. Lucília conta que só ficou mal numa fotografia. “Sabe, quando abriu aquilo dos computadores (espaço Internet) a gente espreitámos e eu sempre gostei muito de aprender a escrever à máquina e perguntámos ao rapazinho se podíamos escrever umas receitas. Ele ensinou-me, que eu encarreirei aquilo depressa, e ainda lá passei muitas receitas. Um dia ele disse que tinha que nos fazer um cartão, para a gente ir lá. Ai, nessa fotografia é que não gosto de me ver, mas tenho o cartão lá em casa”.

Respondo que é bom aprender coisas novas e dizem-me que sim e continuam “Depois outra vez, sabe onde é que gostámos muito de ir? Foi à Escola, muito bem recebidas, vimos um filme numa tela grande, aquilo muito bem feito, mostrava a Espanha e aqueles trajes, a gente nunca foi a Espanha, nem a França, nem à Bélgica, mas aquilo parecia que estávamos lá, tão bonito”. Pergunto se foi nas Comemorações do Dia da Europa e respondem que sim, que foi isso. Gostaram tanto!

Cada história que me contam deixa-me mais surpreendida. São extraordinárias na forma como contam, sempre cheias de bom humor, e na forma como vivem as coisas. Quando Lucília começa a contar um episódio, Céu começa-se logo a rir, que já sabe o que vai sair. Outras vezes, uma dá o mote e a outra conclui. Sempre em sintonia. Céu e Lucília, as fantásticas manas-amigas são, na sua forma de estar, a alegria em forma de gente. Gostam de conversar, gostam que falem com elas, que as cumprimentem. Têm sempre um sorriso. São irmãs-amigas. Juntas, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. Até que a morte as separe.

Obrigada, minhas queridas!

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76 anos

 Uma boa conversa, ainda que curta, é o melhor programa depois de um dia de trabalho. O descobrir as pessoas, as suas vidas, as suas experiências que são sempre tão diferentes das nossas é um momento único.

Foi assim quando, à tardinha, falei com Artur. Toda a vida o conheci como Taxista. Foi o que fez ao longo de 32 anos. Cresci com a sua imagem na praça de táxis, a cumprimenta-lo quase diariamente, sempre com aquele jeito simpático.

Hoje, aos 76 anos, já reformado, vai todos os dias visitar os colegas à praça de táxis. Tem 1 filha e 3 netos, mas estão longe. Ficou viúvo há meio ano e quando fala da sua companheira de toda a vida comove-se. Acho, sinceramente, que se vai comover sempre, tal o amor que os unia. Foram 52 anos “muito felizes, ela era muito brincalhona, era trocista…” e sorri, provavelmente com o mesmo sorriso cúmplice que tinha com ela. Custa-lhe a viuvez.

Impressionante descobrir naquele que sempre conheci daqui, como Taxista, toda uma outra vida, lá mais para trás, bem longe.

Com 17 anos foi para Angola, para trabalhar. “Ainda me convidaram para ir para Moçambique mas já tinha família em Angola”. Luanda conheceu-a uns dias, o resto foi “pelos matos, pelas províncias”, por cidades, umas mais desenvolvidas do que outras. “Naquela altura alguns concelhos menos desenvolvidos não tinham nada. Nalgumas cidades já havia comodidades, mas noutras…”. Trabalhou como comercial, fez uma formação, e foi no que trabalhou sempre. Foi assim que conheceu aquele país que adora e para onde ainda sonhou voltar.

Conta que, numa altura “estava a viver em Buenga Sul, lá ainda não havia nada… morava numa casa capim”. Pausa e explica que “o telhado era de capim e depois era forrado com umas esteiras. O banho… era um balde pendurado com uma torneira aplicada. Enchia-se o balde, abria-se a torneira e pronto…”. E sorri, voltando aos velhos tempos. Depois remata “às vezes viam-se as cobras com o rabo pendurado do capim”. O meu espanto ganha forma e a natural pergunta: mas não tinham medo?Não, daquelas não, que eram rateiras, queriam era os ratos…”.

Conta depois que “a única vez que fui atacado foi pelas Kissonde, aquelas formigas vermelhas, grandes, aquilo onde passavam arrasavam tudo. Uma noite senti uma comichão nas costas, quando vimos estava a casa toda invadida”. Escaparam ilesos, mas teve menos sorte no pombal. “Os pombos e as galinhas, foi tudo devorado pelas formigas, desapareceram-me com tudo”. Viveu 5 anos naquela cidade, naquelas condições mas, ainda assim, desabafa um sonho de hoje. “Agora gostava de ir para lá, mesmo nessas condições… havia lá uma liberdade…”.

No périplo que a sua memória faz pelas cidades de Angola onde viveu paramos no norte, onde vivia com a mulher e a filha quando, dois anos após o 25 de Abril, a Guerra Civil o trouxe às raízes, já com a sua família. Vieram, mas a ideia era voltar. Depois foi-se perdendo a ideia, foi-se a esperança de voltar a uma Angola que tinham conhecido e que já não era a mesma. Resolveram instalar-se. Artur trabalhou num comércio, depois nas obras de construção dos colégios, como ajudante. Surgiu então a oportunidade nos táxis. Que agarrou e manteve. Para isso teve que ir, mais tarde, com a mudança das regras, tirar o CAP, profissionalizar-se.

Pergunto-lhe, por brincadeira, quantas pessoas já transportou. Ri-se com a impossibilidade de contabilizar. Falamos das amizades que a profissão traz, das confidências, vê-se que gostava mesmo de ser Taxista e explica que “era uma convivência”. Mais de 3 décadas de trabalho trouxeram-lhe também os hábitos que ainda hoje mantém. “Venho cá acima fazer umas compras e beber o café, há cafés mais perto de casa mas parece que não dá jeito”.

Sobre o seu dia-a-dia, com a reforma e a viuvez, teve que se habituar à lida da casa. É por isso que diz passar “muito tempo a preparar o almoço e o jantar, tive que me habituar…”. Pergunto-lhe ainda o que lhe faz falta para ocupar o tempo, ao que reponde “era trabalhar”, pois quem se habituou ao volante por mais de trinta anos sente-lhe a falta. Falamos ainda da terra, de como evoluiu, diz que “veio muita coisa boa, pena é as casas mais velhas”, e explica que “esta terra tem é um mal, pedem muito dinheiro pelas casas…”.

É já no final da conversa que falamos na filha e nos 3 netos. Já não os visita tanto “por causa das portagens e do valor da gasolina, é muito, ainda esta noite subiu mais 3 cêntimos”.

Uma conversa com quem teve que abandonar África tem sempre dois momentos, entre a vida de lá e a vida de cá. São dois momentos distintos, ainda que a conversa flua, sem interrupções. Há qualquer coisa da alma que ficou em África, que é maior que saudade ou tristeza. Há qualquer coisa mágica que fica no ar e a vida cá, por muito boa que tenha sido, falta-lhe sempre qualquer coisa. Não sei explicar o que é. Mas é maior que os homens. Será liberdade?!…

Despedimo-nos, acha engraçada esta minha ideia. Pede para lhe tirar uns 10 anos na fotografia. Rimo-nos e despedimo-nos.

Volto costas e cruzo-me com uma senhora a passear um cãozinho. Ainda ouço Artur a perguntar à senhora “veio passear a fera?”. Sorrio e penso que foi sempre naquele bem-estar e boa disposição que o conheci. Artur, o amável, que tem sempre uma saudação para dar, um cumprimento para fazer e dá-nos, anonimamente, um exemplo de vida, um estar discreto e atencioso, mas sempre lá.

júlia

Image80 anos

Júlia. “Sim, Júlia Guerra, mas de muita paz…”. É assim que me responde e ri-se e apresenta-se só pelo modo de rir, é uma questão de atitude, consigo e com a vida. De bem com a vida.

Aos 80 anos mantém um sentido de humor único, talvez até um pouco raro, e uma maneira muito coerente de ver as coisas. Encontramo-nos a meio da tarde na esplanada onde vai, todos os dias “comer um sorvete, depois de ir beber o café”. Um café por dia, depois do almoço, que representa acima de tudo sair de casa, ver pessoas, socializar, “mas são cada vez menos pessoas na rua, uns emigram, outros saem daqui, antigamente via-se mais gente”.

A nossa conversa, no tempo que me dedica na sua rotina diária, podia ir em muitas direcções. No final, é uma conversa sobre amor, bem-estar e liberdade, com a sapiência que aos 80 anos já se conquistou há muito.

Júlia nasceu em Luanda. Vinha a Portugal passar temporadas de vários meses todos os anos, a família do pai era de Trás-os-Montes. Numa das viagens de regresso a Luanda conheceu o amor da sua vida. Na própria viagem? “Sim, na viagem”. E ri-se. O destino e o lugar onde foram sentados juntou-os e conversaram pela circunstância da viagem. Foi amor à primeira vista “mas lá depois foi mais difícil”. Espero um cenário de amores contrariados mas não, “foi difícil voltarmos a encontrar-nos. Ele sabia que eu trabalhava no laboratório de medicamentos e ia tentar encontrar-me na paragem do autocarro. Eu cheguei a vê-lo mas ele não me encontrava. Um dia, lá deu a volta ao contrário e encontrou-me a entrar em casa”. Encontrada a rapariga do avião começaram as conversas, os encontros e “no prolongamento, o namoro”. Ri-se novamente.

Namoraram dois anos e casaram. Tiveram dois filhos. Vieram para Portugal quando se deu a independência. Adaptou-se bem? “Sim, que eu tenho facilidade em adaptar-me bem a qualquer lado”. Estiveram casados 32 anos, está viúva há 26 quando, em 8 dias, a repetição de uma síncope cardíaca lho levou. “Ele era excelente. Desejo às minhas amigas um marido como o meu, grande companheiro e bom amigo”. Ao perceber o amor que os unia pergunto-lhe como foi ficar sem ele. É aí que Júlia fica séria, abre os olhos e responde, do fundo do coração “Parecia que enlouquecia… não estava neste mundo, parecia que levitava. Quando fui ao médico ele perguntou-me: você anda?, tal era o meu estado…”.

Conta que “ele dizia assim: não há homens pobres com uma mulher como a minha e eu digo que não há mulheres pobres com um homem como o meu…”. E sorri.

Voltamos a Luanda. Diz que já não lhe apetece lá voltar. Os 2 irmãos já morreram e a mãe veio para junto dela e morreu cá. E conta que “às vezes perguntam-me se não quero ir lá reclamar o que é meu e eu respondo que não, que lá comam e bebam tudo e sejam felizes…”.

Falamos do seu dia-a-dia. Diz que “cada dia é mais um…”. E ri-se. Gostava que houvesse uma vida cultural mais rica, “eu era menina de cinema, matinés e bailaricos, que ainda hoje gosto de dançar…”. Não vê muita televisão porque, explica “não sou fascinada nas novelas, vejo as notícias  e fecho a televisão às 11 e meia, meia-noite. Só há noite é que tenho pachorra para estar quieta, em casa estou sempre a fazer alguma coisa”. Pintava mas já não pinta, aborrece-a ter os quadros amontoados pela casa. “Sempre tive muito jeito para os trabalhos manuais e gostava de ter sido professora nessa área, mas já não tenho paciência. Agora passo um bocadinho a ferro, que a máquina lava a roupa, só não a estende, isso tenho que ser eu…” Rimo-nos novamente e remata “já ouço mal e vejo mal, todos os sintomas da velhice, mas como bem e durmo bem, o sono é comigo”.

Digo-lhe que é muito bem-disposta e responde-me “ser bem-disposta é o que me traz de pé. Sim, é uma qualidade minha, também não invejo ninguém nem sofro de prisão de ventre de maneira que estou sempre bem-disposta”.

Conta que costumava ir ao lar fazer visitas e custava-lhe perceber alguns olhares alheados deste mundo, “há pessoas que já não sabem que ainda estão vivas… é aquele olhar…”. Diz que se tiver que ir para o Lar vai, acomoda-se e explica que “para muitos ir para um lar é uma ventura, é um bem, mas é um crime quando as famílias os deixam e não os reclamam… há quem não saiba avaliar a solidão… Há ainda casos em que se morre na solidão porque não há dinheiro para ir para um Lar”. A sua explicação é que “no nosso ambiente o amor acabou… não há humildade. Ai do velho que não fale em morrer, estafermo do velho, quer ficar vivo?!”. Conclui que com esta crise de valores “há pessoas a quem custa muito viver. Eu gosto de viver porque gosto de ser independente”.

Tem 4 netos e uma bisneta, que a deixa embevecida, conta que “ela tem 2 anos e meio mas já faz conversa… as crianças de hoje… é uma coisa diferente…”. Também tem cá um neto de férias e percebo que está na hora de continuar a sua rotina.

Agradeço-lhe o tempo. Ela pergunta-me: “está satisfeita?”. Respondo que sim, muito. “Não pensei que interessasse assim para uma entrevista”.

Claro que sim. É mais uma personagem desta terra, de há tantos anos, de sempre. Hoje o privilégio foi conhecê-la melhor. É esse o grande objectivo deste espaço, conhecer o ser das pessoas.

A grande descoberta hoje foi a atitude de Júlia, a Independente, Júlia, tão de bem com a vida.

Foi um privilégio e uma honra! Como julgo que será para quem ler esta conversa. Despedimo-nos, peço-lhe uma fotografia, lá deixa. Ri-se quando se vê na máquina. Depois pega no saco das compras e parte jardim afora.

Paro a olhá-la e penso na nossa conversa, quando falámos da dor da viuvez e me disse que, 26 anos depois “às vezes vou na rua e julgo que ainda sinto a mão dele no meu ombro…”.

Olho-a o parece-me, sinceramente,  que não vai sozinha!