lucília

Image

92 anos

Há pessoas que, quer-me parecer, o universo colocou no meu ângulo de visão, pessoas para as quais os meus sentidos me empurram e depois de conversar com elas sinto que aquele momento tinha que ter acontecido. Lucília, querida e doce Lucília, a serenidade em pessoa fez-me comprovar este meu sentimento. Falar com ela foi uma lição de humildade.

Tínhamos combinado encontro e eu prometi-lhe que lhe ia apresentar os meus filhos. Se por algum motivo, não me tivesse sido possível cumprir o combinado, sei que a teria desiludido. Soube que nos esperava de braços abertos quando os beijou, lhes sorriu e lhes ofereceu uma bolacha de chocolate do pacote que nos aguardava na mesa da entrada. Diz-se que quem nossos filhos beija nossa boca adoça. Ela fez de tudo e adoçou-me o coração. E mais feliz do que ela fiquei eu por não lhe ter falhado.

Aos 92 anos, uma memória fantástica e um modo de estar muito sereno Lucília apresenta-nos uma vida sem aventuras extraordinárias, sem feitos que venham a constar em enciclopédias, em que lhe foi até negado aprender as letras. Ainda assim, Lucília brinda-nos com a humildade de uma vida simples, longa e muito lúcida.

Toda a vida de Lucília foi feita no campo, foi retirada do campo. Única irmã de mais 6 rapazes foi também a única que os pais não mandaram à escola. “Havia um professor que escrevia aos meus pais, para me deixarem ir à escola mas eles nunca quiseram, a minha mãe dizia que não era preciso, que só servia para escrever aos moços”. E diz que “Se fosse para escrever aos moços arranjava-se maneira”, porque as letras lhe fizeram, efectivamente, falta para muita outra coisa. Já o marido tinha o prazer da leitura. “Ele lia tanto que a minha sogra contava que lhe ia apagar a candeia (de azeite) para o obrigar a ir-se deitar”.

Lucília começou, de muito pequena, a tratar da casa e a trabalhar no campo. “Eramos 7 irmãos, o meu pai tinha muito campo, uma junta de bois, era tudo a trabalhar no campo. A minha avó viveu muitos anos connosco quando já não podia estar sozinha, e eu ficava em casa a cuidar dela e fazia a comida, arrumava a casa e fazia roupa, era tudo feito em casa. Quando eu era mais pequena e ainda não sabia cortar a roupa a minha mãe cortava as calças e eu depois empernava-as. Fazia tudo”. Mas desde que idade começou nesses trabalhos?Já não sei, mas de muito pequena, a minha mãe ensinou-me tudo para poder ir trabalhar no campo.”

Casou já com vinte e muitos anos. O marido era vizinho e lá se juntaram. Já viúva fala dele com muita paz e diz que “ele era muito boa pessoa. Ele queria ir estudar, pediu ao pai e ele não deixou, precisava dele para trabalhar nos campos. Quando casámos ele disse logo que os filhos haviam de estudar.” Estiveram 3 anos sem ter filhos e Lucília conta que “já se comentava que dali não saia nada mas depois tivemos 4 filhos”. E ri-se.

Vieram os filhos, 2 raparigas e 2 rapazes. Hoje tem também 7 netos e 2 bisnetos. Enche-se de orgulho quando fala na sua prole e nas camas que tinha sempre feitas no andar de cima. “Eram 5 quartos e uma sala. Na sala tive que por mais 3 camas. Era muita gente”. E sorri.

A viuvez veio e os planos do marido foram com ele. “Os rapazes estavam a estudar no liceu nas Mouriscas. Levavam a trouxa e pagávamos a uma senhora que era de cá e vivia lá para lhes fazer a comida e ficavam lá”. Vivia-se bem, praticamente só do campo, “lá se compravam umas mercearias mas comíamos tudo do campo, tínhamos animais, o meu marido tinha um comércio mas depois ele morreu e acabou-se tudo.” Conta que “ele saiu de casa com uma moagem de milho para moer, fazia-se o pão em casa, e na volta do moinho deu-lhe uma trombose, já era a segunda, e foi assim a morte dele”. Toca-me muito quando diz que ele morreu e se acabou tudo e Lucília, sem demonstrar mágoa, sem réstias de amargura, mas com a certeza do que diz pois sabe do que fala explica que: “o meu marido, quando morreu, deixou-nos as courelas cheias de pinheiros, era dali que queria criar os filhos mas olhe, morreu ele e depois veio o fogo e queimou tudo, acabou-se tudo”. Os rapazes voltaram a ajudar em casa, as raparigas também “mas o trabalho era pouco e foram-se todos embora à procura de fazer a vida”.
Sei, sabe-se bem o quanto os pinhais ajudavam a economia de cada família e sei, sabe-se, que os pinhais sustentavam casas, pagavam cursos, ditavam até a riqueza de cada um. Este acabou-se tudo de que Lucília fala acaba por ser a marca dos incêndios em muitas famílias.
Continua, com a sua calma, a contar que “mesmo depois de os filhos saírem de casa ainda fiquei com 1 carro (carroça e mula), 2 cabras e criava o porquito. Olhe, era eu a cavalo no carro com as cabras presas atrás e íamos para todo o lado. Eles vinham ao fim-de-semana e ajudavam no que podiam. Ainda fiz muita coisa no campo mas depois já não podia e arrumei-me à renda, cheguei a vender uns naperons para Mação, já não sei é a quem foi”.

A minha pergunta da fase mais feliz da sua vida leva Lucília a “quando tinha o meu marido e os meus filhos todos juntos”.  Mas o seu lado doce traz-lhe o brilho aos olhos quando fala na descendência, nos 7 netos e 2 bisnetos. Hoje passa muito tempo em casa dos filhos, especialmente desde que partiu uma perna há 3 anos, mas afirma: “gosto de lá ir fazer uma visitinha mas é aqui que gosto de estar”.

Enquanto falamos as suas mãos giram à volta de um tapete que vai fazendo com tiras de tecido. E nós giramos à volta dos seus 92 anos. Diz-me que “estas terras pequenas não evoluem mais porque não há onde arranjar trabalho. Os meus filhos tiveram que ir embora porque o campo não dava nada”. Interrompo-a e pergunto-lhe porque deixou o campo de dar? A minha pergunta interrompe também o tapete. Pára, olha para mim e diz “olhe que eu não lhe sei explicar. Nunca passei fome, era tudo a trabalhar no campo mas depois deixou de dar.” Não, não me sabe explicar porque não percebe de política, nem de políticas e não quer saber de politiquices. Diz-me, retomando o tapete, que não gosta de se meter na vida dos filhos “às vezes ouço outras a relatar da vida dos filhos, a falar das noras… eu noras tenho duas e já disse a uma dessas que falam que não me meto na vida dos meus filhos, é a queles escolheram, todos me tratam bem, porque é que me hei-de meter? Não gosto disso.” É esta sua serenidade que me encanta. Sem ter aprendido as letras parece que leu, na sua própria vida, tudo o que há a saber sobre o ser-se pessoa. E nessa disciplina passou, e passa, com distinção.

Lucília gosta de fazer renda e de ir à Missa “mas agora custa-me, só se houver alguém que me ampare mas não quero dar trabalho, vejo-a na televisão”. E sorri. Depois diz que está um bocado aborrecida porque ainda não tem a televisão arranjada (depois da introdução da Televisão Digital Terrestre). Mas um neto disse que lhe arranjava a televisão. Entretanto ouve-se rádio mas afiança que “não é a mesma coisa, a televisão faz mais companhia”.

Falamos então dos seus maravilhosos tapetes, parece impossível que aquelas mãos que já teimam em tremer façam tão bonitos tapetes. Tem uns poucos feitos, dá às filhas, noras e netas e oferece a quem gosta deles advertindo “não vendo nada, faço e ofereço e há muito quem goste deles”. Os tapetes são feitos como se fosse renda mas com tiras de tecido que corta maravilhosamente bem e direitas e depois cose umas tiras às outras e faz os novelos com que trabalha. No juntar das tiras conta-nos o seu segredo e, a sorrir diz que “às vezes nem vejo a agulha para enfiar a linha e coser as tiras mas depois digo assim: ó Meu Deus olha que eu não vejo a agulha, tens que me ajudar, e ele ajuda.” Sorrimos as duas e ela reforça “Jesus ajuda-me a enfiar a linha”. E eu acredito. São tapetes feitos a 4 mãos.

Quando falo na Paz que Lucília transmite faço uns parênteses para a única mágoa que me parece que tem. Um dos irmãos foi para o Brasil e nunca, nunca mais cá voltou. Soube que ele enviuvou, voltou a casar mas depois foi ficando sem saber dele. Gostava, mas vê-se que gostava mesmo, de falar com ele mais uma vez e vejo-o espelhado naquela fantástica alma quando pára e diz “já somos os dois velhos e eu gostava de o ouvir mais uma vez”. Este Querer, com letra maiúscula, ao único irmão que foi para longe comove-me. E pensar que há tanta gente tão letrada, tão estudada e sabida que, no fundo, não sabe nada da vida…

Passámos cerca de hora e meia sentadas frente à lareira onde ardia um pequeno lume, só para confortar. São conversas destas que me fazem sentir que passei o meu tempo da melhor forma que podia. Lucília agradece-me a companhia, agradece muito o tempo de conversa, a quebra da monotonia. Está quase de partida para mais uma estadia com os filhos e sei que fomos uma surpresa uma para a outra. Ela agradece a visita, eu agradeço a dobrar.

Oferece-me um tapete. Escolho um maravilhoso em tons de azul. Não era o mais forte (apontou um feito com tecidos muito bons), nem o mais vistoso como aquele cor-de-laranja, mas houve algo naquele azul que me chamou a atenção. Ofereceu-me, deu-me um dos seus tapetes feitos a 4 mãos. Digo-lhe que é dos melhores presentes que me ofereceram de há muito e ela sorri. Realmente há prendas que não têm preço. E que valem tanto. Obrigada minha querida Lucília.

Já aqui referi a sua serenidade, a Paz, a humildade, o doce que é. Depois de escrever chego à palavra que teimava em faltar-me: Fidalguia. Os jeitos de Lucília são de uma Fidalga, têm algo de magistral, de cuidado, de suave, parece que foi criada entre aristocratas. Lucília, a Ilustre Fidalga, cuja nobreza está no seu modo de ser pessoa. O Mundo, que sabe tão pouco de si, agradece-lhe os seus fantásticos 92 anos! Obrigada!

Anúncios

nuno

Image75 anos

Nuno é uma das figuras da vila. Figura no sentido de que todos o conhecem e identificam, exactamente pela figura. A barba branca, a jeito de Pai-natal ou do próprio Karl Marx cuja doutrina veio a abraçar.

A minha curiosidade por esta figura e a ideia de uma necessária entrevista concretizaram-se e, uma vez mais, foi-me permitido viajar através da história de um homem ao passado deste sítio.

Das ideias que temos de alguém, porque as formamos, vem-se a ideia de Nuno a afixar os cartazes da Festa do Avante. Filiado no PCP por influência de um tio, diz encontrar ali “o único partido que entende os trabalhadores“. Pisou, sem faltar uma única vez, o chão da Quinta da Atalaia nos últimos 35 anos e adverte-me que os bilhetes para este ano já estão à venda. Percebe-se que vive muito e espírito do Avante e justifica: “Gosto de colaborar e conviver com os meus camaradas”.

Típico, refere-se aos amigos de quem fala ao longo da conversa, como “camaradas”.

A época que melhor recorda da sua vida “era quando andávamos a namorar. As moças iam à fonte, ao anoitecer, com o cântaro à cabeça e nós íamos com elas. Bons tempos aqueles.”

Nuno fez a 4.ª Classe, sublinhando que o fez “com distinção”. Conta que teve uma “belíssima professora, a Senhora Dona Ana. Interessava-se e dedicava-se, um mês antes dos exames íamos para a casa dela uma hora antes e uma hora depois das aulas estudar, ajudava-nos. Mas também era boa a bater e a puxar as orelhas”, relembra a sorrir.

Ainda sobre a sua meninice fala de “uma época muito pobre, mas mais sã do que agora. Havia as casas ricas e o resto eramos pobres. Mas era uma época mais sã”. Recorda sobre essa época que ajudavam os pais no campo e conta que, “quando caiam aquelas chuvadas íamos às hortas apanhar a azeitona que caia no chão – só a do chão – e depois íamos levá-la aos lagares e trocávamo-la por azeite, para o conduito da casa”.

Depois da escola foi aprender a sua profissão, Marceneiro, com o pai, que tinha uma oficina. Mas dava pouco e acabaram por fechar a oficina pois “só aparecia uma cadeira, um louceiro, uma mesa para arranjar e não dava”. Satisfaz-me uma curiosidade, ou mesmo ignorância, e explica-me que “um Carpinteiro trabalha com portas, janelas, faz estruturas e um Marceneiro trabalha com móveis”.

Quando fecharam a oficina a avó foi falar com o gerente da Fábrica, a fábrica grande da vila e ele foi para lá trabalhar. “Naquela altura a Fábrica tinha muita gente e pagava bem, pagava melhor do que a Câmara, depois nós começámos a decair e os da Câmara foram subindo”. Na Fábrica trabalhou mais de 30 anos. Começou como tintureiro, “tingia as fazendas mas depois trabalhei mesmo na minha profissão. O Marceneiro reformou-se e eu comecei a fazer os arranjos que era preciso na Fábrica, só que nunca me passaram a Marceneiro, se não tinham que me pagar mais”, revela acusando a esperteza da entidade patronal. Mas gostava do que fazia.

Paralelamente foi Bombeiro mais de 20 anos, até ser expulso. Foi expulso dos Bombeiros, Sr. Nuno? Porquê? Olhe, nunca mo disseram mas foi porque eu era contra a situação”. Fala da política. Pergunto-lhe se era muito revolucionário e diz-me que fazia o que conseguia. Além desta instituição a que, apesar de tudo, teve muito orgulho em pertencer também jogou futebol no clube do “CAT do Pessoal da Fábrica”. CAT, pelo que relembra, queria dizer “Centro de Alegria e Trabalho”. Naquela altura o CAT do Pessoal da Fábrica era muito activo. “Geríamos o CineTeatro, chegámos a passar filmes. Tínhamos um bar que explorávamos, organizávamos bailes à tarde, no verão, e tínhamos a equipa de futebol, que ia jogar com as equipas dos outros concelhos”. Conta ainda que, com o dinheiro que o CAT conseguia faziam um grande almoço para os sócios, trabalhadores da fábrica, e convidavam os chefes. Relembra que “um ano fizemos tal almoçarada que durou 3 dias, parecia um casamento”. Depois, provavelmente com o declínio da fábrica, tudo acabou.

Ainda falamos na crise e, ao longo da sua vida diz que “vivi muito mal, depois isto evoluiu muito e vivia-se bem e agora o país caminha para a bancarrota”. Diz ainda que “o 25 de Abril foi o melhor que nos aconteceu”.

No final conclui que “antigamente era um tempo mais puro do que o de hoje”.

Faz-se tarde e Nuno tem que ir para casa ajudar a irmã, com quem vive, a tomar conta de uma tia. Agradeço-lhe e digo-lhe para pedir desculpa à Dona B. pelo atraso, que a culpa foi minha. Ele ri-se e ainda me deixa fotografá-lo insistindo que não tem lá grande figura. Digo-lhe que parece um poeta e ri-se.

Obrigada, Nuno, o Camarada, pela simpatia. Muito obrigada, Camarada Nuno, pela viagem e pelas histórias. Vemo-nos por aí!