cremilda

84 anos

Quando pensei neste espaço fiz automaticamente uma lista de pessoas a entrevistar. Fui-as conhecendo em situações diversas e ficaram-me no pensamento. Uma delas foi Cremilda. Conheci-a há muitos anos, via-a regularmente num evento local composto por uma parte religiosa, piquenique e tarde cultural, o Dia da Paróquia. Uma pessoa ou grupo de cada aldeia apresentava e representava no período da tarde a sua terra. Eram músicas, peças de teatro, poesias, histórias, de tudo um pouco. Cremilda representava sempre a sua aldeia. Trazia sempre quadras, poemas de sua autoria sobre o que lhe apetecia. O que me fascinava, além da figura alegre e orgulhosa do seu papel, era a forma como declamava as suas quadras, aquele tom era mesmo de recitação. Com o tempo, noutros locais e noutras conversas percebi que é assim que fala, como se declamasse, com uma entoação poética, recitada.

Telefonei-lhe ao início da tarde, pois de certeza que a apanhava em casa. Não perde as novelas depois das notícias. São uma companhia, o acompanhar de várias vidas anima-a, cria-se ali uma ligação quando se vive sozinho. Disse-me que sim, que lá fosse. E eu fui.

Cremilda está viúva. Tem dois filhos, quatro netos e três bisnetos. São o que estima na vida.

Um exercício que faço nas entrevistas é pedir que me digam, olhando para trás, qual a fase mais bonita que recordam das suas vidas. A juventude não foi desta vez a eleita. Não. A fase mais bonita, para Cremilda, “é ver os bisnetos e netos com saúde, e que Deus os acompanhe. Vivo sozinha mas muito feliz”, porque os tem e sabe que estão bem.

Cremilda não teve uma vida fácil e percebe-se que a sua atitude lhe vale o ar radioso e alegre que tem.

Trabalhou no campo, foi mulher-a-dias, servente de pedreiros e costureira. Quando fala na costura, fala de um dom… “tinha tanta capacidade para isso, tanta roupa que eu fiz”. Consegue enumerar todas as localidades para onde fez trabalhos de costura e, nas redondezas, só houve uma aldeia para a qual nunca fez um único trabalho, não sabe porquê mas sabe bem que assim foi.

Nas entrevistas surpreendem-me muitas vezes ao guiar a conversa e eu gosto de ir onde me querem levar, às suas memórias. Disse-me “a minha vida de casada foi muito amargurada, o meu marido bebia muito e eu para orientar a minha vida e a dos meus filhos trabalhava dia e noite. De dia em casas na vila e de noite era agarrada à máquina (de costura)”.

Fala-me de algumas casas onde trabalhou na vila e explica-me que foi “no tempo em que levava cargos de roupa à cabeça para o ribeiro, não havia lixívias, era o sabão e punha-se a roupa a corar nos lameiros à beira do ribeiro ou naquela cascalheira limpa das ribeiras. Agora é uma beleza, há máquinas, lixívia. Naquele tempo era o sabão e as mãos a esfregar”.

 A escola e a escrita

Quando Cremilda passou da 1.ª para a 2.ª classe os pais tiraram-na da escola. “Tinha 9 anos e fui para a azeitona para o Tejo. O meu pai era lá como rancheiro e levaram-me para lá porque, com 9 anos, eu era nova mas tinha muito corpo”. Depois, continua “com 11 anos fui para a monda”. Interrompo-a. Para a monda, Dona Cremilda? Pois, para a monda, mondar o trigo, apanhar as ervas no meio do trigo no Alentejo. Eu com 11 anos já tinha corpo de 15”. E explica que “não havia plásticos, era com uma saca atada à cintura para não se molharmos no trigo quando ele já nos dava pelos joelhos e estava orvalhado. Fiquei lá 90 dias. Só não trabalhámos no dia de carnaval, nesse dia folgou-se e fomos para Campo Maior.

Volta ao tema escola, sempre. “Veja o pouco tempo que eu fui à escola mas o que aprendi nunca mais o esqueci. Dou erros mas escrevo muito. Escrevo cantigas, quadras, décimas, é de tudo um pouco”. Cremilda está sentada num sofá. Tem em frente a televisão e ao lado esquerdo um pequeno móvel onde me mostra vários cadernos preenchidos com textos seus. Não são apenas textos, são memórias, histórias, pensamentos, tudo o que lhe vai na alma e passa para o papel em rima, sempre em rima.

Uma relíquia. E remata, a sorrir: “Eu armava cada cantilhana”.

Questiono-a sobre este outro dom, o da escrita e responde-me que “vem tudo da memória, é engraçado mas é a verdade da vida”. E confidencia-me saber que “há pessoas aí na aldeia que me tinham zanga porque não lhes escorria nada”. Conta ainda que quando ia nos passeios e excursões “tinha sempre que inventar uma cantiga”.

Falamos nos passeios, uma oportunidade para as pessoas das aldeias darem, pelo menos, um passeio mais longe. Cremilda nunca mais foi a nenhum depois de viúva “porque também já tinha estes problemas nas pernas e custava-me a andar mas o que mais gostei de ir foi à Badoca (park)”. Porque tem animais diferentes daqui?Gostei tanto, aqueles animais todos a beber água naquele lago muito grande. Tenho aí uma história disso”. E aponta para os cadernos, pois claro!

A dureza da vida

Pergunto-lhe sobre o Portugal de hoje, diz-me que está mau, mas leva-me para o de antigamente. “Eu passei a crise, aquela crise da guerra de Espanha e da França com os alemães… quando andei na monda aparecia lá aquelas desgraçadinhas que fugiam da guerra de Espanha… aiii… eu cheguei a dar-lhes um casqueiro (pão) mas havia homens que abusavam delas, coitadinhas, algumas tão bonitas…”. Continua explicando que “O Salazar livrou-nos da guerra mas não nos livrou da fome. Eu quando trabalhava a dar serventia a pedreiros, na vila, quando dava o meio-dia desatava numa correria rua abaixo a buscar os meus 250 (gramas) de pão e vinha a roê-lo por ali acima. Chegava cá acima bebia água e viva o velho”. Não conheço esta última expressão e a própria Cremilda acha que a inventou, queria dizer que ficava contente. Ainda faz um reparo quando fala na correria e diz que quem lhe dera voltar a ter aquelas pernas para correr.

Continua e conta que “os meus pais eram muito rijos para mim e cortaram-me sempre as asas”. Explica que, ainda assim “sou muito paciente. Sou sofredora mas sei sofrer que Deus também sofreu por nós”. Explica ainda, a jeito de segredo para a vida que “há quem desanime por tudo e por nada, eu acho sempre que se hoje correu mal, amanhã é outro dia. Sou optimista”.

O casamento e o destino

Contou logo no início que o casamento não foi fácil mas é espantoso que não fala com mágoa, nem ressentimento. Casou com quem tinha de casar, porque acredita no destino. Cremilda acredita mesmo no destino e se algo não acontece como desejava é “porque tinha que ser”. Penso que é por isso que continua a acreditar sempre que o dia seguinte será melhor.

Cremilda começou a namorar com um rapaz que conheceu nos bailes (nos balhos) com 16 anos mas entretanto o pai adoeceu, nasceu-lhe um mal num pé a acabaram por lhe amputar a perna. Tinha dois irmãos muito novos e teve que ajudar a família. Deixou de ir aos bailes, esqueceu-se do pretendente. Uns anos mais tarde ele apareceu à procura dela mas rejeitou-o. Os pais dela também não o aceitavam muito bem. Recebeu entretanto uma proposta para ir trabalhar para Lisboa mas os pais não a deixaram. Cortaram-lhe novamente as asas. “Eles não deixaram e eu fiz chantagem com eles, ou me deixavam ir para Lisboa ou casava com ele. E eles disseram-me para casar com ele”. Ri-se e exclama, agora divertida com a sua própria história “Para eu não ir para Lisboa disseram-me para casar com ele, e eu casei”. E remata: “Para quê?… Tanto que eu sofri… era o destino”. Mas depois sorri, sempre.

Fé, família e futuro

Cremilda, que é zeladora da Igreja da aldeia há mais de 20 anos, tem uma Fé enorme. Diz ter “muita Fé em Deus e no Senhor dos Aflitos”. Aponta-me para as paredes e faz uma visita guiada às imagens de santos que tem, uns que comprou, outros que lhe ofereceram e diz “Sábado temos cá Missa”. Com 84 anos trata da Igreja, faz os Salmos e canta o Aleluia.

A conversa volta à crise quando diz que “isto os velhos, vem a reforma, mesmo pequenita, e a gente está habituado a comer de tudo… se eu comesse como algumas pessoas, do melhor, não me governava… gasto é muito com os medicamentos que os diabetes dão cabo da gente”. Conta que recebe de reforma pouco mais que duzentos euros e eu pergunto-lhe se lhe chega. “Tem que chegar… a gente tem que ogar* a boca com a bolsa e não dar o passo maior que a perna”. No meio da conversa falamos da crise e se se voltará a tempos difíceis como antes. Cremilda fecha a mãos, a jeito de prece, levanta-as ao céu e exclama, com aflição “Ai, Deus mos defenda”. O medo, aquela aflição tão sentida seguida de prece era pelos netos e bisnetos, que Deus lhos defenda…

Conta que come pouco, que às vezes coze grelos com ovo cozido, embora tenha peixe e bacalhau na arca “dá-me é a preguiça, só para mim chega. Ainda hoje veio aí a minha filha e até ralhou comigo porque não lhe disse que já não tinha conduto, nem queijo nem nada para comer com o pão mas eu pego no pão e ponho-lhe um bocadinho de azeite e gosto”.

A filha trouxe-lhe ainda uns pés de courgette, de beringela e de meloas para plantar. De manhã esteve a debulhar favas mas depois foi plantá-los. Frente à sua casa estão umas ruínas do que foi, como conta “a casa da gente mais rica cá da terra, uma viúva e uma solteirona”. É lá, dentro dos restos de paredes, fechado com porta, que tem o seu quintalinho onde, como diz “tem um bocadinho de tudo, para ir comendo, tenho lá couves, alfaces, batatas, alhos,muita couve boa para o caldo verde, é um bocadinho de cada coisa. As batatas semeei-as cedo mas já se queimaram duas vezes com a geada. Algumas ainda rebentaram. Tenho ervilhas, feijão, ainda hoje tive que apanhar as favas porque a rama já estava cheia de piolhos. Os meus filhos também me trazem batatas das deles e assim.

Sempre um passo à minha frente, adivinhando que lhe vou perguntar pelo seu dia-a-dia diz-me, quase que a jeito de conselho “Parar é morrer, se eu fosse a fazer a vontade ao meu corpo já estava paralisada.

Remata que estava um bocadinho em baixo mas que a conversa a está a distrair. Volta-se novamente para os seus cadernos e diz ter algures um texto sobre a vila. Ao longo da conversa leu-me e mostrou-me vários que lhe iam aparecendo ao folhear os cadernos.

Estamos a terminar e conto-lhe que sou amigas de duas das netas, que estudei e vivi com elas. Diz-me que ainda bem, que isso é muito bonito. Falamos de uma, depois da outra e eu digo-lhe que essa neta “é muito inteligente”, ao que me responde, sem falsas modéstias: “Olhe que ela tem a quem sair. Eu era de uma inteligência… se os meus pais me tivessem dado asas… mas cortaram-mas… Já viu o pouco que eu fui à escola e sei fazer contas de somar e subtrair e o que gosto de escrever… tudo me fica na memória”. E é bem verdade, o querer desta mulher é de uma força invejável que vai contra todos os muros que lhe quiseram levantar.

Cremilda, mesmo de asas cortadas voa alto, sonha ainda mais alto. Só começou a escrever depois de enviuvar e de se reformar “era para me entreter”, explica. E que maravilhosa maneira de passar o tempo, memórias de tudo e de há tanto tempo… tudo em rima, um tesouro muito valioso.

Um dos seus textos, sobre a água, deixou-me verdadeiramente impressionando. Fotografei-o e deixo-o aqui. Impressiona-me a inteligência com que o curso da água é explica em paralelismo ou metáfora com o amor, com o próprio casamento. Não são rimas tolas, avulsas, feitas de palavras que simplesmente rimam. Não, estas são rimas mesmo inteligentes:

Cremilda tem esta particularidade no nome de fugir à sua forma mais tradicional, Cremilde. Perguntei-lhe porque é assim e diz-me que foi o nome que lhe quiseram por.

Cheguei a casa e fui procurar o seu significado. Concluí que, para esta mulher que tanto acredita no destino, foi com ele que lhe chegou este nome, que só podia ser o seu. Cremilda que significa “a que combate com capacete: Pessoa charmosa, amável e expressiva, muito criativa e um tanto curiosa. (…) Sempre de bom astral (…). Só tem um problema em enfeitar demais a realidade (…).”

Cremilda, a fazedora de histórias. Cremilda, a optimista. Cremilda é e será sempre, antes de tudo, Cremilda a combatente. Porque combate tudo com optimismo e ainda conta a história com a dedicação das suas rimas.

Porque uma conclusão é sempre um ponto final, esta história fecha com um grande ponto de exclamação, de espanto. Perceberão quando ouvirem, no áudio seguinte, a sua história de vida escrita, decorada e contada pela própria, em quadras, claro está.

Desfrutem e aprendam, « aqui »
 Obrigada, querida Cremilda, (desde sempre) a combatente!

* Ogar: De augar, de áuga, forma de se dizer água. Ogar é dar água, aguar.

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1 thought on “cremilda”

  1. A D. Cremilda tem espírito de professora… tivesse ela tido essa oportunidade!

    Eu também gosto de ver a novela da hora de almoço… a da TVI :)))))

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