elisa

90 anos

Começava o dia 5 de Outubro de 1945, eram 6 da manhã quando a camioneta sardinheira chegou à pequena vila do interior. Trazia sardinhas e pessoas. Uma dessas pessoas era Elisa.

Eram 6 da manhã de 5 de Outubro de 1945 quando a nossa Dona Elisa chegou a Mação.

A riqueza de uma vida aparentemente simples mede-se, pesa-se e soma-se no valor da visão e da posição das pessoas sobre a própria vida.

É pelo modo de estar, de ser, e de ver, que a vida da Dona Elisa é de uma riqueza incrível.

Surpreendeu-me aquela serenidade com que me disse “cheguei a Mação às 6 da manhã do dia 5 de Outubro de 1945, na camioneta sardinheira. Tinha saído de Lisboa às 10 da noite, num autocarro até Belver onde aguardávamos depois a camioneta que ia ao comboio buscar as sardinhas e nos levava então para Mação”. Era assim que se vinha de Lisboa para Mação em 1945.

No dia em que chegou a Mação realizava-se o funeral do até então director do Colégio onde vinha dar aulas. Não foi ninguém recebê-la por esse mesmo facto. Recém-licenciada em Línguas Clássicas na Universidade de Lisboa chegou assim à pequena vila do interior que diz ser,  à altura “um meio pequeno cujo grande evento era a Feira dos Santos neste largo onde hoje vivo e onde não havia nada, aliás, nada do que existe hoje além do centro histórico, nada disso existia, lembro-me e acompanhei a construção de tudo isto que forma hoje a vila”.

Elisa nasceu há 90 anos em Angola. Com 6 foi com os pais para a Ilha do Príncipe onde viveu até aos 10 anos. O pai era funcionário dos quadros de São Tomé e Príncipe e andava sempre lá e cá. Cresceu até aos 10 anos numa Ilha em que era a única criança branca. Teve apenas um amigo na sua infância, um pretinho que era filho de um casal de empregados da casa dos seus pais e a quem uma vez enfiou uma tigela na cabeça e cortou o cabelo. Rimo-nos.

Na sua infância não brincou muito pois, além da falta de companhia, a tosse convulsa levou-a a quebrar e usou até aos 13 anos uma funda* “cresci fundada, com um género de cinta atada na cintura, talvez por isso tenha ficado com esta forma pequena.” A mãe não a deixou operar porque o hospital da Ilha não tinha condições.

Com 10 anos foi para Lisboa pois na Ilha não havia escola. Esteve primeiro em Lisboa e depois em Coimbra. Voltou para Lisboa para a Universidade. De Lisboa foi colocada como professora na pequena vila do interior onde ainda hoje vive.

Dona Elisa, a Professora

Perguntei-lhe quantos anos leccionou. Fê-lo com prazer, uma quase devoção e inteira dedicação entre 1945 e 1991 quando foi obrigada a reformar-se, “praticamente expulsa pois o limite de idade já tinha sido atingido. Tinha 70 anos. Eu não queria” E alunos, quantos foram? Sorriso na cara e a óbvia resposta “milhares… acompanhei três gerações de famílias, dos avós aos netos…”. A sua história cruza-se, de facto, com a da vila, histórica, social e arquitectonicamente. “Quando cheguei o Colégio (privado) era na Quinta. Vi construir-se o novo, passámos para o edifício novo. Entretanto o Colégio deixou de ser privado, passámos para o Ensino Oficial, tive sorte e contaram-me os anos do privado e efectivei na Escola**”. Esta Professora, que foi também a Directora conta ainda, divertida que “o curso permitia-me leccionar Português, Francês, Latim e Grego. Grego nunca dei, as outras sim mas, quando foi preciso, dei ainda aulas de História, Geografia, Ciências, cheguei a dar Inglês, mas só uns meses que é língua de que não gosto. Eu parece-me que só não dei aulas de Matemática… e Desenho, que isso seria uma desgraça… Isto no Privado, depois no Oficial foi o Português, a Geografia e a História”.

A mim deu-me História, no seu último ano no ensino. Tinha uma vareta que esticava, tipo antena, para apontar no quadro. Diga-me lá, D. Elisa, era muito exigente, não era?!  A resposta vem séria e segura: “Eu acho que não abusava e sempre tive muitas manifestações de amizade, ainda hoje antigos alunos que já são avós têm-me muita consideração. Posso dizer que nas reuniões havia professores com queixas de alunos e eu nunca tive uma queixa sequer.” Com a seriedade do acreditar reflecte: “Procurei sempre, na minha consciência, não prejudicar os meus alunos, não os fazer passar pelo ridículo e não fazer comparações, por exemplo entre melhores e piores notas. Nunca.” Falamos quase de uma fórmula? “Se calhar, tratei-os com respeito e eles respeitavam-me a mim. Tive colegas, dessas que ficavam aí colocadas um ano, que até se sentavam na mesa… não se davam ao respeito e não eram respeitadas. Não eram todas… Nos últimos anos eu já percebia que a pouca disciplina dos alunos se devia à pouca disciplina dos professores. ”

E hoje, Dona Elisa, que ideia tem sobre o Ensino em Portugal?Está tudo muito baralhado. Pelo que vejo, leio e falo com as minhas colegas, que já somos poucas vivas (e ri-se), o que acho é que o ensino antes era muito fechado, depois abriu muito e teve um efeito tipo 25 de Abril”. Tipo 25 de Abril ou devido ao 25 de Abril?Tipo, tipo 25 de Abril, primeiro era muito fechado e depois não soube o que fazer com a liberdade e desorganizou-se, baralhou-se. Por exemplo, antes as licenciaturas eram muito poucas mas com mais conteúdo, hoje há licenciaturas em tudo e mais alguma coisa. Haver mais cursos não prejudica mas há menos exigência. Mas há o lado bom, o ensino em Portugal abriu-se ao mundo, em 1991 os programas já eram muito melhores.

Saúde e Família

Falamos da sua lucidez, excelente memória e saúde. Diz que nunca teve grandes problemas de saúde “mas ando muito controlada… tomo alguns comprimidos que também não sou um milagre, mas não tenho diabetes nem colesterol, posso comer de tudo. Gosto muito de café e de chá, o médico disse que só posso beber 4 bicas por dia e não me tira o sono”. Rimo-nos, o ir à bica, hoje com mais dificuldade e a ajuda da bengala é uma das imagens do quotidiano da vila. Pergunto-lhe qual a fórmula desta longevidade e responde-me que deve estar na origem dos pais, “um de Avis, outro de S. Martinho do Porto, a junção destas origens deu-me saúde” e ri-se de novo. Depois confessa que os nervos é que a deixam um bocadinho em baixo. Conta que no final do curso teve um esgotamento. “Escrever a tese, preparar os exames finais e dar explicações para ajudar a economia familiar esgotou-me, cheguei ao último exame, o de Latim, e bloqueei. O Professor foi muito compreensivo, tive sorte. Ainda hoje tenho alguns problemas com os nervos, as pernas não acompanham a cabeça e isso enerva-me, revolta-me.” Assume alguma culpa e diz que “quando me reformei parei muito, foi o meu erro.” Ainda assim, esta fantástica mulher de 90 anos ia, com 84, de Expresso para o Porto, para Lisboa e para as Caldas da Rainha visitar os primos.

Não bebe leite, nem iogurtes e o queijo, só fresco. Mesmo assim, nunca partiu um osso. Fala de uma queda que deu há uns anos, desequilibrou-se e caiu um vão de 8 degraus. Malgrado todo o sangue que deitou só cortou uma sobrancelha e rebentou uma veia na perna, da qual já nem há marca. “Tinha ido à festa do Sr. das Encruzilhadas, foi ele que me ajudou”. Ri-se de novo.

Muita gente desconhece a história desta Professora que abraçou Mação. Quando o pai se reformou veio também para a pequena vila, porque lhe agradou o sítio. Veio o pai, a mãe e uma tia. O pai morreu cá em 1951, depois foi a mãe e por fim a tia. Filha única que era, nunca casou e optou por ficar, visitando regularmente a família. Ainda tem alguns primos vivos.

Quando Elisa se mudou tinha uma empregada, uma cozinheira, que teve uma filha. Elisa viu essa filha crescer lá em casa. Cresceu, casou e teve uma filha, Fatinha, que é como se fosse também sua filha e os filhos desta, são os seus netos. O dia-a-dia desta família fazia-se muito na casa da Professora D. Elisa. Hoje é com eles que vive. Fatinha, que é neta dessa sua empregada  tem a sua casa, a sua família, mas vai todos os dias visitar os pais e Elisa, chamada em casa carinhosamente por “Li” e aos sábados, sempre que pode, leva-a a beber a bica. Uma história simples a da sua família do coração que, como diz, “Graças a Deus encontrei”.

90 anos

Dona Elisa, como é hoje um dia na sua vida? “É muito rotineiro, fechado. Vejo televisão, leio alguma coisa mas a vista já não quer muito. Graças a Deus que me levanto todos os dias e ainda faço a minha cama.” Para não dar trabalho, entenda-se! Todos a associamos aos passeios pela vila, a ida à bica e buscar umas compras mas diz que hoje já não o faz diariamente por causa das pernas. E do frio, “com frio não saio, não me constipo há 2 anos. Mas por causa do frio, ao não dar um passeio as pernas ficam piores”. Também já só sai de tarde pois deita-se tarde e não se levanta cedo. Um passeio de manhã, devagarinho como anda, podia atrasá-la e o almoço é pontualmente ao meio-dia. Conta que quando sai lhe dizem “Vá devagarinho”. Ri-se e responde “Vou, vou”, com isso não se preocupem!

A sua vida foi sempre “casa-colégio e colégio-casa, nunca me inseri muito na sociedade, société, como dizem hoje, mas quando saio toda a gente me fala, antigos alunos, mães de antigos alunos, tenho alunos antigos que quando me vêem, se pudessem, andavam comigo ao colo”.

Gosta de livros, leu ultimamente o Rio das Flores e mais dois de Miguel Sousa Tavares. “Gostei muito do Rio das Flores e o último que li foi Mataram o Sidónio, do Moita Flores, aprendi muito da história sufocada da 1.ª República, da justiça e da política, coisas de que desconfiávamos. Gostei muito.”

Evoca e agradece a Deus muitas vezes na nossa conversa e diz que “sim, acredito em Deus. Não sou praticante mas sou Católica. Talvez a vida não me tenha levado a ser praticante, mas pratico interiormente”.

Aos mais novos deixa um conselho simples, uma pequena aula para a vida “que tenham confiança em si próprios, sejam honestos, rectos, respeitosos. Procurem seguir os bons exemplos dos pais e preparem o futuro. Trabalhem, tenham juízo. Sejam honestos e sinceros”.

Elisa, sempre Dona Elisa, sempre daqui, sempre por aqui. Nunca lhe chamam, não sei porquê, Professora Elisa. Dona, sempre Dona, mas com o respeito que se lhe deve, como que a dizer, a jeito de reverência: Senhora Dona Elisa. Elisa, a Professora. É “Li” junto dos seus. Elisa, a nossa. Elisa, a Eterna Dona Elisa.

Mais de duas horas de conversa, maravilhosa conversa e trazem-me para eu ver, num canudo de ferro, já a querer enferrujar, O Verdadeiro Canudo, que eu nunca tinha visto um assim. Lá dentro, com data de Junho de 1945, escrito à mão e em Latim, assinado pelo Reitor da Universidade de Lisboa, está o seu Diploma de Licenciatura. Juntam-se-lhe vários Diplomas de Mérito. Vem depois a Pasta das Fitas, estimada, amada, uma recordação de valor incalculável para a doce Elisa. Um tesouro só visto e partilhado em família. Quase que tremo com tão honrosa partilha. Peço-lhe uma fotografia. Ri-se, “agora quer tirar-me uma fotografia com o Diploma”. Acede e eu tiro.

Elisa, a nossa pequena, tão grande, Dona Elisa posa nesta fotografia com o seu Diploma e a Pasta das Fitas. Foram estes símbolos que um dia, em 1945, lhe disseram que sim, que podia vir até nós, que a trouxeram à pequena vila do interior. Foi este Diploma que a fez chegar-nos no dia 5 de Outubro de 1945, às 6 da manhã, na camioneta sardinheira.

Quando me despedi dei-lhe dois beijinhos. Depois mais dois e a promessa de uma visita em breve. Na rua já queria escurecer, o frio chegou-se ao meu rosto mas o calor no meu coração afastou-o. Não sinto o frio. Sorrio. Começo a ficar preocupada pois nem sei por onde vou começar a contar tão rica história.

Agora já está. Obrigada Dona Elisa, Elisa, a Eterna.

Muito Obrigada!

*Cinta, faixa atada à cintura

** Esta escola já está desactivada e há já uma nova

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1 thought on “elisa”

  1. Pediste e cá vai…está diferente,bem diferente mas não menos mal nem menos bem que os outros, adequado à pessoa!
    Um vocabulário diferente mas com a magia de uma experiência diferente de quem vingou na vida e que através de “viagens” conseguiu a autonomia e a independência.
    Porque é sempre bom partilhar experiências…continua a brindar-nos com elas!!!

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