antónio

 82 anos

Há quadros perfeitos como descobrir uma casinha de rés-do-chão com jardim que resiste no meio dos prédios de uma cidade. Ou um campo todo cultivado, perfeitamente alinhado, cada cultura arrumada no seu quadradinho de chão.

Há quadros reais, que nos passam por vezes despercebidos, de uma perfeição avassaladora. É o mesmo com as pessoas.

Quem passa numa das ruas principais de Mação sabe onde fica o barbeiro, sabe quem é o Sr. António. Passa e sabe, porque está lá. Mas olhar com olhos de gente… Ver… isso é que é uma surpresa. Hoje fui surpreendida. Pelo Sr. António. Da barbearia.

António tem uma figura muito bem tratada, mais a sua bata branca. Quem passa à porta da barbearia percebe-lhe os anos, do dono e da barbearia. Ali dentro tudo parou e faz parte do tal quadro perfeito. O Sr. António, esse atravessa o tempo, cresce e aprende com ele. Actual, esperto, informado. De uma lucidez invejável.

Entrei na barbearia e percebo que nunca lá tinha realmente entrado. Pergunto-lhe se lhe posso fazer uma entrevista e acede. “Pode ser agora, não demora muito, pois não?” E começamos. Quem começa com as perguntas é ele. Que tive um filho há pouco, quantos já são e se sou da idade da filha mais nova. Respondo que devo ser 2 ou 3 anos mais nova. António abre a carteira, puxa de uma folha branca que desdobra e começa a ler as idades dos 4 filhos. Eu sorrio e pergunto se são as datas e aniversários dos filhos. Ele ri-se “Filhos e netos que a cabeça às vezes já não se lembra de tudo”. Falamos um bocadinho dos filhos. Tem três raparigas e um rapaz. Tem também quatro netos, três rapazes e uma rapariga.

Voltamo-nos para a sua vida, uma vida de 82 anos ele diz-me que “foi uma vida sempre a trabalhar. Saí da escola com 11 anos e fui aprender a alfaiate e a barbeiro. Ainda andei a fazer feiras mas nunca tive jeito para vigarista e dediquei-me à barbearia”. Mas como é que aprendeu duas profissões?Foi no Manel Silvério, o meu Mestre, tinha a casa aberta ao pé da Igreja. Lá faziam-se barbas, casacos e capotes. Era eu e outros lá a aprender. Só o trabalho dos domingos dava para nos pagar, o resto era tudo para ele. Ia-me prometendo sociedade e isto e aquilo e nada. Com 22 anos escapei a caminho de Lisboa a comprar esta cadeira (a de barbeiro) e estabeleci-me”. Explica-me onde foi a primeira barbearia e a luta que foi comprar a casa onde está há mais de vinte anos. António gostava do sítio e falava ao dono para lha vender, ele não a vendia e servia apenas para barracão. “Quando ele morreu a viúva depois adoeceu, o filho estava no Brasil e eu agarrei em 10 contos e fui entregá-los ao que tomava conta disto. Entretanto estavam outros interessados mas eu já tinha dado a entrada. Tive que ir fazer a escritura já ao Hospital, onde estava a viúva”. Vai buscar um dossier e mostra-me a escritura.
Dedicamo-nos à cadeira. A que foi buscar a Lisboa, aos 22 anos.

Comprei-a na Calçada da Boa Hora, agora parece-me que há lá um supermercado. Depois de a comprar tinha que a trazer para cá e um primo meu que era lá polícia é que me ajudou. Arranjou o transporte, mas tinha que vir num caixote. Tive que a desmontar e quando a recebi cá, montei-a outra vez.” Na cadeira, gravado a ferro lê-se Pessoa – Lisboa, pergunto-lhe o que é e explica-me que “esse António Pessoa pensou na cadeira, registou-a e mais ninguém podia fazer este modelo”.

Sobre as barbas que já por ali passaram diz-me, a sorrir, que já foram milhares e conta que “às vezes acordo de noite e ponho-me a pensar… só na Rua de S. Bento, da Capela à Igreja, só dessa rua já tive ao longo dos anos mais de duzentos clientes, agora não há lá quase ninguém”.

Sente muitas diferenças do antigamente para hoje?Eu cheguei a fazer barbas a 10 tostões… isto evoluiu muito. Mas as pessoas vão fugindo daqui…” Depois confidencia-me: “Eu devia ter ido para o Brasil mas a minha mãe disse-me que tanto arranjava dinheiro lá como cá, tinha é que trabalhar.

Falamos sobre o Portugal de hoje e diz-me que “é só exploração, tanta gente desempregada, é impossível que isto vá para a frente. Os grandes comem tudo e os pequenos é só serem explorados. Os mais novos têm que ir para fora. Deviam era apoiar as empresas para haver trabalho, mas é ao contrário. Agora até os hospitais querem fechar… mas isto tem algum jeito?…

Deixamos Portugal lá fora. Como é um dia seu? Levanto-me de manhã, como uma banana e tomo o comprimido.E acrescentaPara a tensão, diz o médico. Vou até à horta. Lá cultivo de tudo, batatas, cebolas, couves, feijão, é tudo. Às 10 horas venho a fugir para cima bebo um copo de leite e um papo-seco e venho abrir. Fecho para o almoço e depois é até às sete.” E gosta de andar na horta? “Cultivo de tudo e tenho 2 cabritas. A surpresa… tem duas cabras? A mulher faz dois ou três queijos, dão os cabritos, fazem o estrume para a horta e são um entretém”.
Fico absolutamente maravilhada com este relato. Com esta energia. Nunca pensei que António, o barbeiro de bata branca ia diariamente à horta e cuidava de duas cabritas que, feitas de contas, têm várias utilidades…
Casou aos 28 anos. Pergunto-lhe como se mantém um casamento 54 anos e ele, sem fórmulas mágicas, diz simplesmente “É fácil. Tem sido fácil… damo-nos bem!” Falamos dos filhos que “trazem muita felicidade” e diz-me que “primeiro só vinham meninas e eu disse ao médico ó doutor, como é isto e ele respondeu-me para continuar a tentar… e lá veio o rapaz”. Ri-se.

Falamos então sobre a escola, de onde saiu aos 11 anos. “Fiz a 4.ª classe e tive que sair. O meu pai morreu muito novo, com trinta e poucos anos e a minha mãe não podia pagar mais, tinha três filhos”. A mãe…. Pausa e diz-me “Ela morreu com 87 anos, foi uma mulher incansável”.

Continuamos a falar da mãe. “Aprendi muito com ela, era muito inteligente. Tinha um forno, cozia pão para outros e mesmo na altura da fome nunca nos faltou pão. A rapaziada do meu tempo assava umas batatas e umas cebolas com um ferro ao lume mas pão não tinham… não havia.” Conta-me, relembrando o tempo da fome que “O Salazar, no último discurso que fez disse hei-de ver se vos livro da guerra, mas da fome não prometo. Nas casas, uns tinham sobejos de batatas, outros azeite e as pessoas trocavam, dou-te isto e dás-me aquilo e era assim”.

Conclui: “Deus queira que não se volte a isso. As pessoas criavam 8 e 9 filhos e hoje diz-se que tudo se criava… criar, criava, mas era descalços e esfarrapados.

Lembra-se entretanto de outra situação impressionante que me conta. “Nas mercearias… – os homens iam para a ceifa para o Alentejo – e nas mercearias vendiam fiado às famílias. Um dia perguntei ao dono de uma mercearia como é que fazia a vida a vender fiado. Ele explicou-me que quando os homens voltavam da ceifa com o dinheiro e iam pagar a conta ele levava mais 10% de juros. Ora, ficavam logo sem dinheiro e voltavam a comprar fiado. Eu disse-lhe que ele assim fazia fortuna depressa…”.

 A hora para o almoço já tinha entretanto sido ultrapassada e pergunto, para finalizar: Diga-me só mais uma coisa, acredita em Deus? Sim, sim. Acredito que há um Ser Superior. Uma cadeira sabe-se quem a fez mas este globo que nos cerca… isto não é coisa do homem. Deus… nunca o vi, mas acredito.”

 António despe a bata branca e preparamo-nos para sair. Sei que podíamos ficar ali o resto da tarde, não quebrasse a rotina. A mulher esperava-o com o almoço na mesa. António, que passa pelos tempos e os acompanha. António, uma maravilha de conversa e de memória. António, 82 anos mais a sua cadeira que já conta uns 60. António, o Iluminado barbeiro. Aquela barbearia é agora para mim um novo espaço. Vezes que lá passe será agora, sempre, um quadro perfeito.

 Obrigada António, o Iluminado, pela paz, pelo saber, pela memória e pela lucidez.

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2 thoughts on “antónio”

  1. Que Deus te dé força e saúde para continuares a fazer Portugal.
    Gostei do trabalho e da iniciativa.

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