maria

92 anos

Já a tinha visto na rua vezes sem conta e achava-lhe graça. Porque a tem. Fazia-me lembrar uma bonequinha de trapos em forma de gente. As camadas de roupa a resguardá-la do frio. O avental por cima. O xaile de malha pelas costas e o lenço atado à cabeça. Tal e qual uma bonequinha de trapos.
Dizia-lhe bom dia, boa tarde e ela respondia-me. Umas vezes passava por ela no passeio, com a sua bengalita, uma bengala baixinha a amparar as costas já curvas, ela já de si tão pequenina. Outras vezes via-a sentada num dos bancos que asseguram, nos passeios da rua principal os momentos de descanso. Ou simplesmente de se estar.
Até ao dia em que me sentei junto dela, num dos bancos. E fiz conversa. E ela retribui-me a conversa com uma graça indescritível. Fizemos as apresentações e conclui que lhe conheço a família e não sabia que ela era deles. Ela ri-se, gosta que eu lhe conheça os filhos e os netos.
Nesse dia eu disse-lhe que estava frio e ela explicou-me que “lá nos ermos a gente tem o lume, acende-o ao fim da tarde a aquece-se ali. Na vila não se acende o lume, até se usa o fogão para fazer a comida, não sabe ao mesmo“… Eu sei que ela tem razão e digo-lhe que sim, que a comida feita ao lume é outra coisa. Quando nos despedimos ela disse-me: “Obrigadinha pela visita“… Devia ter-lhe falado mais cedo. Ela gosta e eu também. E não custa nada fazer-lhe uma visita!
Dias depois marquei entrevista com ela. Deu-me o tempo, levou-me os ensinamentos, comoveu-me. Fez-me rir, perdeu-se um bocadinho e lá viajámos no tempo. Levou-me pela mão de uma memória ainda boa mas que já teima em repetir-se. Uma maravilha, ainda assim, para a nossa D. Maria que, aos 92 anos, tem memórias que o tempo não pode perder.
Há dois ou três temas que vai sempre buscar, qualquer que seja a pergunta. O tempo que trabalhou na fábrica de lanifícios, a família e o tempo que se demorava a pé de casa até à vila. Uma hora.
Maria, 92 anos. Dois filhos, dois netos e dois bisnetos. Viúva, pequenina, rija, uma verdadeira bonequinha de trapos com bengala.

Maria, a cheia de graça

Quando nos reencontrámos eu quis saber, no seu quase século de vida, qual a melhor fase por que passou. Diz-me que “o melhor é quando se é nova, ali com 24, 25 anos. Vinha da aldeia para a Vila para trabalhar e descobria os campos. Todos os campos tinham um nome e estavam bem tratados”. Parece-me que aquela ligação aos campos era quase com uma relação interpessoal, de reconhecimento, de perceber que há ali algo que cresce, que evolui, que dá frutos, que está tratado, há quase uma interacção entre a pessoa e a terra.
Quis saber se tinha preferido viver numa cidade. Diz que não, que gostava de andar no campo. “Fui criada assim… Um dia dizia às vizinhas: Hoje vou para o Albardeiro, amanhã para o Porto, depois para o Ribeiro, cada horta tinha o seu nome…“. Repete esta ideia várias vezes, como se ao recordar regressasse um bocadinho àquele tempo, sete ou oito décadas atrás…

Casamento
Perguntei-lhe como se namorava noutros tempos, e a D. Maria respondeu-me a sorrir: “Quer dizer, quando se chegava ali aos 15, 16 anos a gente começávamos logo a andar com a cabecita no ar. Depois, ali nos 20, 21, 22 ou 23 é que já falávamos com eles e depois casávamos“. Contou-me que namorou 3 anos. Ele era de uma aldeia vizinha e vinha à dela aos “balhos” (bailes) e foi lá que se arranjou o namoro. E diz-me “ele tratava-me tão bem, tão bom, era muito bom para mim, ele gostava tanto de mim e eu dele, mas ele não era trabeco (de trabucar, de falar), eu era mais divertida“. À pergunta sobre os anos que estiveram casados responde-meeu agora directamente já não sei dizer… Ele era um santo, o Zé. Nunca me rogou uma praga!”.
E o casamento, como foi a festa? Conta que o casamento foi na aldeia dela, o Padre ia lá dizer Missa e eles foram confessar-se ao Padre que depois os casou. Os convidados foram os irmãos, cunhados, primos, a família. E remata vaidosa: “Foram dois dias de boda“.
Para a boda matava-se uma cabra que se guisava. Fizeram-se Bolos dos Santos e o baile não falhava. Ó Dona Maria e o vestido de noiva?Olhe, eu ia bonita, que era para parecer bem às pessoas. Foi um dia tão alegre…”
Uns anos depois de estar casada vieram os filhos e ela explica-me que teve um rapaz e uma rapariga. Depois o rapaz teve uma rapariga e a rapariga teve um rapaz. Saudosa, exclama: “é um tempo que abala e já não volta, era um tempo muito alegre quando eles eram pequenos. A alegria da casa são os filhos. Depois, olhe, depois eles crescem e também se aborrecem da gente e depois têm os filhos deles com quem se divertir“.
Sem tempo para outra pergunta, continua na viagem às suas memórias e exclama “O meu homem era muito bom para mim, a minha mãe não teve sorte nenhuma com o marido. Ao domingo ele vinha à vila falar com os homens para irem para a ceifa e vinha um pagava, outro pagava, outro pagava, (faz uma pausa, olha para mim e explica: vinho. Eu  aceno com a cabeça, sei do que fala) ele bebia muito e ficava quente e quando chegava a casa gritava muito e depois os vizinhos vinham mandá-lo calar“. Não a interrompo, que ela agora está longe… “Ele arranjava grupos de homens lá na terra, grupos de 40, 50 homens para irem para a ceifa do trigo nas fazendas daqueles grandes lavradores no Alentejo. Ficavam lá aos 40 dias“.
Pergunto-lhe se se vivia melhor antigamente ou agora e a resposta é clara como os seus olho.Bem, isto agora o tempo é outro, há coisas que não havia e as pessoas eram mais atrasadas, mas isto hoje ainda pode piorar… O tempo não estava muito ruim mas agora estes malandros a roubar… até se matam uns aos outros”. E desabafa: “oh que raio é isto…” e pausa. Quando volta à conversa diz-me: “Da maneira que isto se vai a preparar parece-me que isto acaba depressa, matam-se uns aos outros. Isto está uma vida desgraçada. Antigamente não havia tanta desgraça como agora”.
Voltamos à sua meninice e pergunto-lhe sobre a escola. Diz que não andou na escola, eram quatro irmãos, um rapaz e três raparigas. “Das raparigas só a mais nova é que foi andar à escola, eu fui nova guardar gado, que os meus pais também eram muito pobres”.

As engenharias do saber

E gostava de andar com o gado?Tinha que gostar. Quando chovia molhava-me toda. Tinha um gabão”. Interrompi-a: o que era o gabão.”Era um capuchinho que vinha atar aqui à frente com um ou dois botões. Tinha uma abeira enfiava-se um baraço para atar e fazia uma capa comprida em fazenda”. Pela explicação penso que o gabão deve vir de capão, de capa grande que consistia no tal capuchinho a cobrir a cabeça que ligava a uma capa grande que cobria parte do corpo e a tal abeira seria a aba onde se enfiava o cordel para atar ao pescoço e que ligava a capa ao capucho. Conta-me entretanto que as fazendas, os tecidos, para fazer este e outro vestuário era tudo feito em casa, teciam os próprios tecidos para costurar. No final diz-me “as pessoas eram mais atrasadas mas ensinavam o que sabiam umas às outras”.

E voltamos ao gado. “O meu patrão dizia-me para ir levar o gado a tal parte, que as terras tinham nomes, e que voltasse às tantas horas. Mas eu não tinha onde ver as horas. Sabe como é que se fazia? Ao meio-dia a fábrica na vila apitava e quando ela apitava eu espetava um pau no chão e marcava um risco onde fazia sombra, era o meio-dia, depois já me sabia regular nas horas. Às vezes nem era preciso o pau, era com a sombra de algum palheiro. Até com a mão, pela sombra dos dedos” (e faz o gesto com a mão a formar cova e com o polegar no ar). Diz-me ainda que as pessoas se guiavam muito por sinais, pelo sol… e conclui “antigamente eram espertos”.

No nosso primeiro encontro falou-me logo no trabalho na fábrica, penso que a orgulha ter tido aquele trabalho. Pelas suas contas foram uns vinte anos na fábrica grande da Vila. Depois de casada ainda lá trabalhou mais oito. Explica-me as tarefas que desempenhou. “Fiz de tudo. Trabalhei na fiação, atava os fios que formavam as maçarocas de onde depois se enchiam os fusos. Gastava uma hora a pé de casa até ao serviço. Vinha com uma irmã minha. Trabalhei ainda na retrocedeira, na esfarrapadeira e na caneleira”. Volta a dizer que gastava uma hora a pé. Começa a ficar cansada.

Desafio-a, para concluir, a dizer uma moda antiga. Ela diz que sabia muitas, era muito divertida e começa:
Fui ao mato, fui à lenha,
Fui-me deitar a afogar…”
E pára. Não se consegue lembrar do resto. Eu digo-lhe que noutro dia falamos das cantigas e dos versos e ela explica-me: “Sabe, o cérebro gasta-se”. E sorri.

Depois da entrevista já a vi mais duas vezes sentada num dos três bancos no passeio da rua onde vive a filha. Reconhece-me mas não sabe bem de onde. Volto a apresentar-me e da última vez já me associou à entrevista. Diz que gosta muito de conversar, que quando está sozinha a cabeça começa a pensar noutras coisas. Ficamos um bocadinho à conversa, repetimos os temas e no final Maria, a cheia de graça, despede-se, “Obrigadinha pela visita”!

De nada, Dona Maria, foi (é sempre) um prazer!

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1 thought on “maria”

  1. Uma verdadeira ternura de senhora…fofinha que só ela!!Histórias que só eles nos conseguem contar e tudo tão distante da nossa realidade…são verdadeiras enciclopédias de um saber prático!!
    Parabéns pela tua iniciativa Vera….

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