cremilda

84 anos

Quando pensei neste espaço fiz automaticamente uma lista de pessoas a entrevistar. Fui-as conhecendo em situações diversas e ficaram-me no pensamento. Uma delas foi Cremilda. Conheci-a há muitos anos, via-a regularmente num evento local composto por uma parte religiosa, piquenique e tarde cultural, o Dia da Paróquia. Uma pessoa ou grupo de cada aldeia apresentava e representava no período da tarde a sua terra. Eram músicas, peças de teatro, poesias, histórias, de tudo um pouco. Cremilda representava sempre a sua aldeia. Trazia sempre quadras, poemas de sua autoria sobre o que lhe apetecia. O que me fascinava, além da figura alegre e orgulhosa do seu papel, era a forma como declamava as suas quadras, aquele tom era mesmo de recitação. Com o tempo, noutros locais e noutras conversas percebi que é assim que fala, como se declamasse, com uma entoação poética, recitada.

Telefonei-lhe ao início da tarde, pois de certeza que a apanhava em casa. Não perde as novelas depois das notícias. São uma companhia, o acompanhar de várias vidas anima-a, cria-se ali uma ligação quando se vive sozinho. Disse-me que sim, que lá fosse. E eu fui.

Cremilda está viúva. Tem dois filhos, quatro netos e três bisnetos. São o que estima na vida.

Um exercício que faço nas entrevistas é pedir que me digam, olhando para trás, qual a fase mais bonita que recordam das suas vidas. A juventude não foi desta vez a eleita. Não. A fase mais bonita, para Cremilda, “é ver os bisnetos e netos com saúde, e que Deus os acompanhe. Vivo sozinha mas muito feliz”, porque os tem e sabe que estão bem.

Cremilda não teve uma vida fácil e percebe-se que a sua atitude lhe vale o ar radioso e alegre que tem.

Trabalhou no campo, foi mulher-a-dias, servente de pedreiros e costureira. Quando fala na costura, fala de um dom… “tinha tanta capacidade para isso, tanta roupa que eu fiz”. Consegue enumerar todas as localidades para onde fez trabalhos de costura e, nas redondezas, só houve uma aldeia para a qual nunca fez um único trabalho, não sabe porquê mas sabe bem que assim foi.

Nas entrevistas surpreendem-me muitas vezes ao guiar a conversa e eu gosto de ir onde me querem levar, às suas memórias. Disse-me “a minha vida de casada foi muito amargurada, o meu marido bebia muito e eu para orientar a minha vida e a dos meus filhos trabalhava dia e noite. De dia em casas na vila e de noite era agarrada à máquina (de costura)”.

Fala-me de algumas casas onde trabalhou na vila e explica-me que foi “no tempo em que levava cargos de roupa à cabeça para o ribeiro, não havia lixívias, era o sabão e punha-se a roupa a corar nos lameiros à beira do ribeiro ou naquela cascalheira limpa das ribeiras. Agora é uma beleza, há máquinas, lixívia. Naquele tempo era o sabão e as mãos a esfregar”.

 A escola e a escrita

Quando Cremilda passou da 1.ª para a 2.ª classe os pais tiraram-na da escola. “Tinha 9 anos e fui para a azeitona para o Tejo. O meu pai era lá como rancheiro e levaram-me para lá porque, com 9 anos, eu era nova mas tinha muito corpo”. Depois, continua “com 11 anos fui para a monda”. Interrompo-a. Para a monda, Dona Cremilda? Pois, para a monda, mondar o trigo, apanhar as ervas no meio do trigo no Alentejo. Eu com 11 anos já tinha corpo de 15”. E explica que “não havia plásticos, era com uma saca atada à cintura para não se molharmos no trigo quando ele já nos dava pelos joelhos e estava orvalhado. Fiquei lá 90 dias. Só não trabalhámos no dia de carnaval, nesse dia folgou-se e fomos para Campo Maior.

Volta ao tema escola, sempre. “Veja o pouco tempo que eu fui à escola mas o que aprendi nunca mais o esqueci. Dou erros mas escrevo muito. Escrevo cantigas, quadras, décimas, é de tudo um pouco”. Cremilda está sentada num sofá. Tem em frente a televisão e ao lado esquerdo um pequeno móvel onde me mostra vários cadernos preenchidos com textos seus. Não são apenas textos, são memórias, histórias, pensamentos, tudo o que lhe vai na alma e passa para o papel em rima, sempre em rima.

Uma relíquia. E remata, a sorrir: “Eu armava cada cantilhana”.

Questiono-a sobre este outro dom, o da escrita e responde-me que “vem tudo da memória, é engraçado mas é a verdade da vida”. E confidencia-me saber que “há pessoas aí na aldeia que me tinham zanga porque não lhes escorria nada”. Conta ainda que quando ia nos passeios e excursões “tinha sempre que inventar uma cantiga”.

Falamos nos passeios, uma oportunidade para as pessoas das aldeias darem, pelo menos, um passeio mais longe. Cremilda nunca mais foi a nenhum depois de viúva “porque também já tinha estes problemas nas pernas e custava-me a andar mas o que mais gostei de ir foi à Badoca (park)”. Porque tem animais diferentes daqui?Gostei tanto, aqueles animais todos a beber água naquele lago muito grande. Tenho aí uma história disso”. E aponta para os cadernos, pois claro!

A dureza da vida

Pergunto-lhe sobre o Portugal de hoje, diz-me que está mau, mas leva-me para o de antigamente. “Eu passei a crise, aquela crise da guerra de Espanha e da França com os alemães… quando andei na monda aparecia lá aquelas desgraçadinhas que fugiam da guerra de Espanha… aiii… eu cheguei a dar-lhes um casqueiro (pão) mas havia homens que abusavam delas, coitadinhas, algumas tão bonitas…”. Continua explicando que “O Salazar livrou-nos da guerra mas não nos livrou da fome. Eu quando trabalhava a dar serventia a pedreiros, na vila, quando dava o meio-dia desatava numa correria rua abaixo a buscar os meus 250 (gramas) de pão e vinha a roê-lo por ali acima. Chegava cá acima bebia água e viva o velho”. Não conheço esta última expressão e a própria Cremilda acha que a inventou, queria dizer que ficava contente. Ainda faz um reparo quando fala na correria e diz que quem lhe dera voltar a ter aquelas pernas para correr.

Continua e conta que “os meus pais eram muito rijos para mim e cortaram-me sempre as asas”. Explica que, ainda assim “sou muito paciente. Sou sofredora mas sei sofrer que Deus também sofreu por nós”. Explica ainda, a jeito de segredo para a vida que “há quem desanime por tudo e por nada, eu acho sempre que se hoje correu mal, amanhã é outro dia. Sou optimista”.

O casamento e o destino

Contou logo no início que o casamento não foi fácil mas é espantoso que não fala com mágoa, nem ressentimento. Casou com quem tinha de casar, porque acredita no destino. Cremilda acredita mesmo no destino e se algo não acontece como desejava é “porque tinha que ser”. Penso que é por isso que continua a acreditar sempre que o dia seguinte será melhor.

Cremilda começou a namorar com um rapaz que conheceu nos bailes (nos balhos) com 16 anos mas entretanto o pai adoeceu, nasceu-lhe um mal num pé a acabaram por lhe amputar a perna. Tinha dois irmãos muito novos e teve que ajudar a família. Deixou de ir aos bailes, esqueceu-se do pretendente. Uns anos mais tarde ele apareceu à procura dela mas rejeitou-o. Os pais dela também não o aceitavam muito bem. Recebeu entretanto uma proposta para ir trabalhar para Lisboa mas os pais não a deixaram. Cortaram-lhe novamente as asas. “Eles não deixaram e eu fiz chantagem com eles, ou me deixavam ir para Lisboa ou casava com ele. E eles disseram-me para casar com ele”. Ri-se e exclama, agora divertida com a sua própria história “Para eu não ir para Lisboa disseram-me para casar com ele, e eu casei”. E remata: “Para quê?… Tanto que eu sofri… era o destino”. Mas depois sorri, sempre.

Fé, família e futuro

Cremilda, que é zeladora da Igreja da aldeia há mais de 20 anos, tem uma Fé enorme. Diz ter “muita Fé em Deus e no Senhor dos Aflitos”. Aponta-me para as paredes e faz uma visita guiada às imagens de santos que tem, uns que comprou, outros que lhe ofereceram e diz “Sábado temos cá Missa”. Com 84 anos trata da Igreja, faz os Salmos e canta o Aleluia.

A conversa volta à crise quando diz que “isto os velhos, vem a reforma, mesmo pequenita, e a gente está habituado a comer de tudo… se eu comesse como algumas pessoas, do melhor, não me governava… gasto é muito com os medicamentos que os diabetes dão cabo da gente”. Conta que recebe de reforma pouco mais que duzentos euros e eu pergunto-lhe se lhe chega. “Tem que chegar… a gente tem que ogar* a boca com a bolsa e não dar o passo maior que a perna”. No meio da conversa falamos da crise e se se voltará a tempos difíceis como antes. Cremilda fecha a mãos, a jeito de prece, levanta-as ao céu e exclama, com aflição “Ai, Deus mos defenda”. O medo, aquela aflição tão sentida seguida de prece era pelos netos e bisnetos, que Deus lhos defenda…

Conta que come pouco, que às vezes coze grelos com ovo cozido, embora tenha peixe e bacalhau na arca “dá-me é a preguiça, só para mim chega. Ainda hoje veio aí a minha filha e até ralhou comigo porque não lhe disse que já não tinha conduto, nem queijo nem nada para comer com o pão mas eu pego no pão e ponho-lhe um bocadinho de azeite e gosto”.

A filha trouxe-lhe ainda uns pés de courgette, de beringela e de meloas para plantar. De manhã esteve a debulhar favas mas depois foi plantá-los. Frente à sua casa estão umas ruínas do que foi, como conta “a casa da gente mais rica cá da terra, uma viúva e uma solteirona”. É lá, dentro dos restos de paredes, fechado com porta, que tem o seu quintalinho onde, como diz “tem um bocadinho de tudo, para ir comendo, tenho lá couves, alfaces, batatas, alhos,muita couve boa para o caldo verde, é um bocadinho de cada coisa. As batatas semeei-as cedo mas já se queimaram duas vezes com a geada. Algumas ainda rebentaram. Tenho ervilhas, feijão, ainda hoje tive que apanhar as favas porque a rama já estava cheia de piolhos. Os meus filhos também me trazem batatas das deles e assim.

Sempre um passo à minha frente, adivinhando que lhe vou perguntar pelo seu dia-a-dia diz-me, quase que a jeito de conselho “Parar é morrer, se eu fosse a fazer a vontade ao meu corpo já estava paralisada.

Remata que estava um bocadinho em baixo mas que a conversa a está a distrair. Volta-se novamente para os seus cadernos e diz ter algures um texto sobre a vila. Ao longo da conversa leu-me e mostrou-me vários que lhe iam aparecendo ao folhear os cadernos.

Estamos a terminar e conto-lhe que sou amigas de duas das netas, que estudei e vivi com elas. Diz-me que ainda bem, que isso é muito bonito. Falamos de uma, depois da outra e eu digo-lhe que essa neta “é muito inteligente”, ao que me responde, sem falsas modéstias: “Olhe que ela tem a quem sair. Eu era de uma inteligência… se os meus pais me tivessem dado asas… mas cortaram-mas… Já viu o pouco que eu fui à escola e sei fazer contas de somar e subtrair e o que gosto de escrever… tudo me fica na memória”. E é bem verdade, o querer desta mulher é de uma força invejável que vai contra todos os muros que lhe quiseram levantar.

Cremilda, mesmo de asas cortadas voa alto, sonha ainda mais alto. Só começou a escrever depois de enviuvar e de se reformar “era para me entreter”, explica. E que maravilhosa maneira de passar o tempo, memórias de tudo e de há tanto tempo… tudo em rima, um tesouro muito valioso.

Um dos seus textos, sobre a água, deixou-me verdadeiramente impressionando. Fotografei-o e deixo-o aqui. Impressiona-me a inteligência com que o curso da água é explica em paralelismo ou metáfora com o amor, com o próprio casamento. Não são rimas tolas, avulsas, feitas de palavras que simplesmente rimam. Não, estas são rimas mesmo inteligentes:

Cremilda tem esta particularidade no nome de fugir à sua forma mais tradicional, Cremilde. Perguntei-lhe porque é assim e diz-me que foi o nome que lhe quiseram por.

Cheguei a casa e fui procurar o seu significado. Concluí que, para esta mulher que tanto acredita no destino, foi com ele que lhe chegou este nome, que só podia ser o seu. Cremilda que significa “a que combate com capacete: Pessoa charmosa, amável e expressiva, muito criativa e um tanto curiosa. (…) Sempre de bom astral (…). Só tem um problema em enfeitar demais a realidade (…).”

Cremilda, a fazedora de histórias. Cremilda, a optimista. Cremilda é e será sempre, antes de tudo, Cremilda a combatente. Porque combate tudo com optimismo e ainda conta a história com a dedicação das suas rimas.

Porque uma conclusão é sempre um ponto final, esta história fecha com um grande ponto de exclamação, de espanto. Perceberão quando ouvirem, no áudio seguinte, a sua história de vida escrita, decorada e contada pela própria, em quadras, claro está.

Desfrutem e aprendam, « aqui »
 Obrigada, querida Cremilda, (desde sempre) a combatente!

* Ogar: De augar, de áuga, forma de se dizer água. Ogar é dar água, aguar.

elisa

90 anos

Começava o dia 5 de Outubro de 1945, eram 6 da manhã quando a camioneta sardinheira chegou à pequena vila do interior. Trazia sardinhas e pessoas. Uma dessas pessoas era Elisa.

Eram 6 da manhã de 5 de Outubro de 1945 quando a nossa Dona Elisa chegou a Mação.

A riqueza de uma vida aparentemente simples mede-se, pesa-se e soma-se no valor da visão e da posição das pessoas sobre a própria vida.

É pelo modo de estar, de ser, e de ver, que a vida da Dona Elisa é de uma riqueza incrível.

Surpreendeu-me aquela serenidade com que me disse “cheguei a Mação às 6 da manhã do dia 5 de Outubro de 1945, na camioneta sardinheira. Tinha saído de Lisboa às 10 da noite, num autocarro até Belver onde aguardávamos depois a camioneta que ia ao comboio buscar as sardinhas e nos levava então para Mação”. Era assim que se vinha de Lisboa para Mação em 1945.

No dia em que chegou a Mação realizava-se o funeral do até então director do Colégio onde vinha dar aulas. Não foi ninguém recebê-la por esse mesmo facto. Recém-licenciada em Línguas Clássicas na Universidade de Lisboa chegou assim à pequena vila do interior que diz ser,  à altura “um meio pequeno cujo grande evento era a Feira dos Santos neste largo onde hoje vivo e onde não havia nada, aliás, nada do que existe hoje além do centro histórico, nada disso existia, lembro-me e acompanhei a construção de tudo isto que forma hoje a vila”.

Elisa nasceu há 90 anos em Angola. Com 6 foi com os pais para a Ilha do Príncipe onde viveu até aos 10 anos. O pai era funcionário dos quadros de São Tomé e Príncipe e andava sempre lá e cá. Cresceu até aos 10 anos numa Ilha em que era a única criança branca. Teve apenas um amigo na sua infância, um pretinho que era filho de um casal de empregados da casa dos seus pais e a quem uma vez enfiou uma tigela na cabeça e cortou o cabelo. Rimo-nos.

Na sua infância não brincou muito pois, além da falta de companhia, a tosse convulsa levou-a a quebrar e usou até aos 13 anos uma funda* “cresci fundada, com um género de cinta atada na cintura, talvez por isso tenha ficado com esta forma pequena.” A mãe não a deixou operar porque o hospital da Ilha não tinha condições.

Com 10 anos foi para Lisboa pois na Ilha não havia escola. Esteve primeiro em Lisboa e depois em Coimbra. Voltou para Lisboa para a Universidade. De Lisboa foi colocada como professora na pequena vila do interior onde ainda hoje vive.

Dona Elisa, a Professora

Perguntei-lhe quantos anos leccionou. Fê-lo com prazer, uma quase devoção e inteira dedicação entre 1945 e 1991 quando foi obrigada a reformar-se, “praticamente expulsa pois o limite de idade já tinha sido atingido. Tinha 70 anos. Eu não queria” E alunos, quantos foram? Sorriso na cara e a óbvia resposta “milhares… acompanhei três gerações de famílias, dos avós aos netos…”. A sua história cruza-se, de facto, com a da vila, histórica, social e arquitectonicamente. “Quando cheguei o Colégio (privado) era na Quinta. Vi construir-se o novo, passámos para o edifício novo. Entretanto o Colégio deixou de ser privado, passámos para o Ensino Oficial, tive sorte e contaram-me os anos do privado e efectivei na Escola**”. Esta Professora, que foi também a Directora conta ainda, divertida que “o curso permitia-me leccionar Português, Francês, Latim e Grego. Grego nunca dei, as outras sim mas, quando foi preciso, dei ainda aulas de História, Geografia, Ciências, cheguei a dar Inglês, mas só uns meses que é língua de que não gosto. Eu parece-me que só não dei aulas de Matemática… e Desenho, que isso seria uma desgraça… Isto no Privado, depois no Oficial foi o Português, a Geografia e a História”.

A mim deu-me História, no seu último ano no ensino. Tinha uma vareta que esticava, tipo antena, para apontar no quadro. Diga-me lá, D. Elisa, era muito exigente, não era?!  A resposta vem séria e segura: “Eu acho que não abusava e sempre tive muitas manifestações de amizade, ainda hoje antigos alunos que já são avós têm-me muita consideração. Posso dizer que nas reuniões havia professores com queixas de alunos e eu nunca tive uma queixa sequer.” Com a seriedade do acreditar reflecte: “Procurei sempre, na minha consciência, não prejudicar os meus alunos, não os fazer passar pelo ridículo e não fazer comparações, por exemplo entre melhores e piores notas. Nunca.” Falamos quase de uma fórmula? “Se calhar, tratei-os com respeito e eles respeitavam-me a mim. Tive colegas, dessas que ficavam aí colocadas um ano, que até se sentavam na mesa… não se davam ao respeito e não eram respeitadas. Não eram todas… Nos últimos anos eu já percebia que a pouca disciplina dos alunos se devia à pouca disciplina dos professores. ”

E hoje, Dona Elisa, que ideia tem sobre o Ensino em Portugal?Está tudo muito baralhado. Pelo que vejo, leio e falo com as minhas colegas, que já somos poucas vivas (e ri-se), o que acho é que o ensino antes era muito fechado, depois abriu muito e teve um efeito tipo 25 de Abril”. Tipo 25 de Abril ou devido ao 25 de Abril?Tipo, tipo 25 de Abril, primeiro era muito fechado e depois não soube o que fazer com a liberdade e desorganizou-se, baralhou-se. Por exemplo, antes as licenciaturas eram muito poucas mas com mais conteúdo, hoje há licenciaturas em tudo e mais alguma coisa. Haver mais cursos não prejudica mas há menos exigência. Mas há o lado bom, o ensino em Portugal abriu-se ao mundo, em 1991 os programas já eram muito melhores.

Saúde e Família

Falamos da sua lucidez, excelente memória e saúde. Diz que nunca teve grandes problemas de saúde “mas ando muito controlada… tomo alguns comprimidos que também não sou um milagre, mas não tenho diabetes nem colesterol, posso comer de tudo. Gosto muito de café e de chá, o médico disse que só posso beber 4 bicas por dia e não me tira o sono”. Rimo-nos, o ir à bica, hoje com mais dificuldade e a ajuda da bengala é uma das imagens do quotidiano da vila. Pergunto-lhe qual a fórmula desta longevidade e responde-me que deve estar na origem dos pais, “um de Avis, outro de S. Martinho do Porto, a junção destas origens deu-me saúde” e ri-se de novo. Depois confessa que os nervos é que a deixam um bocadinho em baixo. Conta que no final do curso teve um esgotamento. “Escrever a tese, preparar os exames finais e dar explicações para ajudar a economia familiar esgotou-me, cheguei ao último exame, o de Latim, e bloqueei. O Professor foi muito compreensivo, tive sorte. Ainda hoje tenho alguns problemas com os nervos, as pernas não acompanham a cabeça e isso enerva-me, revolta-me.” Assume alguma culpa e diz que “quando me reformei parei muito, foi o meu erro.” Ainda assim, esta fantástica mulher de 90 anos ia, com 84, de Expresso para o Porto, para Lisboa e para as Caldas da Rainha visitar os primos.

Não bebe leite, nem iogurtes e o queijo, só fresco. Mesmo assim, nunca partiu um osso. Fala de uma queda que deu há uns anos, desequilibrou-se e caiu um vão de 8 degraus. Malgrado todo o sangue que deitou só cortou uma sobrancelha e rebentou uma veia na perna, da qual já nem há marca. “Tinha ido à festa do Sr. das Encruzilhadas, foi ele que me ajudou”. Ri-se de novo.

Muita gente desconhece a história desta Professora que abraçou Mação. Quando o pai se reformou veio também para a pequena vila, porque lhe agradou o sítio. Veio o pai, a mãe e uma tia. O pai morreu cá em 1951, depois foi a mãe e por fim a tia. Filha única que era, nunca casou e optou por ficar, visitando regularmente a família. Ainda tem alguns primos vivos.

Quando Elisa se mudou tinha uma empregada, uma cozinheira, que teve uma filha. Elisa viu essa filha crescer lá em casa. Cresceu, casou e teve uma filha, Fatinha, que é como se fosse também sua filha e os filhos desta, são os seus netos. O dia-a-dia desta família fazia-se muito na casa da Professora D. Elisa. Hoje é com eles que vive. Fatinha, que é neta dessa sua empregada  tem a sua casa, a sua família, mas vai todos os dias visitar os pais e Elisa, chamada em casa carinhosamente por “Li” e aos sábados, sempre que pode, leva-a a beber a bica. Uma história simples a da sua família do coração que, como diz, “Graças a Deus encontrei”.

90 anos

Dona Elisa, como é hoje um dia na sua vida? “É muito rotineiro, fechado. Vejo televisão, leio alguma coisa mas a vista já não quer muito. Graças a Deus que me levanto todos os dias e ainda faço a minha cama.” Para não dar trabalho, entenda-se! Todos a associamos aos passeios pela vila, a ida à bica e buscar umas compras mas diz que hoje já não o faz diariamente por causa das pernas. E do frio, “com frio não saio, não me constipo há 2 anos. Mas por causa do frio, ao não dar um passeio as pernas ficam piores”. Também já só sai de tarde pois deita-se tarde e não se levanta cedo. Um passeio de manhã, devagarinho como anda, podia atrasá-la e o almoço é pontualmente ao meio-dia. Conta que quando sai lhe dizem “Vá devagarinho”. Ri-se e responde “Vou, vou”, com isso não se preocupem!

A sua vida foi sempre “casa-colégio e colégio-casa, nunca me inseri muito na sociedade, société, como dizem hoje, mas quando saio toda a gente me fala, antigos alunos, mães de antigos alunos, tenho alunos antigos que quando me vêem, se pudessem, andavam comigo ao colo”.

Gosta de livros, leu ultimamente o Rio das Flores e mais dois de Miguel Sousa Tavares. “Gostei muito do Rio das Flores e o último que li foi Mataram o Sidónio, do Moita Flores, aprendi muito da história sufocada da 1.ª República, da justiça e da política, coisas de que desconfiávamos. Gostei muito.”

Evoca e agradece a Deus muitas vezes na nossa conversa e diz que “sim, acredito em Deus. Não sou praticante mas sou Católica. Talvez a vida não me tenha levado a ser praticante, mas pratico interiormente”.

Aos mais novos deixa um conselho simples, uma pequena aula para a vida “que tenham confiança em si próprios, sejam honestos, rectos, respeitosos. Procurem seguir os bons exemplos dos pais e preparem o futuro. Trabalhem, tenham juízo. Sejam honestos e sinceros”.

Elisa, sempre Dona Elisa, sempre daqui, sempre por aqui. Nunca lhe chamam, não sei porquê, Professora Elisa. Dona, sempre Dona, mas com o respeito que se lhe deve, como que a dizer, a jeito de reverência: Senhora Dona Elisa. Elisa, a Professora. É “Li” junto dos seus. Elisa, a nossa. Elisa, a Eterna Dona Elisa.

Mais de duas horas de conversa, maravilhosa conversa e trazem-me para eu ver, num canudo de ferro, já a querer enferrujar, O Verdadeiro Canudo, que eu nunca tinha visto um assim. Lá dentro, com data de Junho de 1945, escrito à mão e em Latim, assinado pelo Reitor da Universidade de Lisboa, está o seu Diploma de Licenciatura. Juntam-se-lhe vários Diplomas de Mérito. Vem depois a Pasta das Fitas, estimada, amada, uma recordação de valor incalculável para a doce Elisa. Um tesouro só visto e partilhado em família. Quase que tremo com tão honrosa partilha. Peço-lhe uma fotografia. Ri-se, “agora quer tirar-me uma fotografia com o Diploma”. Acede e eu tiro.

Elisa, a nossa pequena, tão grande, Dona Elisa posa nesta fotografia com o seu Diploma e a Pasta das Fitas. Foram estes símbolos que um dia, em 1945, lhe disseram que sim, que podia vir até nós, que a trouxeram à pequena vila do interior. Foi este Diploma que a fez chegar-nos no dia 5 de Outubro de 1945, às 6 da manhã, na camioneta sardinheira.

Quando me despedi dei-lhe dois beijinhos. Depois mais dois e a promessa de uma visita em breve. Na rua já queria escurecer, o frio chegou-se ao meu rosto mas o calor no meu coração afastou-o. Não sinto o frio. Sorrio. Começo a ficar preocupada pois nem sei por onde vou começar a contar tão rica história.

Agora já está. Obrigada Dona Elisa, Elisa, a Eterna.

Muito Obrigada!

*Cinta, faixa atada à cintura

** Esta escola já está desactivada e há já uma nova

antónio

 82 anos

Há quadros perfeitos como descobrir uma casinha de rés-do-chão com jardim que resiste no meio dos prédios de uma cidade. Ou um campo todo cultivado, perfeitamente alinhado, cada cultura arrumada no seu quadradinho de chão.

Há quadros reais, que nos passam por vezes despercebidos, de uma perfeição avassaladora. É o mesmo com as pessoas.

Quem passa numa das ruas principais de Mação sabe onde fica o barbeiro, sabe quem é o Sr. António. Passa e sabe, porque está lá. Mas olhar com olhos de gente… Ver… isso é que é uma surpresa. Hoje fui surpreendida. Pelo Sr. António. Da barbearia.

António tem uma figura muito bem tratada, mais a sua bata branca. Quem passa à porta da barbearia percebe-lhe os anos, do dono e da barbearia. Ali dentro tudo parou e faz parte do tal quadro perfeito. O Sr. António, esse atravessa o tempo, cresce e aprende com ele. Actual, esperto, informado. De uma lucidez invejável.

Entrei na barbearia e percebo que nunca lá tinha realmente entrado. Pergunto-lhe se lhe posso fazer uma entrevista e acede. “Pode ser agora, não demora muito, pois não?” E começamos. Quem começa com as perguntas é ele. Que tive um filho há pouco, quantos já são e se sou da idade da filha mais nova. Respondo que devo ser 2 ou 3 anos mais nova. António abre a carteira, puxa de uma folha branca que desdobra e começa a ler as idades dos 4 filhos. Eu sorrio e pergunto se são as datas e aniversários dos filhos. Ele ri-se “Filhos e netos que a cabeça às vezes já não se lembra de tudo”. Falamos um bocadinho dos filhos. Tem três raparigas e um rapaz. Tem também quatro netos, três rapazes e uma rapariga.

Voltamo-nos para a sua vida, uma vida de 82 anos ele diz-me que “foi uma vida sempre a trabalhar. Saí da escola com 11 anos e fui aprender a alfaiate e a barbeiro. Ainda andei a fazer feiras mas nunca tive jeito para vigarista e dediquei-me à barbearia”. Mas como é que aprendeu duas profissões?Foi no Manel Silvério, o meu Mestre, tinha a casa aberta ao pé da Igreja. Lá faziam-se barbas, casacos e capotes. Era eu e outros lá a aprender. Só o trabalho dos domingos dava para nos pagar, o resto era tudo para ele. Ia-me prometendo sociedade e isto e aquilo e nada. Com 22 anos escapei a caminho de Lisboa a comprar esta cadeira (a de barbeiro) e estabeleci-me”. Explica-me onde foi a primeira barbearia e a luta que foi comprar a casa onde está há mais de vinte anos. António gostava do sítio e falava ao dono para lha vender, ele não a vendia e servia apenas para barracão. “Quando ele morreu a viúva depois adoeceu, o filho estava no Brasil e eu agarrei em 10 contos e fui entregá-los ao que tomava conta disto. Entretanto estavam outros interessados mas eu já tinha dado a entrada. Tive que ir fazer a escritura já ao Hospital, onde estava a viúva”. Vai buscar um dossier e mostra-me a escritura.
Dedicamo-nos à cadeira. A que foi buscar a Lisboa, aos 22 anos.

Comprei-a na Calçada da Boa Hora, agora parece-me que há lá um supermercado. Depois de a comprar tinha que a trazer para cá e um primo meu que era lá polícia é que me ajudou. Arranjou o transporte, mas tinha que vir num caixote. Tive que a desmontar e quando a recebi cá, montei-a outra vez.” Na cadeira, gravado a ferro lê-se Pessoa – Lisboa, pergunto-lhe o que é e explica-me que “esse António Pessoa pensou na cadeira, registou-a e mais ninguém podia fazer este modelo”.

Sobre as barbas que já por ali passaram diz-me, a sorrir, que já foram milhares e conta que “às vezes acordo de noite e ponho-me a pensar… só na Rua de S. Bento, da Capela à Igreja, só dessa rua já tive ao longo dos anos mais de duzentos clientes, agora não há lá quase ninguém”.

Sente muitas diferenças do antigamente para hoje?Eu cheguei a fazer barbas a 10 tostões… isto evoluiu muito. Mas as pessoas vão fugindo daqui…” Depois confidencia-me: “Eu devia ter ido para o Brasil mas a minha mãe disse-me que tanto arranjava dinheiro lá como cá, tinha é que trabalhar.

Falamos sobre o Portugal de hoje e diz-me que “é só exploração, tanta gente desempregada, é impossível que isto vá para a frente. Os grandes comem tudo e os pequenos é só serem explorados. Os mais novos têm que ir para fora. Deviam era apoiar as empresas para haver trabalho, mas é ao contrário. Agora até os hospitais querem fechar… mas isto tem algum jeito?…

Deixamos Portugal lá fora. Como é um dia seu? Levanto-me de manhã, como uma banana e tomo o comprimido.E acrescentaPara a tensão, diz o médico. Vou até à horta. Lá cultivo de tudo, batatas, cebolas, couves, feijão, é tudo. Às 10 horas venho a fugir para cima bebo um copo de leite e um papo-seco e venho abrir. Fecho para o almoço e depois é até às sete.” E gosta de andar na horta? “Cultivo de tudo e tenho 2 cabritas. A surpresa… tem duas cabras? A mulher faz dois ou três queijos, dão os cabritos, fazem o estrume para a horta e são um entretém”.
Fico absolutamente maravilhada com este relato. Com esta energia. Nunca pensei que António, o barbeiro de bata branca ia diariamente à horta e cuidava de duas cabritas que, feitas de contas, têm várias utilidades…
Casou aos 28 anos. Pergunto-lhe como se mantém um casamento 54 anos e ele, sem fórmulas mágicas, diz simplesmente “É fácil. Tem sido fácil… damo-nos bem!” Falamos dos filhos que “trazem muita felicidade” e diz-me que “primeiro só vinham meninas e eu disse ao médico ó doutor, como é isto e ele respondeu-me para continuar a tentar… e lá veio o rapaz”. Ri-se.

Falamos então sobre a escola, de onde saiu aos 11 anos. “Fiz a 4.ª classe e tive que sair. O meu pai morreu muito novo, com trinta e poucos anos e a minha mãe não podia pagar mais, tinha três filhos”. A mãe…. Pausa e diz-me “Ela morreu com 87 anos, foi uma mulher incansável”.

Continuamos a falar da mãe. “Aprendi muito com ela, era muito inteligente. Tinha um forno, cozia pão para outros e mesmo na altura da fome nunca nos faltou pão. A rapaziada do meu tempo assava umas batatas e umas cebolas com um ferro ao lume mas pão não tinham… não havia.” Conta-me, relembrando o tempo da fome que “O Salazar, no último discurso que fez disse hei-de ver se vos livro da guerra, mas da fome não prometo. Nas casas, uns tinham sobejos de batatas, outros azeite e as pessoas trocavam, dou-te isto e dás-me aquilo e era assim”.

Conclui: “Deus queira que não se volte a isso. As pessoas criavam 8 e 9 filhos e hoje diz-se que tudo se criava… criar, criava, mas era descalços e esfarrapados.

Lembra-se entretanto de outra situação impressionante que me conta. “Nas mercearias… – os homens iam para a ceifa para o Alentejo – e nas mercearias vendiam fiado às famílias. Um dia perguntei ao dono de uma mercearia como é que fazia a vida a vender fiado. Ele explicou-me que quando os homens voltavam da ceifa com o dinheiro e iam pagar a conta ele levava mais 10% de juros. Ora, ficavam logo sem dinheiro e voltavam a comprar fiado. Eu disse-lhe que ele assim fazia fortuna depressa…”.

 A hora para o almoço já tinha entretanto sido ultrapassada e pergunto, para finalizar: Diga-me só mais uma coisa, acredita em Deus? Sim, sim. Acredito que há um Ser Superior. Uma cadeira sabe-se quem a fez mas este globo que nos cerca… isto não é coisa do homem. Deus… nunca o vi, mas acredito.”

 António despe a bata branca e preparamo-nos para sair. Sei que podíamos ficar ali o resto da tarde, não quebrasse a rotina. A mulher esperava-o com o almoço na mesa. António, que passa pelos tempos e os acompanha. António, uma maravilha de conversa e de memória. António, 82 anos mais a sua cadeira que já conta uns 60. António, o Iluminado barbeiro. Aquela barbearia é agora para mim um novo espaço. Vezes que lá passe será agora, sempre, um quadro perfeito.

 Obrigada António, o Iluminado, pela paz, pelo saber, pela memória e pela lucidez.

maria

92 anos

Já a tinha visto na rua vezes sem conta e achava-lhe graça. Porque a tem. Fazia-me lembrar uma bonequinha de trapos em forma de gente. As camadas de roupa a resguardá-la do frio. O avental por cima. O xaile de malha pelas costas e o lenço atado à cabeça. Tal e qual uma bonequinha de trapos.
Dizia-lhe bom dia, boa tarde e ela respondia-me. Umas vezes passava por ela no passeio, com a sua bengalita, uma bengala baixinha a amparar as costas já curvas, ela já de si tão pequenina. Outras vezes via-a sentada num dos bancos que asseguram, nos passeios da rua principal os momentos de descanso. Ou simplesmente de se estar.
Até ao dia em que me sentei junto dela, num dos bancos. E fiz conversa. E ela retribui-me a conversa com uma graça indescritível. Fizemos as apresentações e conclui que lhe conheço a família e não sabia que ela era deles. Ela ri-se, gosta que eu lhe conheça os filhos e os netos.
Nesse dia eu disse-lhe que estava frio e ela explicou-me que “lá nos ermos a gente tem o lume, acende-o ao fim da tarde a aquece-se ali. Na vila não se acende o lume, até se usa o fogão para fazer a comida, não sabe ao mesmo“… Eu sei que ela tem razão e digo-lhe que sim, que a comida feita ao lume é outra coisa. Quando nos despedimos ela disse-me: “Obrigadinha pela visita“… Devia ter-lhe falado mais cedo. Ela gosta e eu também. E não custa nada fazer-lhe uma visita!
Dias depois marquei entrevista com ela. Deu-me o tempo, levou-me os ensinamentos, comoveu-me. Fez-me rir, perdeu-se um bocadinho e lá viajámos no tempo. Levou-me pela mão de uma memória ainda boa mas que já teima em repetir-se. Uma maravilha, ainda assim, para a nossa D. Maria que, aos 92 anos, tem memórias que o tempo não pode perder.
Há dois ou três temas que vai sempre buscar, qualquer que seja a pergunta. O tempo que trabalhou na fábrica de lanifícios, a família e o tempo que se demorava a pé de casa até à vila. Uma hora.
Maria, 92 anos. Dois filhos, dois netos e dois bisnetos. Viúva, pequenina, rija, uma verdadeira bonequinha de trapos com bengala.

Maria, a cheia de graça

Quando nos reencontrámos eu quis saber, no seu quase século de vida, qual a melhor fase por que passou. Diz-me que “o melhor é quando se é nova, ali com 24, 25 anos. Vinha da aldeia para a Vila para trabalhar e descobria os campos. Todos os campos tinham um nome e estavam bem tratados”. Parece-me que aquela ligação aos campos era quase com uma relação interpessoal, de reconhecimento, de perceber que há ali algo que cresce, que evolui, que dá frutos, que está tratado, há quase uma interacção entre a pessoa e a terra.
Quis saber se tinha preferido viver numa cidade. Diz que não, que gostava de andar no campo. “Fui criada assim… Um dia dizia às vizinhas: Hoje vou para o Albardeiro, amanhã para o Porto, depois para o Ribeiro, cada horta tinha o seu nome…“. Repete esta ideia várias vezes, como se ao recordar regressasse um bocadinho àquele tempo, sete ou oito décadas atrás…

Casamento
Perguntei-lhe como se namorava noutros tempos, e a D. Maria respondeu-me a sorrir: “Quer dizer, quando se chegava ali aos 15, 16 anos a gente começávamos logo a andar com a cabecita no ar. Depois, ali nos 20, 21, 22 ou 23 é que já falávamos com eles e depois casávamos“. Contou-me que namorou 3 anos. Ele era de uma aldeia vizinha e vinha à dela aos “balhos” (bailes) e foi lá que se arranjou o namoro. E diz-me “ele tratava-me tão bem, tão bom, era muito bom para mim, ele gostava tanto de mim e eu dele, mas ele não era trabeco (de trabucar, de falar), eu era mais divertida“. À pergunta sobre os anos que estiveram casados responde-meeu agora directamente já não sei dizer… Ele era um santo, o Zé. Nunca me rogou uma praga!”.
E o casamento, como foi a festa? Conta que o casamento foi na aldeia dela, o Padre ia lá dizer Missa e eles foram confessar-se ao Padre que depois os casou. Os convidados foram os irmãos, cunhados, primos, a família. E remata vaidosa: “Foram dois dias de boda“.
Para a boda matava-se uma cabra que se guisava. Fizeram-se Bolos dos Santos e o baile não falhava. Ó Dona Maria e o vestido de noiva?Olhe, eu ia bonita, que era para parecer bem às pessoas. Foi um dia tão alegre…”
Uns anos depois de estar casada vieram os filhos e ela explica-me que teve um rapaz e uma rapariga. Depois o rapaz teve uma rapariga e a rapariga teve um rapaz. Saudosa, exclama: “é um tempo que abala e já não volta, era um tempo muito alegre quando eles eram pequenos. A alegria da casa são os filhos. Depois, olhe, depois eles crescem e também se aborrecem da gente e depois têm os filhos deles com quem se divertir“.
Sem tempo para outra pergunta, continua na viagem às suas memórias e exclama “O meu homem era muito bom para mim, a minha mãe não teve sorte nenhuma com o marido. Ao domingo ele vinha à vila falar com os homens para irem para a ceifa e vinha um pagava, outro pagava, outro pagava, (faz uma pausa, olha para mim e explica: vinho. Eu  aceno com a cabeça, sei do que fala) ele bebia muito e ficava quente e quando chegava a casa gritava muito e depois os vizinhos vinham mandá-lo calar“. Não a interrompo, que ela agora está longe… “Ele arranjava grupos de homens lá na terra, grupos de 40, 50 homens para irem para a ceifa do trigo nas fazendas daqueles grandes lavradores no Alentejo. Ficavam lá aos 40 dias“.
Pergunto-lhe se se vivia melhor antigamente ou agora e a resposta é clara como os seus olho.Bem, isto agora o tempo é outro, há coisas que não havia e as pessoas eram mais atrasadas, mas isto hoje ainda pode piorar… O tempo não estava muito ruim mas agora estes malandros a roubar… até se matam uns aos outros”. E desabafa: “oh que raio é isto…” e pausa. Quando volta à conversa diz-me: “Da maneira que isto se vai a preparar parece-me que isto acaba depressa, matam-se uns aos outros. Isto está uma vida desgraçada. Antigamente não havia tanta desgraça como agora”.
Voltamos à sua meninice e pergunto-lhe sobre a escola. Diz que não andou na escola, eram quatro irmãos, um rapaz e três raparigas. “Das raparigas só a mais nova é que foi andar à escola, eu fui nova guardar gado, que os meus pais também eram muito pobres”.

As engenharias do saber

E gostava de andar com o gado?Tinha que gostar. Quando chovia molhava-me toda. Tinha um gabão”. Interrompi-a: o que era o gabão.”Era um capuchinho que vinha atar aqui à frente com um ou dois botões. Tinha uma abeira enfiava-se um baraço para atar e fazia uma capa comprida em fazenda”. Pela explicação penso que o gabão deve vir de capão, de capa grande que consistia no tal capuchinho a cobrir a cabeça que ligava a uma capa grande que cobria parte do corpo e a tal abeira seria a aba onde se enfiava o cordel para atar ao pescoço e que ligava a capa ao capucho. Conta-me entretanto que as fazendas, os tecidos, para fazer este e outro vestuário era tudo feito em casa, teciam os próprios tecidos para costurar. No final diz-me “as pessoas eram mais atrasadas mas ensinavam o que sabiam umas às outras”.

E voltamos ao gado. “O meu patrão dizia-me para ir levar o gado a tal parte, que as terras tinham nomes, e que voltasse às tantas horas. Mas eu não tinha onde ver as horas. Sabe como é que se fazia? Ao meio-dia a fábrica na vila apitava e quando ela apitava eu espetava um pau no chão e marcava um risco onde fazia sombra, era o meio-dia, depois já me sabia regular nas horas. Às vezes nem era preciso o pau, era com a sombra de algum palheiro. Até com a mão, pela sombra dos dedos” (e faz o gesto com a mão a formar cova e com o polegar no ar). Diz-me ainda que as pessoas se guiavam muito por sinais, pelo sol… e conclui “antigamente eram espertos”.

No nosso primeiro encontro falou-me logo no trabalho na fábrica, penso que a orgulha ter tido aquele trabalho. Pelas suas contas foram uns vinte anos na fábrica grande da Vila. Depois de casada ainda lá trabalhou mais oito. Explica-me as tarefas que desempenhou. “Fiz de tudo. Trabalhei na fiação, atava os fios que formavam as maçarocas de onde depois se enchiam os fusos. Gastava uma hora a pé de casa até ao serviço. Vinha com uma irmã minha. Trabalhei ainda na retrocedeira, na esfarrapadeira e na caneleira”. Volta a dizer que gastava uma hora a pé. Começa a ficar cansada.

Desafio-a, para concluir, a dizer uma moda antiga. Ela diz que sabia muitas, era muito divertida e começa:
Fui ao mato, fui à lenha,
Fui-me deitar a afogar…”
E pára. Não se consegue lembrar do resto. Eu digo-lhe que noutro dia falamos das cantigas e dos versos e ela explica-me: “Sabe, o cérebro gasta-se”. E sorri.

Depois da entrevista já a vi mais duas vezes sentada num dos três bancos no passeio da rua onde vive a filha. Reconhece-me mas não sabe bem de onde. Volto a apresentar-me e da última vez já me associou à entrevista. Diz que gosta muito de conversar, que quando está sozinha a cabeça começa a pensar noutras coisas. Ficamos um bocadinho à conversa, repetimos os temas e no final Maria, a cheia de graça, despede-se, “Obrigadinha pela visita”!

De nada, Dona Maria, foi (é sempre) um prazer!