belmira

belmira

95 anos

“Éramos muito pobres mas eu semeava os tremoços, cozia-os, punha-os no poço a adoçar e quando estavam bons ía à Vila ao Domingo e vendia-os à porta da Missa. Com o dinheiro de os vender ía comprar umas mercearias mas quando chegava a casa não se comia o açucar. O açucar vendia-o às vizinhas, mais caro do que o que tinha custado, rendia. Para adoçar o café do desajum(1) a minha mãe cozia as passas dos figos. Com essa água, que ficava doce, fazia-se o café. Era o mesmo para fazer a mexuda(2)“.

Nesta única frase, das mais duras, verdadeiras e espertas que já ouvi, percebe-se a rudeza de uma vida que se foi fazendo a pulso. Conseguiu, com o trabalho do campo, criar a casa onde ainda mora e onde guarda todas as suas memórias. Uma delícia de se ouvir, Belmira também gosta de dizer das suas coisas. Praticamente cega custa-lhe particularmente a viuvez. Estar sozinha é que lhe custa, a esta mestre em economia doméstica. Belmira, a Doce, muito mais do que o açucar que mal provou.
É por causa de pessoas como Belmira, a Doce, que eu gosto de viver aqui, pelo privilégio de as poder conhecer.

(1) pequeno-almoço

(2) doce muito tradicional feito com abóbora

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manel

manel

77 anos

“Trocávamos os presuntos(1) por toucinho vindo da Argentina.”

“A primeira vez que comi ovos estrelados foi na tropa, em casa criavam-se as galinhas e vendiam-se os ovos, que davam um dinheirito.”

“Havia era o açucar amarelo mas diziam que era feito de ossos de burro.”

O Ti’ Manel é a gargalhada em forma de gente. Uma boa disposição constante. O sorriso é mais do que uma imagem de marca, é ele, no todo. Ti’ (de Tio, sem o ser, porque o conheço toda a vida) e não tenho uma memória dele que não seja a sorrir. Ti’ Manel, o Bem Disposto.

(1) Prática da maioria das casas. As famílias mais pobres criavam um ou dois porcos e quando os matavam trocavam os presuntos por toucinho. Um presunto rendia uma boa quantidade de toucinho, que se salgava, guardava e acompanhava/fazia a maioria das refeições.

nazare

nazare

81 anos

“No Alentejo só comia o capacho(1) e andava trinta dias a ceifar.”

“Se fossemos a esclarecer tudo desde os meus oito anos(2) que vinha trabalhar a pé, descalça, e nem um guarda-chuva havia que a gente não tinhamos dinheiro…”

“Isto está mau mas os de agora se voltassem ao tempo de antigamente não resistiam.”

Nazaré deixa-me sempre a dúvida. Não sei se lhe chame a Rija, ou a Optimista.
Tudo o que lhe ouvi foi dito com alegria, com força, nada a demove, nada lhe retira a voltade de fazer, de dizer ou simplesmente de ser… e sempre com optimismo. Nazaré, uma lição de vida em forma de pessoa. Tão, mas tão optimista…

Ao escrever e ao relembrá-la ocorre-me … Será Nazaré, a Matriarca!

(1)Gaspacho

(2) Idade média de se começar a trabalhar. Ajudar nos trabalhos de casa era ainda mais cedo. Aos oito, nove anos ía trabalhar quem tinha a sorte de ter feito a Escola Primária, senão era antes.

No princípio era o Verbo

Este novo espaço rege-se por 3 verbos. Os principais.

Parte do acto de me sentar frente a uma Pessoa que me dedica algum tempo para que a possa Ouvir.
Como uma folha em branco deixo-me preencher pelo que tem a Dizer.

O objectivo é a recolha de vidas replectas do Verbo Ser.

Começaremos em breve esta caminhada que está no seu momento zero, no ponto de partida, certa de que hoje e sempre, no princípio era o Verbo…

Obrigada por aperecerem!

Vera Dias António