teresa

teresinha

85 anos

 

Esta história é uma das primeiras em que eu não sabia ao que ia. Disseram-me que tinha, porque tinha, que falar com a D. Teresa. E eu fui. Em boa hora. Esta é a história de Teresa, Regente Escolar desde o início da década de 50 do século passado. Já está reformada quase há 30 anos mas lembra-se de muito, muito mesmo, do que viveu. Desculpa-se que já lhe faltam algumas lembranças mas sabe, por exemplo, que em Casas da Ribeira todos os anos tinha 22 alunos e só um ano é que teve apenas 17.

Teresa, figura pequena e de uma simpatia enorme é muito bem conhecida na Vila. Dá as suas caminhadas, faz as suas compras e vai à Missa, quase sempre de braço dado com a sobrinha Céu, junto de quem vive. Conheço-a de a ver na rua, de nos cumprimentarmos, de me perguntar pelos meninos. Mas não a conhecia. De todo. Não imaginava a riqueza das suas memórias. Que me mostraram tanta coisa que desconhecia. E o privilégio que é ter memórias tão antigas!

 

A Regente Teresa

A sua carreira começou pela mão da Dona Ana Tavares, que foi professora em Mação muitos anos, “foi ela que me habilitou para ser Regente, e não me levou um tostão”. As Regentes, explica-me, “tinham menos estudos que as Professoras que tiravam o 5.º ano e faziam mais 2 anos de estudos no Magistério”. A Regente, nos seus primeiros anos nas escolas, só podia levar os alunos até à 3.ª classe, que era o ensino obrigatório. Conta que, no fim do ano “o Delegado Escolar indicava-me a que escola levava os alunos e a Professora que lá estava é que fazia as passagens (de classe)”. Também tinha que levar os alunos a uma Professora para lhes fazer o exame da 3.ª classe.

No início era mais complicado ser-se Regente, “recebíamos menos do que as Professoras, não recebíamos vencimento nas férias de verão e não faziam descontos para a reforma, mais tarde lá veio uma Lei e passámos a fazer os descontos para podermos ter reforma, que é pequena mas melhor do que nada”.

No seu primeiro ano ficou colocada em Rosmaninhal. Foi lá também que deu aulas nos últimos 14. A diferença estava na escola que no seu primeiro ano lá era uma casinha normal e nos últimos já era um edifício escolar com um jardim que cuidava com os meninos. Tem pena de não se lembrar dos primeiros ordenados “mas era pouco”, remata.

Depois de Rosmaninhal esteve um ano em Queixoperra, outro no Castelo e um outro em Amêndoa. Tudo no concelho de Mação. Hoje em dia chega-se a estas localidades em 10 a 20 minutos. Naquela altura alugava uma casinha e ficava lá a semana, ia à segunda-feira de camioneta e voltava ao sábado, umas vezes a pé, outras de boleia, muitas vezes apanhava boleias com os médicos que iam ver doentes e a traziam para Mação. Em Amêndoa, o sítio mais longe da Vila em que ficou, partilhava casa com a outra professora. Falamos de uma época sem luz eléctrica e sem água canalizada. Falamos de uma época de que a maioria de nós não tem memória, mas Teresa tem. E não é só a memória de cozinhar num pequeno fogareiro à luz da candeia. É a memória, como conta, de “quando os dias eram maiores e íamos as duas dar uma voltinha pelas ruas e se ouviam as pessoas em casa a rezar”. Alto. Em família. Conta ainda que “em Amêndoa as mulheres faziam a Encomendação das Almas na Quaresma. Era as ruas, tudo escuro, em casa só o candeeiro e aquelas vozes das mulheres a cantar no Cruzeiro, aquilo arrepiava-me, metia respeito”.

Esteve depois 2 anos em Mação, em casa, mas ainda como agregada. Foi depois 11 anos para Casas da Ribeira e só aí ficou efectiva. De Casas da Ribeira vêm as maiores memórias. Diz que lá nunca houve edifício escolar, era uma casinha com menos condições, num primeiro andar, tinham que descer por uma escada de pedra. Conta que “aquela salinha tinha só um quadro e uma secretária com gavetas e uma cadeira para me sentar. Tinha as carteirinhas para os alunos e depois os mapas das colónias nas paredes”. Não havia aquecimento, claro, mas “havia um forno que todos os dias era aceso, sempre lá se fazia pão, e traziam-nos umas brasinhas para dar um calor, para os meninos aquecerem as mãos”.

Quando fala nas Casas da Ribeira, além de recordar as muitas crianças que lá havia, quase sempre com 22 alunos, fala dos casamentos, das raparigas novas, bonitas, a ir à fonte e a festa que era. Fala de uma aldeia muito alegre, com muita gente. Conta que “às vezes, à sexta-feira, os meninos vinham com as roupitas melhores, era porque ia haver casamento e as mães estavam a trabalhar para o casamento e eles iam lá jantar, ia a aldeia quase toda aos casamentos, tudo ajudava, era uma festa muito grande, uma alegria”.

Recorda os alunos que teve, alguns com quem se cruza ainda na vila. Recorda um, “o Manuel Augusto Mota, ele tinha uma cabeça… ele e o irmão, que ele uma vez trouxe-me o exame da 4.ª classe do irmão e nunca na vida eu vi um exame assim. Mas nenhum estudou, foi uma pena. Era assim, não tinham dinheiro, saíam da escola e iam trabalhar na Fábrica. Alguns, bem burros, estudavam porque tinham dinheiro e os mais pobres, alguns bem inteligentes, não podiam estudar. Perderam-se muitas cabeças que podiam ter feito muito pelo país”.

Como este, fala de outros alunos que teve, há muitos anos, há tantos anos. E ainda lhes recorda as capacidades, os feitos. Volta a dizer que eram poucos os que podiam ir estudar no Colégio D. Pedro V. Fala então do Sr. Lalanda e no grande feito que foi ter cá o Colégio, ajudou muita gente a poder estudar. Conta que em casa da mãe alojavam raparigas que vinham das aldeias mais longe. “Estiveram cá 2 raparigas da Carregueira, eram tão bonitas que a Professora Cândida quando as via à janela dizia que não era preciso ir a Abrantes ver as janelas floridas. Os rapazes arranjavam desculpas para lhes vir falar. Esteve também cá em casa a Preciosa, mas foram só 5 anos que era uma espertalhona e nunca perdeu um ano”.

Quando vinha de dar aulas ainda dava explicações a adultos, “aos que não tinham feito a 4.ª classe, levei muita gente a exame”.

Depois das Casas da Ribeira esteve mais 14 anos em Rosmaninhal, até acabarem os postos escolares. Foi então 4 anos para a Delegação Escolar, de onde se reformou. Conta que “nas aldeias ofereciam muitas coisas às professoras, então quando matavam os porcos era uma farturinha, e os queijos já curados, era de tudo, o ordenado era pequeno mas as pessoas ofereciam-nos muitas coisas”.

Teresa diz que “gostava muito de dar aulas, as crianças eram muito humildes. As minhas sobrinhas que são professoras dizem que hoje em dia os alunos são difíceis de aturar, no meu tempo não”. Continua a dizer que a grande diferença que nota em relação ao seu tempo “é que hoje em dia o ensino apela mais à inteligência, antigamente era enfiar tudo na cabeça, aqueles rios, cidades, tudo, tinham que saber aquilo tudo”. Refere ainda que os seus alunos não davam erros, escreviam muito bem, “porque para conseguir acudir às 4 classes punha uns a escrever palavras difíceis até que ia ensinar os outros”.

A Regente Teresa caminhava muito, deslocava-se muito a pé. Embora algumas professoras já tivessem carro, as regentes ganhavam menos. Não tinha carro. Mas refere que “não havia medos nos caminhos, havia sempre gente a passar. Eu quando ia de manhã para as Casas da Ribeira passava por muita gente. Os que trabalhavam na fábrica não, que entravam mais cedo, mas passava pelos estudantes, lá vinha o Prof. Pomba e o irmão com a sacola para o Colégio, e o Manuel, o Latoeiro, que na altura andava já a aprender o ofício dele. Era muita gente sempre nos caminhos. Eu hoje não ia lá sozinha”.

 

A Vila, as pessoas e a Casa Rebelo

Teresa fala de uma Vila que eu não conheci. E pelo que conta, vejo-a muito, muito distante. Fala muito no que era a vizinhança noutros tempos. As portas sempre abertas, o faltar uma cebola e ir pedir ao vizinho, que mais tarde vinha lá a casa pedir umas brasas para o ferro para abrir umas costuras num fato que estava a fazer. Fala de quando o pai chegava com a carroça e a vizinha da frente, a tecedeira Ti’ Dores que passava o dia a tecer e a cantar, vinha ajudar a descarregar a carroça e depois lhes pedia para levarem umas encomendas para seguirem na camioneta. Eram outros tempos. Teresa diz que “hoje há mais dinheiro mas menos amor, menos amizade”. O que acha é que as pessoas se fecham mais. “Dou-me bem com os vizinhos mas está cada um na sua casa, há a televisão, antigamente as pessoas socorriam-se mais, trocavam-se produtos, usavam o nosso forno e nós ajudávamos uns a debulhar feijão, outros a escarolar o milho, era como uma família. Nos Santos, para fazer os bolos, uns tinham a farinha, outros os ovos, os tabuleiros era ali da casa do professor Baço, havia mais amizade nas ruas”.

Além da fraternidade que se perdeu, o que lhe parte o coração é ver o estado da Casa Rebelo. Uma das casas grandes, senhoriais, da vila. O pai de Teresa era o Feitor da Casa Rebelo. “Era uma casa tão bonita, muito grande, tinha um piano, eu até me perdia lá dentro. Agora faz-me pena, eu nem quero entrar lá agora.” O pai de Teresa, o Feitor, tomava conta das propriedades e dos bens da Casa Rebelo. “Tinham 2 ou 3 lagares, muitos terrenos, celeiro, animais, adegas. Tinham ranchos de homens a trabalhar, que vinham das aldeias para os terrenos da Casa Rebelo. Havia também quem cultivasse terras que a Casa Rebelo cedia e depois uma parte do que apanhavam era para a Casa”. Todos os meses o pai de Teresa ia de carroça a Gavião, à Quinta onde os Senhores moravam, prestar as contas.

Teresa conta que “o Sr. Bispo, quando vinha a Mação ficava lá em casa, celebrava lá Missa e tudo”, que a casa tem Capela. “Quando vinha para celebrar o Crisma as pessoas iam esperá-lo à porta da Casa Rebelo e faziam Procissão até à Igreja”.

Os senhores vinham cá só de vez em quando. Na Casa, além do Feitor, havia uma Governanta e uma Criada, “mas quando eles vinham traziam uma criada que andava sempre com eles, muito arranjada. E tinham chauffeur, não conduziam”. Conta ainda que “quando era para fazer limpezas na Casa vinha um grupo de moças do Casal”.

Teresa conta que “era uma Casa muito rica nem dá para explicar. As filhas eram a D. Márcia, a D. Delfina, a D. Valentina, a D. Adriana, a D. Maria Teresa e o Dr. José Rebelo, que tinha uma avioneta para se deslocar”. Sendo o pai Feitor na casa, os padrinhos de Teresa foram Maria Teresa Rebelo e o marido. A madrinha quis que a criança tivesse o seu nome e conta-nos Teresa que “a minha mãe tinha tido 3 meninas, todas com Maria no nome tinham morrido as 3. A minha irmã era Engrácia mas não era Maria e sobreviveu. Quando eu nasci a minha mãe não queria voltar a por o nome Maria mas a minha madrinha quis e eu fiquei Maria Teresa e correu bem”. Rimo-nos.

Teresa conta ainda que o pai não recebia o ordenado todo em dinheiro, “era só uma parte, o resto era pago em comedias, que era em cada mês um alqueire de feijão outro de outra coisa, era pago com produtos para comer”.

Teresa conta que, naquela altura “por aqui, mesmo assim, era pão e mel, não havia assim tanta pobreza. Havia muitas fábricas, muitos alfaiates de capotes que iam para fora, para as feiras vender. Tudo conseguia um trabalhito. No Alentejo vivia-se pior”. E desabafa que “mas hoje há mais dinheiro mas não há empregos”.

 

As Sobrinhas – filhas

A certa altura da sua carreira, deram a Teresa a oportunidade de ir 2 anos ao Magistério para ficar como Professora. Ganhava-se melhor. Mas Teresa não foi. “Tinha as minhas sobrinhas para orientar e a minha mãe já tinha idade, não fui. O que ganhava chegava-me”.

Volta a falar nas sobrinhas quando falamos de casamento. Nunca casou. Não casou e sublinha: “e não me arrependo, dediquei-me às minhas sobrinhas, que perderam a mãe muito novas”. As sobrinhas foram a sua devoção.

Fala das sobrinhas como de filhas, sem usar esta palavra, mas é uma coisa que se sente quando fala. Pelo que conta, como conta. As suas dores são também de Teresa e a sua sorte celebra-a como se fosse sua. Fala dos filhos das sobrinhas como fala uma avó. Refere um, depois outro e o outro, fala de todos com o enorme orgulho da tia-avó que é.

Sempre que a vejo é com as sobrinhas. Acode-lhes quando precisam. Acodem-lhe quando precisa.

Fala com dor de quando uma das sobrinhas voltou de África com o marido e os filhos e sem nada, que lhes ficou lá tudo, como a tantos. Fala da outra sobrinha a quem ensinou a 1.ª classe pois não teve vaga para a escola, mas entrou depois directamente para a 2.ª classe, com 17 anos estava na Universidade e com 20 era Professora. Mais a outra sobrinha com quem dá passeios e que trabalhava na secretaria da escola com o marido. Mais esta sua sobrinha, que nos acolhe em sua casa, com quem partilha o dia-a-dia e a ajuda nalgumas memórias.

Dedicou a vida aos alunos mas o seu círculo mais estreito do afecto, que é também o maior, é inequivocamente das suas sobrinhas. É delas o seu coração. O seu sentimento maior.

São todos seus, os seus sobrinhos. Realmente seus. Da Encantadora Tia Teresa. Um amor de Tia, esta nossa Teresa. Senhora de um outro Mação, que ficou lá atrás mas que guarda na memória e que nos deixou conhecer um bocadinho. Obrigada, Dona Teresa.

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pomba

profpomba_blog71 anos

Se falasse do Manuel Marques… não chegariam lá! Professor Pomba. Só assim sabemos todos de quem se fala. É universal! Foram 36 anos dedicados ao ensino, foi professor primário de muitos, tantos, tantos maçaenses. O professor do ensino básico que é o Homem da Matemática, que a vive como poucos, que a trata por “tu” como quase ninguém…

Foi muito calma, às vezes empolgada, mas acima de tudo cheia de conteúdo e inspiração, esta nossa conversa. Foi muito interessante falar com o Homem por detrás do Professor.

Nasceu em Casas da Ribeira. Filho de mãe doméstica e pai trabalhador rural. Tinha um irmão, já falecido e de quem fala com um enorme orgulho e reconhecimento. Casado com outra das professoras emblemáticas da Vila, a Professora Lurdes, tiveram 2 filhos e têm 5 netos, quatro rapazes e uma rapariga.

De aluno feliz a professor dedicado

Começamos por falar da escola, do que foi ser aluno e refere logo que, “antes de entrar na Primária, aprendi a ler nas pernas do meu pai. Ele mostrava-me os livros, lia-mos, eu olhava para as imagens, era o método fonético. Quando um dia começo a ler, nem sei quando aprendi, nem o meu pai soube como foi. Dei pouco trabalho à professora…”. E ri-se. Remata que “o meu pai era um bom professor, eu só podia ter saído professor…”. A Primária foi feita em Casas da Ribeira e nos Santos. Diz que teve Professores muito bons, que o acarinhavam e considera que: “sou Professor porque fui um aluno feliz”. Conta ainda que “na 4.ª classe tive a Professora Angelina Morgado que gostava muito de mim porque era bom aluno e por isso sentou-me na carteira com a prima dela, a Virgínia Patrício, que me emprestava os lápis…”. E ri-se pela história, porque se ri e sorri muito, o Professor Pomba.

Foi fazer o exame de admissão a Setúbal, junto com o irmão. Tinham lá um tio, que era Polícia. Eram 800 alunos a fazer o exame, “o meu irmão era o n.º 518 e eu era o 519. Num problema de matemática os que estavam à minha volta começam a sussurrar-me que eu tinha o problema mal resolvida, até o meu irmão o dizia. O meu resultado era diferente do dos outros e diziam para eu copiar por eles, mas eu não, não me demovi do meu. Quando saímos juntaram-se todos à minha volta e eu a explicar como tinha resolvido o problema, que era, ainda me lembro, um problema de fracções na compra de uma bola…”. Continua a contar que “o meu tio estava à nossa espera e até se assustou por vê-los todos à minha volta, eu ali, pequenito, no meio. Mas quando saiu o resultado, o meu é que estava certo, estás a ver que isto da matemática já vem de longe, o bichinho já lá estava”. Depois da Primária foi para o Colégio D. Pedro V, em Mação. Diz que o Colégio “foi um grande farol para Mação, foi um privilégio ter ensino liceal aqui, naquela altura, até ao 5.º ano, que é o actual 9.º ano. Mas era caro, o meu pai pagava 150 escudos por mês, valiam os pinheiros que ia vendendo…”.

Recorda com muita saudade o Dr. Jaime, médico na vila e professor de matemática no Colégio. Antes dele já a Professora Tanim, filha do Professor Lalanda, lhe tinha despertado o gosto pela Matemática, mas “com o Dr. Jaime, durante dois anos, só eu é que era chamado ao quadro, para os outros verem como eu resolvia os problemas. Ele chamava-me o Filósofo da Matemática”. Sorrio ao Filósofo da Matemática, nome que lhe assenta como uma luva até hoje.

Terminado o Colégio veio a primeira grande desilusão da sua vida, o pai não o deixou continuar a estudar. Não tinham muito dinheiro e o irmão também não tinha continuado os estudos. O Professor Pomba recorda que “ver os outros a ir estudar e eu sem poder… fiquei doente, deixei de comer…”. Valeu-lhe um rapaz lá da terra que queria ir para o Seminário mas precisava de ajuda na matemática. Deu-lhe explicações desde os 16 aos 18 anos. Conta que foi o que o ajudou e lhe mostrou como gostava de ensinar. Dá uma gargalhada e conta, divertido que “eu dava-lhe explicações todos os dias às 4 da tarde. Eu gostava tanto daquilo que antes das 4 eu começava a espreitar na fechadura a ver se ele já lá vinha…”.

Quando fez 18 anos, teve uma cunha para ir trabalhar no Tribunal da Anadia como Escriturário. Esteve lá 9 meses e 11 dias. Gostavam muito dele e davam-lhe as sentenças para dactilografar porque sabiam que não dava erros de ortografia nem de pontuação, “graças ao que aprendi no Colégio, aqui”. Ao fim desses 9 meses e 11 dias, conta, “o Chefe de Secretaria do Tribunal chamou-me ao trabalho a um sábado e disse-me que gostava muito de mim mas que aquilo não era trabalho para mim”. E explica que a progressão na carreira se fazia por Concurso Documental, por currículo assente em anos de serviço e ele estava só a começar… Veio-se embora. Chegou a casa a dizer que se tinha despedido e que tinha que ir estudar. O pai nem queria acreditar, o choque por deixar um emprego daqueles. Mas o irmão, e perceberemos sempre a sua profunda amizade e reconhecimento para com o irmão, como já estava a trabalhar no Tribunal em Mação, disse que lhe pagava os estudos. É um agradecimento tão grande e sentido que não se paga… isto sente-se em cada bocadinho de si quando o conta.

Foi para Castelo Branco fazer o curso do Magistério Primário. Conta então que “as notas no primeiro ano foram tão boas que o meu pai depois já pagou o resto”. Ri-se. Acabou o curso com 16 valores. “Veio um Júri de Coimbra, onde vinha o Director da Escola do Magistério Primário de Coimbra, Doutor Sousa Loureiro. Eles queriam dar-me 17 valores mas peguei-me lá com uma professora, não tínhamos a mesma opinião (ri-se) e ela queria que me dessem um 15, mas o Dr. Sousa Loureiro impôs os 16 valores e disse – me «em muitos anos como Director da Escola só vi um outro ponto igual ao seu, seja feliz e de si é de esperar qualquer coisa de novo», são estas coisas que nos marcam para a vida”. Falava do ponto de Pedagogia onde, “no final escrevi o que deve ser o lema do Professor e citei São Jerónimo que dizia «vivei como se em cada dia tivésseis que morrer, estudai como se eternamente tivésseis que viver»”.

Foi em Castelo Branco, a estudar, que conheceu a mulher. Conta que “a Teresa do Trapos, que era como chamávamos à Professora de Lavores, dizia que se todos namorassem como nós, todos podiam namorar, que os namoros deviam ser como o nosso. Lá na Escola eu tinha as melhores notas nas teóricas e ela nas práticas, do dedal”. Ri-se novamente.

Terminado o curso, ficou a dar aulas em Castelo Branco mas depois quis vir para Mação e explica que “tinha apenas um irmão, com alguma fragilidade na saúde e os meus pais envelheceriam sem o apoio afectivo que eu lhes devia dar, como fui cá feliz como aluno quis fazer os alunos de Mação também felizes”. Conta ainda, divertido, que quando terminou o curso o Director da Escola lhe perguntou: Vais trabalhar para o Estado? Ao que respondeu: “Não, vou trabalhar para os meus alunos”. E foi o que fez durante 36 anos. E que Mação lhe agradece. E reconhece até hoje. E prova nos alunos a quem ainda dá explicações.

Conta várias histórias, oferece-nos de bandeja várias lições de vida. E faz-nos pensar, o Professor Pomba, como quando diz que a certa altura, naquele mesmo café onde nos sentamos, encontrou-se com o Director da Escola de Santarém que vinha chamá-lo para dar lá aulas. Recusou. “Ele disse-me que em terra pequena não se fazem homens grandes, não concordo”.

Já a trabalhar a mulher dizia-lhe para ir estudar mais. Chegou a propor-se para o exame de matemática e foi fazê-lo, com o Professor Aleixo, do Castelo. Conta que “tive 16 valores mas não acabei o exame, não tive tempo, mas o que fiz acertei tudo”. E bastou-lhe. Porque gosta de se por à prova. Não fez nada com o exame, não voltou a estudar. Só em casa. Em casa descobre o Mundo.

Uma das etapas deste estudo foi acompanhar os próprios estudos dos filhos. Devorava os livros de matemática deles, ainda os tem. Conta que “uma vez o meu filho trouxe um exame do Técnico que tinha um problema de indução. Peguei-me com ele (o problema) às 10 da noite, dei conta dele às 3 da manhã. A minha mulher veio lá, espreitou-me e perguntou se estava tudo bem. Estava, já tinha dado cabo dele…”. Ri-se muito e remata: “olha que alguém a ver isto de fora dizia que era maluqueira, das 10 da noite às 3 da manhã, mas não é maluqueira é paixão”. Conta ainda que “no dia seguinte mostrei o problema a um colega, eram 5 anos páginas em que o resolvi. Dei-lho, disse que não o queria ver mais para poder um dia voltar a encontrá-lo e resolvê-lo novamente”. E ri-se.

Enquanto professor, participou durante 5 anos no Programa Interministerial de Promoção do Sucesso Educativo (PIPSE), tinham formação que depois vinham dar aos colegas, nas escolas. Estava no núcleo de Santarém, Lisboa, Leiria e Setúbal. Foi também Delegado Escolar. Conta ainda que “tivemos em Mação uma das primeiras Telescolas, com emissão no Posto 59. Foi também muito bom, era onde podiam estudar os alunos que não tinham dinheiro para pagar o Colégio”.

A política e a Santa Casa

O Professor Pomba foi Vereador durante 8 anos, nos primeiros mandatos do Senhor Elvino Pereira. Embora fossem de partidos diferentes, conta que trabalhavam bem juntos, completavam-se. “Não havia partidos, havia um trabalho a ser feito e era o que fazíamos e é assim que se deve fazer. A partir do momento em que são eleitos, Presidente e Vereadores, por que partido seja, todos devem trabalhar para a causa comum”. Fala de Elvino Pereira com uma profunda admiração, um respeito e amizade enormes. Fala do Busto que lhe tem que ser feito e de todas as homenagens que nunca serão muitas. Há ali uma profunda admiração.

Estava a dar aulas em Mação há 3 anos, quando foi convidado pelo Professor Baço e pelo Dr. Luís Catarino para reavivarem a Santa Casa. Conta que o Hospital tinha fechado por falta de médicos e de verbas. “Fizemos um cortejo de oferendas gigantesco. Correu muito bem, no Carvoeiro foram incansáveis. As pessoas davam o que podiam, como pinheiros para depois vendermos, fez-se aqui uma pilha de pinheiros… Até do Brasil veio ajuda, antes do cortejo já tínhamos 400 contos que tinham vindo do Brasil, só o Sr. João Veríssimo, da Sanguinheira (do Carvoeiro) que estava no Brasil mandou 100 contos. Conseguiu-se contratar um médico e o Hospital voltou a funcionar, fazia muita falta.” Quando vai ao passado percebe-se que se sente privilegiado pelas pessoas que teve o prazer de conhecer, e com quem trabalhou. Refere que “foi muito bom integrar aquela Mesa Administrativa com o Sr. Manuel Saldanha, o Sr. Heitor, que era o Provedor, e o Professor Baço. Ainda comprámos o terreno onde mais tarde se construiu o Lar”.

Há uma pausa na nossa conversa antes das últimas duas ou três perguntas que tenho para lhe fazer. É iniciativa sua dizer-me: “muitas coisas têm-me corrido mal mas sinto um nível de realização muito grande”. E relembra uma frase de André Gide que diz “Não me esforço por prazer mas sinto prazer no meu esforço. Eis o segredo da minha felicidade.” E remata que há-de ser Professor toda a vida.

Explica-nos, este nosso Professor, que “o neutro não existe, o nosso trabalho, a nossa acção, é positiva ou negativa, não existe espaço para o neutro. Se há palavras de que não gosto é do talvez e do assim-assim, o que é isso do talvez?… não aceito um talvez como resposta porque ou é sim, ou é não”…

O futuro, a vida e a paixão

Falamos dos projectos que tem, de um muito especial. O Professor Pomba, este nosso Filósofo da Matemática, tem vindo a preparar, e quer editar, um Ficheiro Didáctico, a que falta acabar de dar corpo. Trata-se de um livro que faz o que ele faz com os seus alunos: desmistifica a matemática, como explica “este livro ajudará os alunos a desenvolver o raciocínio lógico da matemática, baseia-se na lógica bivalente, para que compreendam que há dois valores lógicos em que tudo se baseia, o que é certo e o que é errado, o que é verdadeiro e o que é falso, tudo se rege pela matemática, há que compreendê-la.” Conclui dizendo que “quero apresentar o projecto ao Ministério da Educação para patrocinarem a sua edição, e tem que ser depressa porque gostava que os meus netos ainda apanhassem esta base nos seus estudos”. Conclui dizendo que “um professor com clarividência simplifica o que se diz difícil, o não clarividente complica o que se diz fácil…

Há muito que lhe sei deste sonho e acho que vai ser um trabalho de apoio fenomenal. Passando o Professor Pomba o seu à vontade e o seu entendimento da matemática para uma obra destas e os alunos deste nosso país ganharão muito, mesmo muito, com isso.

Pergunto-lhe se acredita em Deus. Diz que sim, claro que sim. E explica que “acredito em Deus, não gosto é de todo aquele ritual… Uma vez li um livro do Arcebispo Manuel Trindade Salgueiro chamado «Porque Creio em Deus» onde explicava que um laboratório constrói um ovo com uma composição igual à do ovo que sai da galinha. Mas do ovo da galinha sai um pintainho e do ovo do laboratório não sai vida…”. Diz que “há muito que fiz pazes com o que é a morte, porque percebi que tem que ser, se fossemos eternos os homens viravam lobos e matavam-se. Mas a alma não morre” e, no dizer de Pascal “a maior dimensão do homem é quando se põe de joelhos a contemplar a obra do criador”. Remata com outra história, das que o foram fazendo acreditar, ou perceber, que tem que haver Deus. Conta que “certa vez um casal de burgueses que tinha aias e professores para o filho em casa lhes diziam para não falarem de Deus ao menino. O menino fazia perguntas e davam-lhes as respostas, quem inventou isto e aquilo. Até ao dia em que o menino se pôs a contemplar um canteiro de flores e perguntou quem as tinha pintado. A terra era a mesma mas porquê as cores diferentes. Falavam do solo, da sua composição mas ele não aceitava nenhuma resposta. Disse que deixaria de comer até que lhe dessem a resposta correcta. E tiveram que lhe explicar a obra de Deus… porque há coisas que só têm uma explicação…”. E relembra uma outra frase que leu, que dizia “o Homem é um peregrino à procura de Deus, que pode estar num simples canteiro de flores”.

Por fim, explica que quando percebeu que o corpo tem que ter um fim na terra, o que lhe interessa é que, como alguém disse “tenha vivido de forma a que, no leito da morte, ainda ouça em surdina dizerem teve uma boa vida, fazia cá falta.”

A fórmula, diz, é viver-se com Paixão. Diz que “sem Paixão nada se consegue, chamem-lhe loucura, maluquice, o que quiserem, mas é Paixão pelo que se faz na vida que torna tudo possível”.

A nota final do nosso Professor Pomba vai para os seus colegas, para todos os Professores da Primária. Refere que gostava de chegar a todos os Professores do 1.º ciclo e explicar-lhes que “a Escola Primária é a base, é onde tudo se forma. Tem que se dar aos miúdos competências para serem capazes de desenvolver um trabalho com autonomia. As crianças têm que sair da primária com o raciocínio desenvolvido… há crianças que chegam ao 5.º ano e que não foram ensinadas a raciocinar… não pode ser… em vez de os encherem de trabalhos de casa, que deve ser o mínimo dos mínimos, pois de modo geral os professores nem os conseguem corrigir, não é possível… têm é que lhes lançar desafios, ensiná-los a raciocinar…”.

A conversa com o Professor Pomba foi, não sei dizê-lo de outra forma, uma conversa de emoções. Algumas muito fortes. Claro que falou no filho que perdeu recentemente. Falou, e disse “as lágrimas vêm já, não posso”. E vieram. E segurou-as. E explicou que a perda de um filho é algo que não tem explicação. É algo que o ultrapassa, que não é possível medir. Que só quem passa por isso… Fugimos ao tema. Mas não fugimos porque não se pode falar. Saímos do tema tal como entrámos, porque lhe custa, porque não consegue, porque a vida continua e é de vida que continuamos a falar, da Paixão de viver.

Sabemos, muitos de entre nós, o que este homem sente pela matemática. Podemos adivinhar o quão diferente teria sido a sua vida se tivesse desenvolvido a sua profissão numa terra maior, com mais oportunidades à mão. Porventura poderia ter sido melhor. Mais rica, de grandezas. Mas não lhe interessa. Só lhe interessa a grandeza do que viveu. O ter estado presente até aos últimos dias de vida dos pais, dando-lhes afecto, o ter dado apoio ao irmão quando a saúde lhe fugia… O irmão que lhe proporcionou o ter podido estudar, que lhe agradecerá eternamente. Não podia ter estado longe, ausente. Não podia. Porque não é o material que o move. É o Ser. É o ser-se gente. Humano. Porque falamos do Professor Pomba, o Filósofo da Matemática… um Homem da lógica que se guia pelas emoções, porque as consegue medir e perceber. Com Paixão. Se isto não é uma forma fantástica de se viver, não sei o que será.

Obrigada, caro Professor Pomba. Obrigada por tudo.

1 ano a Ouvir Dizer

Este espaço faz hoje um ano. UM ANO!

Há uma ano escrevi este texto:

“Este novo espaço rege-se por 3 verbos. Os principais.
Parte do acto de me sentar frente a uma Pessoa que me dedica algum tempo para que a possa Ouvir.
Como uma folha em branco deixo-me preencher pelo que tem a Dizer.
O objectivo é a recolha de vidas replectas do Verbo Ser.
Começaremos em breve esta caminhada que está no seu momento zero, no ponto de partida, certa de que hoje e sempre, no princípio era o Verbo…”

E tem sido exactamente como previa! Acho hoje, mais do que nunca, uma tolice ter adiado tanto tempo esta ideia. Porque adiei. E nesse adiar “perdi” a pessoa que, nos meus planos seria o primeiro entrevistado deste blogue. Foi um erro. Enorme. O que só prova que não devemos adiar aquilo que queremos, devemos ir ao encontro dos nossos sonhos. Prova provada.
A quem aqui vem, obrigada pela visita, pelo tempo para ler, pelo tempo para com estas pessoas tão ricas e maravilhosas que me vão concedendo o seu tempo e partilhando as suas memórias.
O efeito que eu sei que este espaço já teve nalgumas vidas, ainda que seja um efeito pequeno, deixa-me feliz. É como um dever cumprido.
Neste ano fiz 21 entrevistas (menos do que gostaria, mas chegamos lá) e sinto-me muito privilegiada. Pelo caminho morreram dois dos meus entrevistados e eu só espero ter contribuido para que as suas famílias tenham mais qualquer coisa, material, escrita, eterna com que os recordar pelas memórias que partilharam comigo.

Há uma lista de pessoas que irei entrevistar. O caminha faz-se passo a passo. Por agora só posso desejar que a caminhada continue!

zé costa

IMG_300866 anos

Quando caminhamos para o fim de um ano de comemorações, pelos 150 anos da Sociedade Filarmónica União Maçaense (SFUM), é inevitável a entrevista ao homem que lhe deu a mão nos últimos 37 anos. Saindo da forma normal deste espaço não lhe posso chamar apenas José. Não, não posso. Hoje abro excepção. Falamos de Zé Costa. Assim não há que enganar.

A entrevista foi marcada, remarcada e finalmente feita. Chovia e Zé Costa recebeu-me em casa, de mantinha nas pernas, agenda ao colo e a salamandra acesa. Começa por dizer que quer ver se a cabeça se lembra do que lhe vou perguntar. Escusava de se preocupar. Fizemos uma viagem de mais de 30 anos, mais de metade da sua vida ligado a tanta coisa, um braço aqui, a dar uma mãozinha acolá, o coração cheio na música e o pensamento sempre na Igreja. Uma maravilha de pessoa reflectida numa vida activa.

Zé Costa é o filho mais novo de três. Tem duas irmãs. O pai, Manuel Costa, era Sapateiro e Sacristão. A mãe, Maria da Conceição Matos, acompanhava-o na última função. Eram os Sacristães. Das suas funções Zé Costa destaca o tocar os sinos, “todos os dias tocavam as Trindades, de manhã, ao meio dia e ao por do sol. Depois tocavam os sinos quando havia casamentos e baptizados. Quanto maior era a gorjeta do sacristão maior era o toque…”. Rimo-nos. A par disso o pai de Zé Costa era o Regedor da Freguesia de Mação. Tratava-se de um agente de autoridade na freguesia, o regedor era a autoridade policial, principal da freguesia, dependia directamente do Ministério do Interior. Abaixo dele tinha os Cabos de Ordem, um por cada povoação. Eu desconhecia esta figura e fico maravilhada. Zé Costa lembra-se que as funções do pai eram, por exemplo, quando alguém queria entrar para a função pública, atestar se era fiel ao Estado Novo. Os regedores garantiam a boa aplicação das leis e dos regulamentos administrativos.

A família de Zé Costa era muito religiosa, o que afirma quando diz “pois é, cresci debaixo da saia da minha mãe na Igreja”. E remata que foi pela forte ligação à Igreja que lhe veio, depois, a ligação à música. Conta que “a Banda acompanhava o Padre nas actividades da Freguesia e comecei-lhe a tomar o gosto”. Além disso o pai, os tios e primos, foram todos músicos na Banda.

Zé Costa conta que quando a Banda saia para ir tocar numa festa iam a pé com o Padre e com o Sacristão, “ao sair da Vila tocavam uma Arruada e as pessoas vinham saber onde era a festa. Ao fim do dia, quando voltavam o meu pai, que era o sacristão, trazia um foguete da festa e lançava-o quando chegavam à vila, sinal de que a festa tinha terminado”. Zé Costa conta ainda que o Padre Marujo chegou a fazer uma música de que muitos ainda se lembram e que dizia:

“Tim Ba Da Lim
Tim Ba Da Lão
O Senhor Vigário vai à Festa
Acompanhado pelo Sacristão”.

A entrada de Zé Costa na Banda deu-se quase por acaso. Conta que “certo dia ia com o meu primo João Manuel na rua, frente à sede da Banda e ouvimos muito barulho. Estava lá o meu sogro e outros e fomos lá. Era uma altura conturbada, não conseguiam encontrar uma direcção. Nós os dois dissemos que se o Sr. Zé Simões e mais alguns ficassem, nós entrávamos. E assim foi. Fez-se a direcção”. Isto aconteceu, como que por mero acaso, há 37 anos. Desde então Zé Costa esteve sempre ligado à SFUM. Nos últimos anos, desde a saída do Sr. Carreira, como Presidente da Direcção. Sempre acompanhado pelo primo João Manuel.

No meio houve outras direcções, outras fases difíceis e, como diz “voltei a ficar com a menina nas mãos”. Pegou nela. E trouxe-a, ao colo. Até hoje. Jovem e forte. Vistosa. Cheia de esperança no futuro. A Banda de Mação chegou, assim, aos 150 anos. Muito foram os homens que a trouxeram. Nos últimos anos foi, inegavelmente, este homem, Zé Costa.

Zé Costa é casado e tem um filho, Jorge. Fez a Escola Primária, depois estudou no Colégio D. Pedro V. Começou a vida profissional como Serralheiro nas Oficinas do Sr. Pombo. Depois foi para a tropa. Esteve no Ultramar. Dois anos e meio em Angola. Quando voltou foi para o mesmo patrão, mas como motorista de táxi. Estava entretanto para abrir o Centro de Saúde. Foi a altura em que casou. Fez o Curso de Agente Sanitário no Instituto Ricardo Jorge, em Lisboa, e foi colocado no Centro de Saúde de Mação em 1973. Fez depois o Curso Técnico de Diagnóstico e Terapêutica – área de Saúde Ambiental e foi nestas funções que se aposentou em 2008. Nos seus 35 anos ligado ao Centro de Saúde rara terá sido a Vistoria do Ramo Alimentar e Insalubridade em que não participou. Após a reforma continuou na sua área profissional, agora com ligação à Câmara Municipal, quando foi criado o Serviço Municipal de Segurança Alimentar.

Comissão dos Passos

Uma das muitas facetas da sua vida é a ligação à Comissão dos Passos. Não sabe quando entrou, ri-se e diz que “foi desde pequeno”. A Comissão dos Passos é um grupo de 30 pessoas ligadas à Igreja mas com funções muito específicas que passam pela organização e promoção das festividades da Quaresma, Semana Santa, Passos e Páscoa. Não dependem financeiramente da Igreja. Zé Costa explica que “fazemos peditórios para angariar fundos para pagar Alfaias, pagar à Banda, gerir o espólio dos Passos, as lanternas, as imagens têm sido restauradas pela Comissão, tanto as da Misericórdia como as do Calvário”.

Falamos um pouco desta parte tão importante das tradições da terra. Zé Costa explica que “na Quaresma canta-se um Terço a cada Domingo, são 7 Terços que são cantados de madrugada. Os quatro primeiros, entre o 1.º e o 4.º Domingo da Quaresma são os Terços da Boca Aberta. São cantados pelas 3 da manhã. As pessoas antigamente deitavam-se cedo e cantava-se o Terço pelas ruas àquela hora e elas acordavam com os Terços e sabiam que já era a Quaresma, mas há uns 15 anos que não cantamos os 4, só cantamos 1 porque são iguais, tornava-se repetitivo. No 5.º Domingo da Quaresma canta-se o Terço da Paixão, que é no Domingo de Ramos. Depois entra-se na Semana Santa, com todas as celebrações. No Sábado da Aleluia à noite, depois da Missa, faz-se a trasladação do Senhor, que é a Procissão da Ressurreição em que se leva a imagem do Senhor da Igreja Matriz para a Igreja da Misericórdia. Depois da Procissão é a Ceia Pascal em que oferecem uma ceia a quem vai, de madrugada, cantar o Terço, que é o Terço da Farinheira”. Tenho esta dúvida há anos, e pergunto-lhe porque tem o Terço o nome de Farinheira ao que me responde, sem certezas absolutas, mas porque é o que se consta que “durante a Quaresma não se podia comer carne e antigamente as carnes eram caras e a farinheira era a mais barata e seria o que se comia na Ceia Pascal, dai ter ficado o Terço da Farinheira”. E continua a contar que “na Ceia, que tem sido na casa do Sr. Courela, depois de se comer e beber cantam-se as Alvíssaras a quem ofereceu a ceia. Antigamente cantavam-se ao Padre, mas agora mudou. Depois, pelas 2 e meia, 3 da manhã, é o Terço da Farinheira (Ressurreição) ”.

Zé Costa conta, a jeito de curiosidade que, antigamente, ainda antes de ter memória de ir aos Terços, as pessoas eram muito mais rigorosas com os Terços e quem assistisse ou passasse tinha que se ajoelhar, “um dos membros levava uma moca e quem não se ajoelhasse levava uma cacetada, quem passava muito por eles eram as pessoas que vinham com os produtos da horta para fazer o Mercado do Domingo de manhã, e tinham que obedecer ou levavam uma cacetada.” Zé Costa remata que “agora já não é assim, também já podem participar mulheres, antigamente não”.

Grupo Coral e Excursões
O Grupo Coral da Igreja foi criado em 1976. Zé Costa pertenceu a esse grupo inicial e lá continua até hoje. Todas as semanas é ele quem escolhe os Cânticos. Conta que “a 1 de Novembro comemoramos o aniversário do Grupo Coral e ainda hoje, nesse dia, a jeito de comemoração, cantamos os cânticos que cantávamos no início”.

Curiosidades, estas entre outras, de muitas áreas, que podem passar despercebidas a muitos de nós, são como que partes de nós, da sociedade, da paróquia, da vida comunitária, da nossa identidade. Zé Costa conhece-os e partilha-os connosco.

No ano de 1973, além de ter ingressado no Centro de Saúde, Zé Costa casou com a sua “Lete”, Celeste, que o acompanha na vida, em tudo o que pode. Conheceram-se de sempre, de miúdos, das brincadeiras na rua. O pai de Celeste tinha uma taberna em frente à Igreja e Zé Costa morava junto à Igreja. Brincavam, iam às Procissões e ouviam as radionovelas no rádio que o pai de Lete tinha na taberna. Enquanto conversamos essa mesmo rádio que lhes trazia as novelas permanece, maravilhoso, mais velho do que qualquer um dos presentes, numa mesinha na sala da casa de Zé Costa.

Também nesse ano, junto com o primo João Manuel e o Sr. Sambado, começaram a organizar umas excursões a que dão o nome de “Amigos de Mação”. Já correram muito. Fazem, anualmente umas 2 ou 3 viagens. O grupo muda sempre, é aberto a quem se queira inscrever, mas este casal, entre outros, permanecem, desde 1973. Em Outubro passado foram a Espanha e a Guimarães, em Março próximo vão a Trás-os-Montes ver as Amendoeiras em Flor. As Excursões, como tudo na vida, evoluíram. Nas primeiras dormiam no autocarro de um dia para o outro. Hoje em dia vão com tudo preparado, hotel, restaurantes e guia.

Na última excursão Zé Costa teve que levar a companhia de uma cadeira de rodas. Mas foi, e vai, até poder. Há cerca de 8 meses teve umas tonturas, depois algo mais grave. Os exames médicos acabaram por mostrar a causa. Um tumor na cabeça. Não lhe perguntei, mas vou adivinhar aquela revolta do porquê eu, do porquê agora. Se a teve já não lha noto. Vejo-lhe apenas a Fé. Vejo-a e afirma-ma. Diz que “se não fosse a Fé que tenho, de que tudo se controle, que melhore”. Tem feito tratamentos, está para saber o resultado do último. Quimioterapia com comprimidos. Interessa-lhe que não avance. Que fique quietinho, o tumor. O que mais sente é a falta de equilíbrio que o obriga a companhia constante. Quase sempre a sua Lete. Logo Zé Costa que nunca esteve parado.

Hoje mais recolhido, “obrigado a estas férias”, como diz, continua a preparar os cânticos, a organizar e participar nas excursões, a acompanhar as comemorações dos 150 anos da Filarmónica, a ver o que se passa na internet. “Já tenho ali os cânticos para o Senhor das Encruzilhadas”. Faltam 15 dias mas está tudo pronto. Aos domingos é vê-lo no Coro da Igreja. Celeste remata que “a voz não lhe dói“. Há outras dores, sabemos que há.

Mas Zé Costa tem uma função em Mação. Que são várias. Que são fazer Mação mexer. Que são… ser o Zé Costa.

Mação conhece-o. Estima-o. Admira-o. Reconhece-lhe os feitos. O trabalho. O empenho. Mação tem Zé Costa na história, como Zé Costa tem Mação espelhado na sua vida, especialmente a sua muito activa vida adulta.

Que nossa Fé se junte à sua, já de si tão grande. O desejo de que lhe volte o equilíbrio. Que lhe melhore a saúde. Que continue a fazer mexer. Que volte rápido ao passo certo com que acompanha e abre caminho para passar a Banda pelas ruas.

Porque muito tem ainda para nos dar. Embora não nos faltem já, motivos para lhe agradecer. Eu já o sabia, mas sei-o mais enquanto conversamos. Do tanto que me ensina, que me explica sobre Mação, ao falar da sua própria vida. Não falássemos, afinal, de Zé Costa, o Amigo de Mação.

neves

82 anos

Preparem-se para esta história de vida. A sério. Peço-vos que se preparem enquanto tento perceber por onde começar. Neves, ou “Meneves” para a família, tem uma história… mas que história. É a história, são as memórias, é o ser e o estar, até a forma como respira. É de um encanto…

Querida Neves… Encontramo-nos em sua casa, no bairro à entrada da Vila. Penso que sei ao que vou, de outras conversas que já tivemos. Sei que há ali história. Sei também que há ali sofrimento, daquele maior, mas mesmo do grande, aquele sofrimento que não se compreende, de quando a vida dos filhos é interrompida antes da dos pais. Neste caso duas vezes. A última é muito recente. Penso, antes de entrar, que vamos ter apenas uma conversa sobre a vida da nossa querida Neves. Engano-me. Percebo-o quando me diz, mal nos sentamos, que “a minha Lena está nas minhas conversas todas, porque está sempre comigo. Desculpe, mas tem que ser”. A sua Lena morreu-lhe há poucos meses. Começamos então por falar de Fé, do que é estar-se nesta vida, do que existe depois, de como somos tão cheios de nós mesmos e da dificuldade em crer que não pode ser que se acabe tudo quando o corpo morre. Sentimos as duas que tem que haver algo mais. Sentimos também as duas a necessidade de acreditar mesmo nisso. Porque se não, nada faz sentido. Neves fala de um maravilhoso bilhete que a amiga Milú lhe escreveu quando lhe morreu a segunda filha e conta “Ela escreveu como sendo a Lena a pedir para a continuarmos a tratar como se estivesse aqui, para nos lembrarmos dela como era e conclui dizendo que está só do outro lado da estrada. Quando vou ao cemitério falo com a minha Lena, estou sempre a falar com ela, mas digo-lhe: ai filha que a estrada é tão larga…”.

A mulher fantástica que está à minha frente tem tido uma vida que tenho dificuldade em descrever numa palavra ou mesmo numa frase. Certo é que foi muito amargurada, apesar da doçura e optimismo que transmite. Neves define-se dizendo que “nunca me interessou o que dizem ou outros ou o que pensam de mim, desde que a minha consciência esteja em paz, é preciso é que a minha consciência esteja bem, o resto não me interessa”.

A Infância

Neves nasceu em Carvoeiro – Mação. Eram 4 irmãos, 2 raparigas e 2 rapazes, foi um dos irmãos que a começou chamar Meneves, e assim ficou. Fez a 4.ª classe, gostava de ter continuado os estudos, queria ser Enfermeira mas o pai não deixou, que na altura as enfermeiras tinham má fama, por passarem tanto tempo nos hospitais com os médicos. Como segunda opção quis ser Regente Escolar. O pai também não deixou, que depois andava pelas terras, sabe-se lá por onde. Ficou por ali. Mas era esperta. Conta que “a professora na 3.ª classe foi dizer ao meu pai para fazer o requerimento para o exame da 4.ª classe pois já estava mais que preparada, mas o meu pai não quis pois o exame custava 190 escudos”.

Passava os verões da infância no Grande Hotel Clube das Caldas de Felgueira. O pai trabalhava lá de Junho a Outubro quando as termas estavam a funcionar. O pai ia ajudar o dono do Hotel, o Sr. Marques(1), que era de uma aldeia daqui, Degolados. Foi, aliás, lá que os pais de Neves se conheceram, a mãe era daquela zona e o pai ia daqui trabalhar para lá. Neves fala daqueles tempos e descreve quase um filme de época, o deslumbre. Fala do Hotel “construído em forma de “H”, enorme. Eram 87 empregados, uns só para servir, outros só para lavar o chão, outros só para tratar das roupas, a copa era uma confusão, os pratos vinham de elevador. Os empregados comiam antes dos clientes. Vestia-se smoking para servir o almoço e o jantar. Para o pequeno-almoço era um fato branco, as calças tinham uma lista cinzenta ao longo da perna. Tinham um padeiro a fazer pão fresco para cada uma das refeições do dia. Na lavandaria tratavam-se dos vestidos das senhoras que lá passavam férias, vestidos compridos, maravilhosos, um para cada refeição. O que eu gostava era de passar a ferro os babetes dos bebés. A dona, uma espanhola, a Sra. Conceição tratava-me muito bem. Quando se chateava com os empregados pegava nos pratos e atirava-os ao chão. Mas gostava muito de mim, que era a menina que por lá andava”. Conta ainda que foi lá que conheceu, por irem de férias, “Salazar, a Condessa Castro e Sola e o Cardeal Patriarca Cerejeira. O Salazar nunca vinha jantar no salão mas queria que visse aquelas mesas quando lá jantou o Cardeal Cerejeira…”.

Tem memórias maravilhosas dos verões da sua infância. Descrições dignas de um filme.

O Casamento

Viviam lá no verão e o resto do ano era passado aqui, em Carvoeiro. Casou com 19 anos. Foi viver para S. José das Matas onde o marido trabalhava. Era empregado de escritório. Aos fins-de-semana iam para a Barca da Amieira, para casa dos sogros. O sogro era pescador. Lembra-se que, no verão, iam para os ilhéus que ficavam a descoberto no Tejo, onde o sogro fazia as plantações de verão naquelas areias ricas em lodo. Lembra-se de trazerem de lá melancias e melões.

Tinha já 3 filhos quando vieram para a Vila. O marido teve uma proposta melhor de trabalho. A filha mais nova, a sua Helena, já veio nascer a Mação. O marido trabalhava nos escritórios do Sr. Pombo e depois foi para os da Fábrica Mirrado. Quando a filha mais nova tinha 5 anos o marido teve um grande acidente de carro. “Tinha ido levar o patrão ao comboio, apanhou geada e foi contra um pinheiro grande. Fez um traumatismo craniano. Ficou muito mal…” Neves fala da difícil recuperação e, com alguma mágoa, da falta de atenção ao caso. Insistia sempre com o médico que o marido não estava bem, que devia sair daqui e ser visto por um especialista. O médico não ligava. O marido de Neves recuperou e voltou ao trabalho mas quando ia a andar caia muito. Mesmo muito. Foi de tal forma que, algum tempo depois, o mesmo médico que não o levou a ser visto por um especialista mandou chamar Neves e lhe disse que o marido tinha que fazer um tratamento ao álcool… Neves não consegue descrever o que sentiu… Explicou ao médico que “o problema dele não é o álcool, ele não tem é força nas pernas para andar bem, daí as quedas”. Passados 3 anos do acidente e a continuação das quedas permanentes, Neves foi falar com o seu médico, um outro, e suplicou-lhe que o mandasse fazer exames. “O médico viu-me tão desesperada que lá passou uma carta. Fomos para Lisboa. Quando lhe fizeram o exame à cabeça e viram o estado em que ficou do traumatismo craniano… mas já não podiam fazer nada, 3 anos depois os ossos partidos já tinham colado e afectavam a parte motora. Ficou paraplégico.” Foram 38 anos em que Neves teve que o ajudar a mobilizar-se, a sair da cama para a cadeira de rodas, a tomar banho, tudo. Perguntei-lhe se o marido ficou revoltado. Diz que não. Que rezava todos os dias o terço, lia e escrevia muito. Chegou a escrever para o jornal da terra. E via televisão, “o futebol, ai o que ele gostava de ver futebol. Olhe, parece mentira mas eu às vezes já não tinha cabeça para o desporto na televisão, vinha cansada e ralhava com ele, que queria ver outras coisas na televisão. Não acredita que desde que ele morreu (há 12 anos) olho para a televisão, filmes não me apetece, aqueles programas que dão também não gosto, acabo sempre por parar a televisão no desporto”. Rimo-nos. Remata que fala com o marido e lhe diz que é castigo, pelas vezes que ralhava com ele.

Tiveram 4 filhos, 2 rapazes e 2 raparigas. Tem 6 netos e agora 1 bisneto. É impossível não falar no nascimento do seu pequeno e muito amado bisneto Gabriel. É a luz dos seus dias. O Gabriel nasceu uma semana após a morte da avó Lena, a segunda filha de Neves que lhe foi roubada. Já antes tinha sido a sua Cila, mãe do neto Miguel que aguarda enquanto falamos, para mais um fim-de-semana. As suas grandes mágoas foram a perda das suas meninas. E quando pensamos que é uma dor sem fim ela sabe que é, é uma dor sem explicação. Conta que após a morte da primeira filha, Cila, uma vez sonhou que estava a falar com ela e lhe dizia para se deitar a seu lado e afastava as mantas e a filha lhe dizia que onde estava não sentia frio. Acordou, as mantas puxadas a seu lado e o lugar estava quente. Voltamos a falar que não, que esta passagem pela terra é apenas isso, uma passagem, uma parte de algo muito maior. Concluímos que nos damos tanta importância que achamos que esta vida na terra é tudo, e se calhar é um pequeno nada.

Digo-lhe que apesar de tudo é de uma doçura sem fim. Explica que passa uns dias mal, outros melhor, olha para os seus, os que tem, os filhos, os netos, o bisneto, tem por quem se alegrar. Vive assim, entre a dor e a alegria. De momentos. Mas sempre doce, esta nossa lutadora.

O trabalho no Hospital e Ramalho Eanes

Quando o último filho casou e saiu de casa Neves teve que procurar trabalho. Tinha 38 anos. A reforma do marido era de 17 contos. A filha Cila estava em casa dos pais com o bebé Miguel e as despesas eram muitas. Conseguiu umas horas no Hospital, mas só 4 por semana, não dava para nada. Quando me fala desta fase da sua vida Neves diz que “as amarguras fazem-nos ficar inteligentes”. Sorrio. Sorri também e passa a explicar. “Olhe, no Hospital não podiam contratar mais ninguém a tempo inteiro. Na altura Ramalho Eanes era o Presidente da República. Eu estava tão desesperada que lhe escrevi uma carta com tudo o que me ia na alma. Disse que se há direito às greves também devia haver direito ao trabalho. Não pedia pão, pedia que me deixassem ganhar o meu pão. Veja bem que até lhe disse que compreendia as mulheres que iam para a prostituição, tal devia ser o seu desespero…”. Rimo-nos. Neves conta que “uma semana depois ligaram-me do Hospital a dizer que tinham recebido do Presidente da Repúblico uma cópia da minha carta e que eu tinha que ir lá pedir desculpa ao doutor. Eu disse que não ia porque não tinha feito nada de mal, até escrevi na carta que compreendia que o Hospital não me podia dar mais horas, o sistema é que estava mal feito. No dia seguinte recebi a resposta da Presidência da República a dizer que me iam abrir um concurso para trabalhar a tempo inteiro e que eu não precisava de me inscrever, até porque não podia pois tinha mais de 35 anos. Entrei logo para o Quadro. Eu e outras na mesma situação. Ficou tudo resolvido”. Neves trabalhou 21 anos no Hospital. Reformou-se com 70 anos, aborrecida, pois ainda tinha muito para dar, adorava trabalhar lá.

Sangue azul… as memórias de uma não herança

Reza a história da família de Neves que no Minho viviam os Condes de Vau. Tinham apenas um filho. Rosa Angélica foi trabalhar para caso dos Condes. O filho dos Condes e Rosa Angélica enamoraram-se. Ela engravidou. De um menino. Os Condes não aceitaram o casamento. Deram o nome ao menino. Quiseram ficar com a criança mas a mãe perdia-lhe qualquer direito. Rosa Angélica não aceitou. Foi-se embora. O filho dos Condes, com o desgosto, foi para o Seminário. Consta que chegou a Bispo. O filho nascido, neto dos Condes de Vau do Minho, é o avô de Neves, Domingos José de Vau.

Rosa Angélica criou o filho na Beira Alta, na sua terra. O filho cresceu, casou e teve 8 filhos. Uma das filhas é a mãe de Neves que nasceu muito parecida com a bisavó Condessa. A mãe da nossa Neves trabalhava nas Termas das Caldas de Felgueira (foi lá que conheceu o marido, como já referimos). Quando a mãe de Neves tinha 17 anos os Condes de Vau do Minho foram passar férias ao Grande Hotel Clube. Ficaram impressionados com a parecença da menina à Condessa. Indagaram e concluíram que era sua bisneta. Falaram com a mãe, que a queriam levar um mês de férias para sua casa. A avó de Neves não deixou, com medo que lhe ficassem com a menina. O marido (a criança a quem tinham apenas dado o nome) já tinha, entretanto, morrido.

A mãe de Neves casou entretanto e veio para a terra do marido, Carvoeiro. Uma vez, veio um senhor do Minho para arranjar o relógio da torre da Igreja. O pai de Neves tinha um café que esse senhor frequentava. Entre várias conversas o pai de Neves falou da descendência daquela família do Minho. O senhor ficou impressionado, sabia que esses Condes tinham morrido há poucos anos, sem herdeiros. Quando voltou para o Minho foi investigar. Os Condes tinham morrido há 11 anos. 10 anos é o prazo para se reclamar uma herança, se não aparecerem herdeiros reverte para o Estado. Foi o que aconteceu. Tinha passado apenas 1 ano… Não receberam nada.

Neves mantém o nome, Vau, e a história. Que conta sem mágoa, de uma forma quase divertida.

Esta foi uma, entre outras heranças de família que marcam a sua história, que não lhes coube receber. Neves chega a sorrir quando conta uma, outra e outra história de heranças de tios que a sua família não recebeu. Remata com um “nunca recebemos heranças de ninguém. Quero lá saber!”.

Neves diz que a sua vida consiste em “trabalhar, amar os outros e não receber nada em troca”. O conselho que daria ao mundo é que “parem de criticar e de invejar e ajudem mais, há muito crítica e pouca ajuda”. E sabe do que fala! Tem tido uma vida atribulada, muito amargurada. Apesar de tudo mantém-se doce, amiga.

Querida Neves, a Lutadora, esta nossa doce Neves é um exemplo de vida. Sofre mas distribui alegria. Neves, que nunca recebeu uma herança não sabe ainda mas deixa-nos, a todos, a maior herança que se pode receber: o seu exemplo de vida. Se há Mulher que tem sofrido é esta. Conheço-a desde pequena mas nunca lhe vi uma má cara. Sempre, sempre pronta a ajudar. E sempre com um sorriso.

Neves, minha querida, muito obrigada pela Herança que é a sua maravilhosa maneira de ser gente. Da boa. Do melhor.

Muito, muito obrigada! O maior reconhecimento, de todos nós!

(1)    O Sr. Marques, como Neves lhe chama, nasceu na aldeia de Degolados, Carvoeiro. O pai morreu cedo e a mãe trabalhava na candonga, ia para Espanha vender enchidos e azeite para conseguir criar os filhos. Ainda miúdo arranjaram trabalho para o Sr. Marques em Lisboa. Conta que lhe compraram umas botas de borracha para ir calçado e lá seguiu, vaidoso com as suas botas. Foi trabalhar para uma pastelaria e os donos gostaram muito dele. Não tinham filhos. Deixaram-lhe a herança. Falamos, imagine-se, da Pastelaria Suiça.  O Sr. Marques vendeu entretanto algumas acções da Pastelaria e investiu no Grande Hotel Clube das Caldas de Felgueira. Lê-se no site das Termas de Felgueira “(…)eis que surge um homem determinado e com muita força de vontade o Sr. José Maria Marques Caldeira, que pediu e obteve a concessão da exploração das águas, formando-se assim a Companhia das Águas Medicinais das Caldas da Felgueira a 7 de Agosto de 1882. De seguida, deu-se a criação da Nova Companhia do Grande Hotel Club das Caldas da Felgueira em 1886(…)”.

maria

Image85 anos

Vejo-a, de há anos, várias vezes por semana, até porque vivemos relativamente perto. Vejo-a sempre da mesma forma, desconhecendo-lhe a idade. Vejo-a invariavelmente na sua bicicleta. Sim, sempre com a sua bicicleta. Vejo-a eu e todos quantos a identificam como a “Maria da Bicicleta”, como a própria diz. Na verdade não é bem uma bicicleta pois tem 3 rodas, será mais um triciclo em tamanho para adultos.

Cruzamo-nos várias vezes na mercearia, a fazer compras e foi aí que, desta vez, a abordei e lhe perguntei se lhe posso fazer uma entrevista. Estávamos já à porta. Ela diz que sim, mas que vai só ali “comprar uns rebuçadinhos para os ratos, que se esqueceu”. Rio-me com os rebuçadinhos… na volta começa logo por dizer que é uma vida com muitas amarguras e, adivinhando ao que vou, conta que “com 15 anos fui servir numa casa em Tomar, voltei com 18 ou 19 anos e fui aprender costura. Trabalhei 11 anos na Alfaiataria do Sr. Zé Simões”. Vêm-me as memórias, pois que sim, que me lembro bem de a ver lá.

Entretanto, conta Maria, “casei, tivemos dois filhos e enviuvei quando tinha 36 anos, … a minha filha tinha 11 meses…”.

Fala desta primeira tristeza mas diz que “a paixão maior foi a morte do meu filho há 4 anos…”. Maria, cheia de Fé, conta que “tenho uma fotografia do meu filho e de manhã beijo-o e dou-lhe os bons dias e ele dá-me força”. Já muito antes tinha perdido a nora, que também deixou os filhos pequenos.

Quando saiu da Alfaiataria Maria foi trabalhar para a Praia da Figueirinha, em Setúbal. Foi lá que conheceu o 2.º marido “eu tomava conta dos balneários e ele era responsável pelas barracas e pelos toldos da praia”. Entretanto voltaram para a terra. Esteve casada 14 anos, voltando a enviuvar. Maria foi casada 3 vezes, mas agora vive sozinha. A filha deu-lhe entretanto um desgosto, não a vê há vários anos. O filho, como já referiu, foi levado por uma doença há 4 anos. Deixou-lhe os 2 netos e, agora, uma bisneta, Carminho, recém-nascida.

Maria, que nasceu aqui há 85 anos, era uma de 7 irmãos, vivia-se mal. Fez de tudo em nova, que se começava a trabalhar bem cedo. Fez costura, lavou roupa para fora e tomou conta de crianças, algumas pouco mais velhas do que ela. Mas fez-se à vida, sempre. Acima de tudo, noto-lhe a enorme Fé, um acreditar que a faz andar em frente, todos os dias.

Há anos perdeu a visão numa vista. Um dia, a notícia de que a outra podia ter o mesmo destino. Foi a Fé que a fez acreditar que havia de voltar a ver bem. Acreditou na intervenção médica e na santinha a quem entrega a vida, Maria das Dores. Fez-lhe uma promessa, que havia de cumprir no seu Santuário em Espanha se a operação corresse bem. Como correu. O filho, à altura ainda vivo, bem lhe perguntou por que tinham que ir tão longe, mas tinha que ser, e foi. Explica, no seu jeito simples e sentido que “quando temos os sentimentos, temos que os viver”.

Maria tem realmente muita Fé e explica que “Deus já me tem dado muitos sinais”. Quando sai de casa, faz uma reza, que diz assim:

Da minha casa vou sair,

A minha vida vou governar,

Tantos Anjos me acompanhem,

Como passos eu vou dar.

Nosso Senhor me livre das enguiças de Satanás”.

No final, um Pai Nosso e uma Avé Maria. É sempre assim, antes de sair de casa, quase sempre na sua bicicleta.

Tem a bicicleta há 10 anos, comprou-a em Almeirim, dá-lhe muito jeito. É com ela que se desloca à Vila, é com ela que transporta as compras que faz. Há 2 anos foram contra ela e conta que “partiram-me tudo, a bicicleta e a cabeça, tudo. Paguei 17 contos para arranjar a bicicleta”. Recuperou-a, porque a ajuda muito, lá vai pedalando, acaba por fazer exercício e transporta o que precisa. Maria, aos 85 anos, desloca-se 2 ou 3 vezes até à vila e quem a vê acha-lhe graça, mesmo desconhecendo a sua idade…

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Maria tem duas casas, a sua a cerca de 1 quilómetro da vila e outra mesmo no centro. Comprou-a para o filho, agora será para os netos. Vai lá todas as semanas regar as plantinhas.

Falamos então de plantas, de animais, de todas as suas pequenas paixões e entreténs do dia-a-dia. Além de ter animais, cultiva uma horta. Fala do cão que lhe morreu há 2 anos, teve-o durante 8 e era como um elemento da família. Tem gatos e conta que “agora apareceu-me lá outra que fez o favor de parir um gatinho e agora pede-me comida, olhe, já aqui a levo” (a latinha, para o gato).

Maria tem patos, galinhas, pombos, rolas e cabras, “tenho uma cabrinha que criei a biberon, a mãe morreu no parto”. Conta também, a jeito de pequenas aventuras do seu dia-a-dia, que “outro dia abri a porta da despensa e saíram-me de lá dois patinhos, a pata chocou em cima do forno e eu nem dei por nada”. Ri-se. Depois lembra-se de um pinto para quem construiu uma gaiola que ele se recusou a usar, “ele não gostou dela, já viu os animais?!…” .

Fala ainda nas galinhas, conta que comprou uma poedeiras e que há uma com quem tem uma relação especial, diz que a galinha a cumprimenta e Maria responde “Olá Catarina, o que é que queres?

Mas depois fala de um episódio mais aborrecido. Maria acredita, com a Fé que a alimenta, nas energias que nos envolvem a todos, e que uns transmitem aos outros.

Já não é, note-se, a primeira entrevistada que mo diz, que acredita e eu começo a achar mesmo que sim, que é bem verdade! É daquelas coisas que, se calhar, devíamos pensar um bocadinho sobre elas.

Mas conta-me Maria que uma vez “veio lá um para comprar uma cabra, eu não a quis vender e ele ficou chateado. Olhe, fizeram-lhe tal macumba que não lhe consigo sequer beber o leite,  é que não se consegue beber.

Por fim, fala ainda da sua laranjeira que não dava nada, ora flores, ora folhas, não dava laranjas. Maria trocou-a de sítio, no seu quintal, no dia em que nasceu o filho dos Duques de Bragança, há uns 15 anos, “foi nesse dia para me lembrar e agora dá laranjas que é uma maravilha”. Tem destas coisas engraçadas, constrói-se no seu meio, ou no meio das suas coisas, para que os dias não se levem pela solidão.

E não levam, não levam porque Maria, mais a sua bicicleta e a Fé, não deixam.

A saúde não abunda, fala da espinha que ficou em mau estado depois do acidente de há 2 anos, o problema das varizes, dos tendões… mas não se deixa derrotar, diz que “quando estou cansada, vou-me sentar. Tudo se vai fazendo”.

À noite tem por companhia a televisão, mas só um bocadinho há noite.

Maria volta a referir- se a Deus, fala porque é a sua companhia permanente, diz que “Ele é o meu grande Salvador”. Cita a sua biblioteca, todos os livros que tem à volta da história de Deus e da Igreja. Fala ainda dos vizinhos. Diz que os da frente foram os primeiros a acarinhá-la. Com os do lado de baixo, quase como uns filhos, trocam produtos da horta, quando um tem mais de uma coisa dá ao outro. Quando precisa, o vizinho vem cortar-lhe a erva, tanto que lhe ofereceu a máquina que ela tinha pois não a conseguia usar. É esta troca de serviços e produtos que ainda se vai encontrando e que dão mais sentido a vidas que, muitos dias, podiam ser mais desacompanhadas.

Maria, que vem na sua bicicleta 2 ou 3 vezes por semana à vila aos 85 anos fala, constantemente, na Fé. Fico sempre impressionada com a Fé das pessoas, com o lado positivo e feliz que conseguem tirar da vida, apesar e acima de tudo. Dizem que a Fé move montanhas… acho que é isso que Maria quer dizer… ou mostrar… Maria, a Cheia de Fé, um enorme obrigado pelo Acreditar…

Entre esta nossa conversa e a sua publicação Maria já conheceu Carminho, a bisneta recém-nascida. Veio conhecer e festejar os 85 anos da Bisavó Maria. Maria já me mostrou, deliciada, as fotografias da sua Carminho, linda. Junto à de Carminho está a do pai e a do avô, o seu filho. Maria diz que “é a continuação… Da vida, pois claro!

césar

Image73 anos

Quando terminámos a nossa conversa senti-me saída de um filme, ou de uma novela. Acabou a conversa, depois de muito caminharmos no tempo e noutros espaços e, de repente, voltei a ouvir a televisão e o burburinho das pessoas à volta. Durante cerca de hora e meia, sentada com César numa mesa do café que lhe é homónimo, não me lembro de lá ter estado. Saímos dali e viajámos. Disse-lhe isso, ao que me respondeu: “É uma novela é, e grande!”.

Com 73 anos César tem uma história única para contar às netas. E planos para o futuro. Vamos à história? Claro!

Comecemos pelo início da década de 40 do século passado. Decorria a 2.ª Guerra Mundial. Portugal vivia num regime político autoritário e corporativista de Estado (o Estado Novo). Salazar governava. Vivia-se mal. Tanto mais numa pequena aldeia do interior de Portugal. Foi neste cenário que César, o filho mais novo de um total de seis começou, com 6 anos, a trabalhar. Sim, a trabalhar.

Com 6 anos achou-se “Moço do Correio”, para ajudar as fracas economias de casa. Com 6 anos fazia 1 hora de caminho a pé até à vila, junto com os adultos que vinham para os seus trabalhos. Vinha o pingente buscar a mala do correio que distribuía depois na sua aldeia e em mais três localidades vizinhas.

Quando César diz ”não tive tempo para crescer” percebe-se o porquê. O despachado rapaz, de 6 anos, não tinha sequer idade para levantar a mala nos Correios, era uma senhora que distribuía numa outra localidade que lhe levantava a mala e lha dava num ponto onde se encontravam. César pegava na mala, ou malas, e voltava uma hora de caminho mais os quilómetros entre as 4 aldeias. Distribuía as cartas aos seus Postos e voltava à vila a tempo de entregar a mala e voltar a pé para casa, novamente junto com os homens que voltavam do trabalho. Ganhava 4 escudos por dia, levava para casa 120 escudos por mês.

Aos seis anos de idade.

Quando César reforça: “Já nasci velho”, fala dos pais com mais de 45 anos quando o trouxeram ao mundo, mas fala também da maturidade que atingiu, talvez, cedo demais.

Começou a trabalhar aos 6 anos mas foi à escola. Claro que foi. Insistiu que o deixassem fazer a escola numa aldeia vizinha à sua e conseguiu. É que assim conseguia ir muito cedo à vila buscar o correio, distribuí-lo, chegar àquela aldeia a tempo da escola, sair da escola às 3 da tarde e correr para a vila a entregar a mala vazia, mesmo a tempo de voltar com os homens para casa.

Concluiu a 4.ª classe. Ainda hoje colegas de carteira daquela altura lhe dizem que devia ter tido oportunidade de estudar mais, que ele sabia e aprendia bem, mas não podia.

Concluída a escola, com 10 para 11 anos, foi dar serventia a Estucadores, foi ajudar a fazer minas, foi 3 anos para a Ceifa, fez azeitonadas, trabalhou em lagares. Com 16 anos, dentro dos trabalhos que ia fazendo, decidiu-se a trabalhar de verão na Resina e de inverno a fazer minas. Na resina o seu trabalho era o de fazer as feridas nos pinheiros e explica que “tinham que ser pinheiros adultos com, pelo menos, 65 cm de diâmetro. À altura do peito de um homem fazia-se no pinheiro a sangria a uma altura de 50 cm, ou seja, o pinheiro era descarrascado, tirava-se a capa. Nesse espaço, com um utensílio de ferro fazia-se a ferida, mas uma ferida certa, naquele espaço entre o fim da carrasca e o início da madeira, que não se podia danificar a madeira. Fazia-se a ferida e injectava-se na árvore ácido sulfúrico”. A resina escorria depois para os vasos para as raparigas irem depois buscar, entre elas Luísa – mais tarde a sua Luísa – que fazia esse trabalho. Já na altura os seus trabalhos se complementavam, tal como veio a acontecer mais tarde e para toda, mas toda a vida.

César refere que não havia muito trabalho certo, era preciso trabalhar e ser bom trabalhador, mas trabalho nunca lhe faltou. Relembra que uma vez, ainda novo, foi chamado para um trabalho, de cavar uma vinha. Pediu ajuda à mãe. “Fomos para uma horta e a minha mãe ensinou-me a cavar a monte. Cheguei para começar o trabalho e era para ser o aguadeiro, porque era magrito, mas quando o patrão me viu a trabalhar, já não fui aguadeiro.” No fim da semana pagaram-lhe o salário inteiro, como a um homem adulto e continuou lá a trabalhar, era o único rapazito. Relembra que “quando recebi o dinheiro fui todo contente levá-lo à minha mãe, que o dinheiro era todo para ajudar em casa”.

A tropa

Com 21 anos foi fazer a inspecção para a tropa. “Ia-se a sortes e diziam que eu ia ser livre da tropa mas o médico quando viu as minhas mãos, com os calos e as mazelas da resina, disse que eu, com rancho e ginástica, dava um bom soldado”. E lá foi. Das primeiras coisas que fez na tropa foi tratar da Pensão de Amparo para os pais. Era o único filho em casa, os irmãos já tinham saído, os pais já tinham idade, dependiam dele. Receberam uma pensão de 500 escudos durante os 26 meses em que prestou serviço na guerra, mais um depois de sair. César orgulha-se e diz “já era um bom dinheiro”. Dos tempos de tropa fala como tendo tido muita sorte. “Chamaram-se para o Serviço de Saúde. Fui Maqueiro, cheguei a Cabo de Enfermaria. Tive 17,93 valores na Escola de Cabos, está tudo escrito na Caderneta” (que ainda guarda). O País chamou-o entretanto para a Guerra. O destino foi Angola. Diz que voltou a ter sorte. “Não havia lá posição para Cabos Maqueiros, só Cabos Enfermeiros mas como tinha tido boas notas na Escola de Cabos fui para o lugar de Cabo Enfermeiro, Chefe do Posto de Socorro, fui lá bem tratado, um menino bonito”. Rimo-nos. Conta que andava sempre junto do Comandante, porque guardava os medicamentos. Integrava a Companhia de Comando e Serviços (CCS), o núcleo que acompanhava o Comandante: Rádio, Posto Médico e Decifradores. Não se queixa desses tempos, conta que na Caderneta Militar (a que ainda guarda) lhe “escreveram um louvor com 3 páginas, que explica tudo o que lá fiz”.

Quando terminou o serviço militar pensou ficar por Angola mas os pais, já de idade, pediram-lhe que regressasse. E César voltou à terra.

O regresso às origens

Explica logo que voltou “mas por pouco tempo, isto não evoluía”. Arranjou trabalho na Fábrica de lanifícios da Vila. Casou com a sua Luísa. Quis ir fazer vida na Alemanha mas, conta “tínhamos que ter uma licença das senhoras do Movimento Nacional Feminino para emigrar e elas não ma deram, porque tinha cá trabalho”. Estava na Fábrica há ano e meio, ganhava como Auxiliar e trabalhava como Operador de Máquina. Nasceu-lhe o filho. Se há coisa que se distingue no seu carácter é o de não se conformar. Pediu um aumento correspondente ao trabalho que desempenhava. Que iam ver, mas nada. Nova conversa, mais desculpas. “Despedi-me. Despedi-me mas na segunda-feira fui para lá cumprir o tempo que tinha a dar à entidade patronal e depois fui-me embora”. Foi para Angola.

Levou 500 escudos no bolso para se precaver. Assim que lá chegou pensou que não havia de passar ali fome. Mandou os 500 escudos para trás numa carta para Luísa e o menino se governarem até irem ter com ele. O dinheiro nunca lhes chegou. Ri-se. Sim, hoje em dia César ri-se ao contar que ficou ele lá sem dinheiro, e eles cá na mesma. Desapareceram os 500 escudos.

Novamente Angola

Passou 2 dias pelas ruas, dormiu literalmente num banco de jardim. Mas sabia onde havia de ir bater à porta. Ao fim de 2 dias encontrou um amigo com quem esteve na tropa, era motorista e ia, acredite-se, para o mesmo lugar onde César queria ir, a mais de 200 quilómetros de Luanda. Deu-lhe boleia. César chegou onde queria e foi bater à porta do Sr. Morgado, que era de cá e que tinha um negócio lá. Pediu-lhe trabalho. Tinha contratado um empregado há 3 dias. “Ele disse-me que de empregado não precisava mas que tinha ali tecto e comida até encontrarmos trabalho para mim. Fiquei lá 3 meses sem saber se ganhava ou que já lá trabalhava”. Não percebi o comentário mas César explicou-me depois. O tempo foi passando e ele ia ajudando no negócio, onde era preciso. Foi a uma casa pedir trabalho mas o Senhor disse: “estou cansado de amansar potros”. César conta que nesse dia ficou triste, magoado. Passados 3 meses veio um rapaz dos Santos, com quem tinha andado na escola, dizer que lá numa casa precisavam de um empregado. Foi aí que o Sr. Morgado disse: “quem os quer bons, arranja-os. Tu estás a trabalhar aqui desde o primeiro dia que aqui entraste. Deu-me o dinheiro para ir à Companhia comprar as passagens para a minha mulher e o menino”. E assim foi. Embarcaram de Portugal pelo Natal. A sua família chegou junto de si em Janeiro de 1967 “no dia em que o meu filho fazia um ano”. E dizem que não há coincidências…

Ficaram lá a trabalhar. Em 1969 o patrão chamou-o e propôs um género de sociedade. O Sr. Morgado vinha com a família passar 1 ano a Portugal e o contrato era que César e Luísa ficassem a tomar conta do negócio. No final, ganhavam 50% do lucro que conseguissem nesse ano. O filho, que era amigo dos filhos do patrão, veio com eles para Portugal. César conta que ele mais a sua Luísa atiraram-se verdadeiramente ao trabalho. “Nesse ano enviámos mais de 200 toneladas de café para Luanda. Fazíamos de tudo, empacotávamos o café e mandávamo-lo para lá”.

Quando o patrão voltou disse que, com aquela percentagem ia receber muito, não podia continuar a trabalhar lá. Negociaram, dos 50/50 actuais para os 60/40 e César explica que “era mais justo pois ele é que ficava a pagar a manutenção e as despesas”. Mas entretanto o Sr. Morgado chamou-o e fez-lhe nova proposta. “Ele disse-me que ia voltar definitivamente para Portugal, propôs-me, porque eu tinha ganho aquele dinheirito, que lhe comprasse o negócio. Eu pensei, pensei, fiquei cheio de medo mas fui em frente, fizemos negócio. Comprei-lhe a casa e o negócio”.

Podemos fazer uma pausa e dizer que os anos que vieram foram de ouro. Nasceu-lhe a filha, o negócio evoluiu, montou um segundo negócio numa vila vizinha. César fala, claro, de muito trabalho, mais a sua Luísa, mas naquela altura, relembra “não é que fosse assim muito, muito rico mas não tinha que olhar para o dinheiro quando queria comprar o que me apetecesse”. Conta ainda que se dava bem com toda a gente. Relembra que “uma noite, às tantas, um dos pretos que lá trabalhava veio chamar-me e dizia «senhor, a senhor, a minha mulher vai parir» e eu perguntei-lhe quem é que tinha feito o prenho,e lá fui servir de ambulância, fazer 20, 30 quilómetros pelo mato para a trazer para o hospital. Fosse a que hora fosse eles sabiam que podiam contar comigo”. O que lhe trouxe dissabores.

Relembra a altura em que mandavam recolher em camionetas os originários daquela zona. Havia uma família que trabalhava para eles e vivia ali junto, o filho de César comia lá em casa. Levaram-nos e ela disse, de cima da camioneta «Ó Patrão, deixa-me ir embora…». César comoveu-se e chorou.

Na altura do Natal a empresa fazia ofertas às autoridades locais. Quando já tinha os dois negócios as ofertas partiam da sede, mas em nome da companhia. César conta que chegava a fazer ofertas de 400, 500 contos, mas havia quem quisesse receber dos dois negócios. Começou a sentir que andavam em cima dele. César explica que “há coisas que nós sentimos, se passarmos por alguém na rua conseguimos sentir o que vem dessa pessoa, seja bom ou mau”. Falamos dessas energias, que sim, existem.

O princípio do fim

Veio o dia em que a PIDE o prendeu. Tinha ido buscar um carregamento de café a outra Tonga e tinha as guias para fazer o transporte ao nascer do sol, mas a essa hora já ele queria ter o café no mercado e fez-se à estrada. Apanharam-nos logo. A Segurança Pública. Deram-no como terrorista. A mulher fez-lhe uma mala e levaram-no. Esteve 29 dias a mais de 200 quilómetros de casa, ninguém sabia dele. A cela era pequena mas tinha uma cama e uma casinha de banho. Tinha uma vigia para a rua com uns 10 ou 15 cm. De manhã vinham recolher o colchão e os lençóis e à noite devolviam-nos. A porta tinha uma portinhola de onde o chamaram para interrogatório. Perguntaram-lhe tudo e mais alguma coisa. Inclusivamente porque tinha chorado quando levaram os pretos. Perguntaram-lhe, acusando-o de terrorista, se pertencia ao MPLA, à UNITA ou ao Portugal Livre. Conta que nem sabia da existência deste último partido. Respondeu “sou tanto ou mais patriota como o que me mandou para aqui, não me vendo”. Mandou ver a Caderneta Militar, que pediu à mulher para colocar na mala.

César pausa e explica que, se fizer um resumo da sua vida “olhando para trás vejo que há algo superior a nós que sempre me guiou”. Dá que pensar.

Mais quando explica que, no interrogatório, às tantas lhe perguntaram: “Você cumpriu o Decreto de 24 de Dezembro?”. É impressionante vê-lo a tentar explicar a velocidade a que começou a pensar numa coisa que não fazia ideia o que era. Explica que: “a minha cabeça nunca andou tão depressa, deu voltas e voltas, andava a mil e às tantas eu pensei que a 24 de Dezembro era a véspera de Natal e respondi: «Cumpri. Se calhar não era o que essa pessoa queria»”. Soltaram-no. Porque não tinham nada a que se agarrar. Conclui que “somos guiados”.

César fala dos anos que viveu em Angola com aquele sentimento que só se encontra em quem viveu nas antigas colónias e experimentou um bocadinho de paraíso.

Não quer lá voltar, diz que não aguentaria a emoção. O filho está, entretanto, emigrado exactamente em Angola. Fala da Roça Santarém, enorme, o paraíso na terra. Os campos ordenados e trabalhados em grandes quarteirões, bonito como nunca se viu no mundo. O paraíso.

Conta que ainda foi fotógrafo. Comprou os livros, estudou-os, deu 200 contos por um laboratório de fotografia e fez-se fotógrafo, a par do outro negócio. Fico sem perceber.

Pergunto-lhe se era um passatempo, uma paixão. Responde-me que foi uma oportunidade e explica que “a certa altura tornou-se obrigatório ter um cartão de residência, toda a gente. Saiu a lei que o cartão tinha que ter fotografia, foi uma oportunidade porque ali não havia fotógrafos. De dia trabalhávamos no negócio e, à noite, íamos para o laboratório fazer as fotografias, eu e a Luísa”. Sempre os dois, claro está.

O adeus ao sonho

Os últimos tempos que lá viveu não foram fáceis. Fala de uma noite em que “era tanto fogo, tanto tiro, tudo estremecia, ao ponto de as braçadeiras das portadas das janelas se arrancarem só com o estremecer. De manhã eram tantas cápsulas no quintal que se enchiam sacos desses do adubo. Outra vez caiu uma granada no quintal, fez um buraco que cabia lá um jipe desses pequenos que por ai há.”

Foi a Guerra Civil que acabou por o fazer voltar a Portugal. Primeiro mandou a família. Chegaram a Luanda e César explica que o que viram não tem explicação. “Matavam-se pessoas como se matam coelhos. Vimos cadáveres, valas comuns onde os camiões despejavam corpos. Aquilo não são coisas que uma criança veja. Os meus filhos passaram muito e sei que isso os afectou”. Mandou a família para Portugal e ainda ficou mas saiu de lá 12 dias antes da Independência. Chegou a Mação na véspera do Dia de Santos. Conta que voltou pobre, deixou lá 2 negócios, um com apenas 6 meses.

Voltaram e fizeram-se à vida.

Hoje César tem um dos cafés do cimo da vila. Ele mais a sua Luísa. Fala do medo que teve de uma doença que quase a levou e conta que “não achei que hoje a tivesse aqui”. Enquanto conversamos ela vai atendendo a clientela. Tem sempre uma palavra, um cumprimento.

César fala ainda do futuro, que o contrato do café termina dentro de ano e meio. Se não for renovado custa-lhe. Fez a casa. Tem-lhe o nome. É acima de tudo um entretém. Mas não se assusta. “Se não for este gostava de arranjar um mais pequeno, uma casinha só de sopas e uns cafezinhos. Se não ficamos em casa a olhar um para o outro, temos que ter alguma coisa para nos entretermos na velhice”. Nunca baixa os braços, isso não.

Conclui dizendo que “o caminho está aberto para toda a gente, mas alguns não o sabem encontrar”.

Um enorme obrigado a César, O Filósofo, César o Crente. Há realmente que acreditar. Vamos procurar o caminho?!

manuel

70 anos

Abordei Manuel de véspera, que tínhamos que ter uma conversa. Disse que não, que sim, que logo se via. No dia seguinte fui lá. Viu-me entrar na sua loja e disse “e não se esqueceu”. Ri-me.

Sentei-me e começámos uma conversa que foi uma verdadeira descoberta, uma vez mais, sobre uma vida que se cruza com a da vila. Grandes descobertas.

Manuel é Latoeiro. Toda a vida trabalhou com as chapas, deu-lhes formas e feitios, criou, com as suas mãos utensílios úteis e indispensáveis em casa e para a agricultura. Manuel, que com 70 anos, já tem 55 dedicados à sua arte, a latoaria. Tem duas filhas e quatro netos.

Manuel nasceu numa aldeia perto da vila. Perto hoje, pois antigamente levavam uma hora a chegar cá. Pergunto-lhe como era ser criança naquele tempo, ao que responde “era ir para a horta e brincadeira”. Fez a 3.ª classe na sua aldeia, Casas da Ribeira. Havia lá uma casinha, em cima era a escola, por baixo vivia a professora “que ainda é viva, está no Lar”. Após a 3.ª classe teve que ir para uma aldeia vizinha, Santos, “onde se fazia a 4.ª classe, já era uma escola oficial”.

O pai trabalhava na vila, na fábrica de lanifícios. Manuel foi, com 13 anos aprender com o seu Mestre a arte da Latoaria. Esteve, com esse Mestre, dois anos e meio a aprender. No final desse período a sua família mudou-se para a vila, que era onde já fazia (pel)a vida. Manuel tenta explicar-me onde era a casa onde aprendeu, mas já não existe, “era ali à frente perto de onde se volta para a Rua Nova, foi tudo abaixo, para alargar a rua”, que é hoje a principal da vila, onde vive e tem a sua loja e oficina. Conta que “só aqui passavam dois carros, à justa. Um dia atropelaram um homem e tiveram mesmo que alargar a rua”. Como curiosidade diz que “uma vez ia uma camioneta do Sr. Pombo a transportar a barca, para a Amieira, que a barca que lá está foi feita cá em Mação, e para passarem com a barca aquilo foi o diabo, passou à justa”.

O Mestre, com a necessidade de lhe demolirem a casa, acabou por deixar de trabalhar.

Manuel estabeleceu-se na mesma rua, mais acima. Tinha pouco mais de 15 anos quando começou na sua arte, por conta própria. A casa onde principiou, imagine-se, também teve que ser demolida para fazer uma rua. Rimo-nos com estas coincidências. O progresso da vila perseguia-o. Existiam 2 casinhas um pouco mais acima da que é hoje a sua, frente ao edifício da Câmara. Manuel conta que queriam fazer uma rua que viesse da entrada da vila até à rua principal, frente à Câmara.

O pai de Manuel tinha, entretanto, comprado uma casa que era de uma antiga tecedeira. Manuel estava para casar e o pai e o sogro construíram, no espaço dessa casa, a casa onde vive e trabalha até hoje. Situa-se, curiosamente, a meio caminho entre o espaço da casa onde aprendeu a sua arte e o espaço da casa onde se estabeleceu primeiro como Latoeiro.

Quando Manuel começou a trabalhar havia 3 Latoeiros na Vila, hoje é só ele. Manuel conta que “no início havia muito trabalho, depois foi diminuindo. Os canos para a água foram substituídos pelos de plástico, na agricultura foi-se deixando de trabalhar, acaba tudo”.

Antigamente Manuel fazia potes para o azeite, tubagens, latas para a resina, baldes, regadores, alambiques, aguadouros, acinchos, entre muitas outras coisas. Com a quebra no negócio foi optando por vender outros materiais como tintas, mangueiras, as próprias tubagens de plástico… “essa coisa do plástico tirou muito serviço à gente, mas é mais leve e mais barato…”.

Hoje em dia, conta que se levanta, vai à horta e abre a loja pelas 10 da manhã, “até que venham clientes, ou não”. Diz que “ainda se vai fazendo alguma coisa, algerozes e assim”. Mas uma das suas dificuldades é encontrar bom material para trabalhar. As suas peças sempre foram feitas em três materiais principais: a folha zincada, a folha-de-flandres e o cobre. Diz que “a chapa zincada ainda há, mas a de flandres só muito longe, antigamente vinha o viajante e fazia-se a encomenda que depois vinha de comboio e as camionetas do Sr. Pombo iam busca-las à estação, mas hoje isso acabou tudo”.

Uma das peças que ainda lhe vão pedindo são os acinchos para fazer queijinhos frescos “mas a chapa com a medida certa para fazer os acinchos desapareceu, quer dizer, deve haver mas os fornecedores têm que comprar grandes quantidades e não se aguentam, também vendem menos“.

Manuel continua a ver a Latoaria com o gosto de sempre. Diz que quando lhe pedem um trabalho “faz como o freguês quer”. Conta que “para fazer uma peça faço os moldes, recorto a chapa e costuro-a na máquina. Depois soldo-a a estanho, para não verter”. Contrariamente à complexidade que eu adivinhava à sua arte, diz que “é tudo feito a frio, é fácil, a chapa é boa de trabalhar”.

Manuel, que na televisão só vê as notícias, não muito animadoras, fala da sua carreira de Lateiro, como fala da própria Vila, ou do próprio país: havia muita gente, havia muito trabalho. Ponto final. Entretanto, diz que “houve uma altura em que houve muita emigração. Foram as pessoas, ficaram por lá os filhos. Há aldeias que dentro de anos desaparecem”. Pergunto-lhe se o preocupa o futuro dos netos, ao que responde que “não sabemos o que vai acontecer mas isto, como está, não vai parar a bom caminho, não”.

Num último exercício, porque falamos com o último Latoeiro da Vila, relembra as profissões que já desapareceram pois já ninguém trabalha nelas aqui e consegue enumerar e nomear 4 Sapateiros, 4 ou 5 Alfaiates (1 ainda faz uns trabalhos), 3 Ferreiros (ainda há 1), as Tecedeiras não sabe quantas eram, relembra ao longo dos tempos uns 4 Marceneiros e 1 Oleiro. Manuel refere os nomes, identifica as famílias e aponta-me um ou outro familiar dos homens que se dedicavam a estas profissões. Como referiu várias vezes na nossa conversa, acaba tudo.

A conversa caminha para o fim mas Manuel ainda me conta daquela vez que o Professor José Hermano Saraiva o visitou e filmou para um dos seus programas, feito em Mação. Ainda tem o vídeo e comenta que sempre gostou muito dos seus programas e o impressionava tudo o que lhe saia da cabeça, mas foi naquela visita que percebeu que “ele escrevia o que queria nuns cartões e depois estava um a filmar e outro ao lado a segurar o microfone e os cartazes para ele ler, mas isso não se via na televisão”. Rimo-nos com a sua descoberta, na sua oficina. Diz que lhe ofereceu uma Candeia e que o Professor lhe comprou um Aguadouro para oferecer a alguém.

Agradeço a Manuel, o Último Latoeiro a nossa conversa e a sua partilha. Saio feliz com as descobertas e, ao sair, consigo ver a rua principal com novos olhos, que acabaram de regressar do passado, de quando a rua era mais apertada e só cabiam dois carros à justa.

emanuel

72 anos

A imagem de Emanuel, na sua loja, cruza-se com as imagens de toda a minha vida, cuja duração há-se ser a mesma. Sempre o conheci ali e dali. Hoje, duas casas ao lado, mas sempre na rua principal da vila. O que mais se destaca nesta figura da vila é a simpatia ou, chamemos-lhe, cordialidade. Não acredito que alguém tenha alguma vez passado por Emanuel sem receber um cumprimento. Tem sempre um Bom Dia, uma Boa Tarde ou uma Boa Noite para dar. Sempre. E por aqui ficaria apresentado, para quem o conhece não haveria novidade se falasse apenas na sua cordialidade.

Podemos acrescentar, para o quadro ficar mais composto, a humildade do seu ser, essa humildade com que acedeu a esta entrevista mas advertindo que “não sei se tenho muito para lhe dizer…”. Claro que tem, Emanuel, tem a sua vida, para que se confirme na nossa memória.

Filho de uma das figuras mais marcantes da história e do desenvolvimento da vila a conversa sobre a sua vida remete para o negócio do pai onde trabalhou até ter o seu. Eram quatro irmãos, dois rapazes e duas raparigas. Falta-lhe o irmão, o seu amigo e apoio mais a falta que lhe faz. A conversa vai para o irmão várias vezes. Vai também para as irmãs. A mais velha, com quem vive desde que ela voltou de África e a mais nova que, nas suas palavras me “poderia explicar melhor as coisas”.

Emanuel nasceu e viveu sempre cá. Tem uma memória, que diz às vezes já faltar, de uma vila “com mais gente, mais viva, mas as ruas estão diferentes, isto foi tudo modernizado”. Lembra-se de “quando havia as carroças, poucos carros”. É do tempo de ir “à fonte, na Praça, com uma bilha de barro” e conta que electricidade em casa “só mais tarde, quando tinha uns 18, 20 anos. Usavam-se os petromax”. Ainda assim, conta, “nunca passámos fome, lá havia as suas crises…”.

A mãe era costureira “vinham as senhoras lá a casa, fazia-lhes vestidos”. O pai, entre muitas coisas que fez “fundou os bombeiros na vila”. Começou por trabalhar como alfaiate “depois entregou esse negócio ao meu tio e abriu o armazém de lanifícios”.

Emanuel, que em criança se lembra de brincar com uns carrinhos de madeira que se puxavam por um cordel foi à escola e fez a 4.ª classe. Ao iniciar-se no trabalho foi aprender a alfaiate. “Primeiro estive a aprender a alfaiate com o meu tio, andei lá uns tempos, depois fui trabalhar para o armazém de lanifícios do meu pai”. Fala-nos do negócio numa terra que girava à volta dos lanifícios. “Na loja vendíamos fazenda. Tínhamos muitas encomendas, vinham e pediam 5, 10 metros, nós cortávamos e vendíamos”. O pai adquiria as fazendas na Covilhã e também na fábrica cá da terra “em que chegou a ter uma parte”.

Na altura existiam os Caixeiros-viajantes que, conta, “ traziam encomendas de fora, de toda a parte, nós preparávamos as encomendas e íamos despachá-las, à altura, pela empresa de transportes do Sr. Pombo que depois as levava para o comboio. Ele fazia o transporte de pessoas e das mercadorias”. Os Caixeiros-viajantes, explica, “recebiam depois uma comissão pelas encomendas que traziam”. Além disso, “vendíamos para outras lojas e para os alfaiates”.

Depois de trabalhar na loja do pai abriu o seu próprio negócio, com a ajuda imprescindível, que não pára de referir, do irmão Rui. Abriu, na rua principal da vila, a Xara Boutique que, como refere, “era um pronto-a-vestir que à altura tinha muito movimento”. Lembro-me de sempre do seu pronto-a-vestir que apresentava sempre as novidades e a excelência das boas marcas. Era um bom negócio? Pergunto-lhe.Era, era, era bom. O meu irmão é que ia comprar tudo, ele é que escolhia”.

Na loja há ainda calças de ganga marca Lee, poucos tamanhos, mas bons preços. Figura ainda o antigo manequim de veludo preto que mostrava as toilettes e o acompanha desde sempre e várias peças de roupa que já decaíram e estão novamente na moda, soubesse boa gente o que ali se pode descobrir.

Conta que hoje, já reformado, “isto tem decaído, tenho a porta aberta para estar ocupado” e conta que depois de o irmão falecer “já pouco se comprou”.

Emanuel passa o dia na loja, lê o seu jornal diário e cumprimenta sem distinção quem passa. Sempre. Ao fim do dia gosta de dar um passeio para distrair.

Emanuel talvez não sabia mas tem um nome que quer dizer “Deus está no coração dos homens puros”. Perfeito.

É com o seu jeito humilde e simpático que, dia após dia, Emanuel, o Cordial, nos ensina que nos pequenos gestos está a diferença. O bem que sabe um cumprimento. Que nunca lhe falta.

Obrigada, Emanuel, uma Boa Tarde para si!

Você na TV

Amanhã, sexta-feira, vejam o programa “Você na TV” do Manuel Luís Goucha e Cristina Ferreira, na TVI.

Vão dar uma reportagem sobre o Pequeno-almoço moderno, na cidade, e à antiga, no campo.

Foram entrevistadas 3  senhoras de Mação: A D. Nazaré, a D. Cremilda e a D. Belmira.

Acompanhei a reportagem e acho que vão adorar!!!
Amanhã, dia 10 de agosto, de manhã!